Nove Desconhecidos

NoveDesconhecidos

Nove desconhecidos, de Liane Moriarty

Eu ri de gargalhar quando li esse livro. Não, não por ser um livro de humor, por assim dizer. Mas por trazer de forma ácida, hipersagaz e ultraperspicaz aquele lado constrangedor, necessário e lugar-comum das nossas buscas existenciais.

Nove pessoas hospedam-se em um spa haribô, ou seja, com uma proposta de terapias holísticas e alternativas, o que, no nosso mundo, pode ser quase qualquer coisa: de acupuntura a meditação e terapia de vidas passadas, passando por aromaterapia, coaching e sei lá mais o que. Uma salada de diversas práticas e conhecimentos (milenares, inclusive) que, realizados por diletantes e aventureiros, em um ambiente descontextualizado, transforma sabedoria em pastiche e picaretagem.

Essas nove pessoas são super diferentes entre si, o que torna a história muito interessante. Alguns estão na casa dos 50, outros, na casa dos 20. Tem casal, gay, solteiros, enfim. Uma galeria de personagens cujas histórias e objetivos vão se desenrolando aos poucos. Mas todos estão lá para “serem transformados,” ao longo de dez dias de terapias radicais, algumas delas incógnitas para os hóspedes.

A proposta fala de forma direta a muitas pessoas nesse mundo perdido de meu deus, a gente entra em qualquer rede social e vemos milhares de perfis anunciando cursos, vivências, workshops que promovem um vago aprimoramento pessoal – que pode ser conectado com alcançar o sucesso profissional/ financeiro, elevação espiritual ou paz interior. A hostess e proprietária do spa pergunta com todas as letras: quem aqui está satisfeito com quem é? Quem quer ser transformado nos próximos dez dias? E, por variadas razões (crise emocional, medo da morte, crise conjugal, luto, ansiedade) todo o mundo embarca na mais louca aventura das suas vidas (sem sabe-lo).

[SPOILER]

O livro acompanha o dia a dia de todos os hóspedes no spa, suas histórias pregressas e motivações para estar lá. Não há um fio condutor principal, e de vez em quando rola uma barriga. São muitas histórias, afinal. Mas é uma barriguinha. A variedade de temas envolvidos e biografias de cada hóspede impedem que a história fique chata.

Lá pelo meio do livro rola uma reviravolta. É quando a russa louca, proprietária do spa, mete o louco geral e droga todo o mundo, sem o conhecimento das pessoas envolvidas. O que é um horror. Claro.

Eu ri bastante nesse momento porque juro que não esperava, e as reações das pessoas é algo. Mas acho que nem todo o mundo riria. A historia se desenrola, depois do spa vai cada um para um canto (bom, mais ou menos) e me incomodou um pouco a forma com que o incidente com as drogas acaba tratado pela autora. Podia ser muito pior, claro. Tipo, ela podia demonizar a parada mas nem foi isso. Acho que se ela introduziu um tópico tão sério, deveria ter tratado com seriedade até o fim, e achei meio leviano alguns posicionamentos que percebemos como norteadores na história. Em tempo: terapia com MDMA, LSD, DMT é uma coisa séria e vem sendo estudada há vários anos, para depressão, ansiedade, TSPT, só  para dar alguns exemplos. Falei “terapia,” não falei putice de playboy que fica buscando ondas radicais pra ir pra balada.

Meninas, eu li

Metade do “elenco” do livro é mulher, inclusive a louca dona do spa. Mas dela melhor nem falar, é muito spoiler.

Há Frances, escritora de 50 e poucos anos cujo incrível sucesso a impediu que percebesse sua estagnação. E uma bela manhã, acorda para descobrir que seus romances açucarados eram “lixo misógino” que vendia sonhos típicos de uma sociedade machista para mulheres insatisfeitas com suas vidas. Ela gosta de sair, de beber, de trepar e ser feliz, e adorei ver uma personagem assim, uma cinquentona cheia de vida (Sandra Bullock, Nicole Kidman, Cate Blanchet, Jennifer Aniston, Julia Roberts, todas cinquentonas viu gente). Mas ela passa  pelos percalços de uma cinquentona solteira (divorciada) e sem filhos diante de um mundo preconceituoso. Ela se sente às vezes invisível, um estereótipo ambulante, em especial quando lida com pessoas jovens. Tem um momento em que fica furiosa com um policial e se vê na vontade de dizer para ele que era uma pessoa real, com uma história, desejos e talentos que ele jamais poderia imaginar. Também tem um momento em que ela debocha de um personagem criado por um jovem escritor: um detetive cinquentão (sic) com mulheres de 20 literalmente rastejando a seus pés, querendo sexo desesperadamente. Ela diz “que meigo que o autor de óculos imagine que isso acontece, vai sonhando.” Na minha época de 20 anos não acontecia não. Claro, tem doida pra tudo, mas isso nunca foi comum não, lamento desapontar. Só nas novelas do Manoel Carlos e nos livros do Rubem Fonseca.

Tem também Carmel, uma dona de casa cheia de filhos que fora trocada por um modelo mais novo. Inteligente e anteriormente bem-sucedida, vai para o spa para tentar recuperar sua voz no mundo. Ela acaba meio que se reencontrando, sua própria personalidade e identidade além de mãe e esposa, e reencontrando a sororidade diante da atual do ex, que nunca fora má pessoal (não foi uma história de traição e tal) e tinha seus fardos típicos da sociedade patriarcal.

Tem também o jovem casal recém-rico (milionários de loteria). A parte feminina do casal se dedica a uma carreira de silicone e instagram, e não entende porque o marido a critica tanto por isso, já que ele aparentemente passa a se relacionar mais profundamente com seu carrão esportivo…

Há outras mulheres também, com histórias e destinos muito próprios. Nem tudo é graça no livro, aliás, muita coisa não é. Mas é perspicaz e vale bem a pena.

novedesconhecidos

Para ler bebendo…

Eu preciso muito recomendar essa cerveja. Não, não experimentei e amei, nunca nem bebi. Mas preciso recomendar essa Weiss para uma história em que todo o mundo busca se jogar na mudança e mandar os problemas pra puta que pariu.

É a WEISS FUDER.

É o nome da cerveja.

Precisa dizer mais?

Um dia eu experimento e conto.

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