Minha sombria Vanessa

agony2Minha sombria Vanessa, de Kate Russell

Primeira coisa a dizer: se você possui algum tipo de sensibilidade maior em relação a abuso sexual infantil/ adolescente, não pode ler este livro. A não ser que seu terapeuta recomende.

Quando falei sobre Lolita, deixei claro que nunca havia encarado aquela história sórdida como um romance. Na melhor das hipóteses (quando da primeira vez que li o livro, talvez com uns 13 anos), o relato de um homem doente e digno de pena que destrói a vida de uma adolescente. Hoje em dia, pena nenhuma. Minha sombria Vanessa, contada pela vítima, eviscera Lolita (contada pelo monstro estuprador) e a transforma em um retrato cru de como se dá o abuso infantil e como muitas vezes a própria vítima não se vê como tal.

A Vanessa de Minha sombria Vanessa tem 15 anos, e não 12, como Lolita. Mas é a mesma perversão. Um velho nojento estupra uma menina de 15 anos, sua aluna, que se torna emocionalmente dependente dele até a vida adulta.

A história começa 17 anos depois do início do “relacionamento”. No contexto do movimento Me too, uma ex-aluna qualquer do professor nojento o denuncia em uma rede social. Não fica explícito o que exatamente ocorreu, mas percebemos que o professor, um homem de quase 60 anos, sente-se encurralado, vitimado, ofendidíssimo. E Vanessa, tonta, liga para ele para “dar apoio” (desculpem o tonta, se a gente racionalizar, claro que ela não é tonta, é só uma pessoa destruída, mas meu ego indignado não para de perguntar: como assim, imbecil?????). O livro intercala o momento atual, em que Vanessa aos poucos se descobre uma mulher vítima de hediondo abuso, e sua história passada, o início, meio e fim da relação com o homem que a destruíra.

Ela tem apenas 15 anos e estuda em um colégio interno para o qual insistira em ir, no interior do Maine, um dos estados mais frios dos Estados Unidos, pra lá de Massachusetts. Tem poucos amigos (acabara de brigar com a única amiga próxima, por causa de namorado), sente-se deslocada o tempo todo e tende a se isolar. Curte literatura e história, mas ainda não tem nenhuma paixão específica por estas disciplinas. Até que se inscreve no clube de redação, que faz o jornalzinho da escola e que tem apenas um outro integrante além dela mesma, um garoto pouco mais velho, e em que o orientador é ninguém menos  que o pedófilo Jacob Stane, de 42 anos. Não, ele não é um gato, um coroa charmoso, um quarentão cheio das bossas. Ele é esquisito, alto demais, barrigudo demais e _ bom, nada disso faz diferença, mas o comentário vem desfazer a imagem romântica da adolescente que, em busca do próprio amadurecimento, se encanta por um homem atraente e magnético. Não, Jacob é nojento em todos os sentido. Mas mostra-se atencioso, faz elogios a sua aparência física e a seus talentos intelectuais e literários. Atrai a menina aos poucos para situações das quais ela não consegue nem perceber direito que deseja escapar.

Pedófilos são predadores. Eles detectam com cuidado as crianças com potencial para se transformarem em suas vítimas. Meninas adolescentes muitas vezes se sentem desvalorizadas, inclusive pelo machismo e agressão diretas dos garotos, que as tratam mal, são péssimos na hora do vamos ver (cuidado e atenção zero) e agem de forma completamente retardada em todos os sentidos. Os “homens mais velhos” (esse mito escroto que só recentemente começamos a tentar destruir) parecem tratá-las com mais respeito, compreendê-las melhor.

“Segundo ele, de tempos em tempos ocorriam romances entre professores e alunos em Browick, mas ele nunca tivera um porque não sentira esse desejo. Eu era a primeira aluna que tinha colocado essa ideia na sua cabeça. Havia algo em mim que fazia o risco valer a pena. Eu tinha um poder de atração que era como um ímã.

A questão não era eu ser tão jovem, não para ele. Acima de tudo, ele amava minha mente. Dizia que eu tinha a inteligência emocional digna de um gênio e escrevia como um prodígio, que ele podia conversar comigo, confiar em mim. Ele dizia que escondido bem fundo dentro de mim havia um romantismo sombrio, do mesmo tipo que ele via dentro de si. Ninguém nunca tinha entendido esse lado sombrio dele até eu aparecer.”

Mas que caô.

Minha filha, ele só quer te comer. Mas quando você tem 22 anos, sabe o que isso quer dizer. Com 15, a garota só imagina que finalmente alguém descobriu seu valor, por tanto tempo ignorado. Alguém acha que ela é fascinante e irresistível. Alguém compreende, finalmente, seu sentimento de não se encaixar.

Só que não, mané.

Acredite se quiser, ainda tem muita gente que romantiza esse tipo de coisa. Ainda tem gente que acredita que mulher “amadurece mais rápido que os homens.” Na verdade, as cobranças chegam mais cedo e elas são obrigadas a crescer no tapa, enquanto machinho é rapaz até os 40 anos. Ainda tem gente que diz que idade é apenas um número, e que não deveríamos interferir se uma menina (ou menino, no caso, vale para os dois lados) resolve ter um relacionamento com uma pessoa de 42 anos. Que não deveria ser ilegal pois muitas pessoas já sabem o que querem com essa idade.

Mas a maioria esmagadora não. E é nessa galera que a gente pensa quando aceita essas leis, nessa maioria vulnerável que não percebe o quanto um relacionamento desse tipo com um adulto pode devastar sua capacidade de construir relações saudáveis. Quando vi a matéria sobre o lançamento desse livro, uma mulher comentou na página que inicialmente ela tinha achado romântico, a história de um amor impossível (esse povo adora esses romantismos, Jesus), blá blá blá (horror, ó, horror) mas que a medida que lia o livro, ficava cada vez mais claro que havia sido estupro, havia sido abuso, havia sido violento. E havia destruído Vanessa, incapaz de encontrar uma carreira (ela, antes tão capaz e dedicada, escritora nata), incapaz de se relacionar com homens, bebendo e fumando maconha constantemente, ainda sem amigos, mentindo para a terapeuta. Relacionamentos sempre expressam relações de poder, e não tem como um professor velho de 42 anos ter uma relação saudável com uma menina virgem de 15 que é sua aluna. É simples assim.

O livro de Russell descasca a história, que sobe de tom a cada capítulo que passa, explicitando a violência (sim, ele a estupra com violência física pelo menos 2 vezes) e a dependência de Vanessa em relação a ele, até chegar ao ponto que ela não se sente capaz de existir sem essa história. Aos poucos ela começa a se ver como a vítima que é, pois ao longo de metade do livro ela insiste, “eu quis ir para a cama com ele.” Mas o livro mostra que não foi bem assim, nunca é bem assim. Se os adolescentes passam por aqueles momentos fogo no toba, se experimentam com seu corpo e sua sexualidade, nós adultos estamos aqui para fechar os olhos para essas viagens e não deixar que se transformem em pesadelos. Há uma cena no filme Meninamá.com em que a adolescente rebelde diz exatamente isso, quando o abusador em potencial reclama que ela o provocava, etc: “eu tenho 14 anos, e se eu esfrego meu peito no seu braço, é pra conhecer a sensação. Para descobrir como é. Você que é adulto tem obrigação de não entrar nesse jogo.” Algo assim.

O predador consegue inverter o jogo e fazer com que a vítima se sinta culpada pelo que aconteceu a ela, que quase pede desculpas por existir, já que sua existência perturba de forma tão aterradora um homem de outra forma comum. É isso que um predador faz, transforma seu interesse perverso em uma força irresistível provocada pela vítima, que se sente quase lisonjeada diante de tanto poder.

Bom, fica a dica. Um livro poderoso, triste, fascinante.

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