Orgulho e preconceito

orgulho

Amor a primeira vista. Rapaz solitário encontra moça solitária, os dois cruzam apenas um olhar e pronto, ambos têm certeza de que estão destinados a ficar juntos o resto da vida. Nunca, em minhas décadas de vida, conheci na vida real uma história dessas. Conheci sim, pessoas que imediatamente, por nenhuma razão visível, sentiram-se atraídas por outras de forma avassaladora e inevitável. Posteriormente elas mesmas podiam confundir isso com amor, e as vezes até se transformava em amor. Mas aquele desejo fulgurante? Tesão, né gente. Eu não consigo confundir desejo nem com paixão, quanto mais com amor.

Bom, o primeiro nome do livro Orgulho e preconceito, de Jane Austen, era Primeiras impressões, mas acabou sendo alterado para publicação. Só que o primeiro título reflete exatamente do que se trata a história: o quanto nossas impressões iniciais sobre alguém podem nos impedir de conhecer aquela pessoa que pode, afinal, se tornar um grande amor. Publicado em 1813 (embora terminado mais de uma década antes), o livro conta várias histórias, sendo o fio condutor o caminho percorrido pela jovem Lizzie Bennet, segunda filha de uma família de várias irmãs. Ela é espirituosa, inteligente, tem ideias próprias e não se sente nem um pouco confortável com as tradições relativas a submissão feminina na sociedade. No início do livro ela conhece um sujeito muito, muito rico, e super metido (Lizzie é da baixa aristocracia rural, e pela legislação inglesa, que não permitia que mulheres herdassem propriedades, estaria na rua da amargura se não arrumasse um marido) chamado mr. Darcy. Ele dá uma de esnobe, ela não gosta e resolve esnobar de volta. Fora isso, um milhão de equívocos e mal-entendidos acabam afastando Lizzie de Darcy, que sentia atração por ela mas ao mesmo tempo mostrava-se reservado demais, esnobe demais, e (sempre me deu a impressão) perdido demais, sem saber como lidar com a jovem.

Claro que no fim do livro tudo se resolve. A atração inicial pode se transformar, finalmente, em amor genuíno. Acho que se as meninas do sexto ano lessem esse livro com atenção, não iriam cair no golpe do “eu faço qualquer coisa porque estou apaixonada.” Lizzie sente-se atraída por Darcy, mas se desencanta por ele pois o acha um babaca. Que bom seria se nossas meninas fossem assim, né. Ter a percepção de que o cara não merece sua atenção se for um babaca. Claro que depois o rapaz se mostra um cara legal e tal, mas Lizzie deveria ser um exemplo de moça independente e cheia de brio. Tudo bem que ela também se deixou levar pelo orgulho e falsas impressões, mas o ponto central deveria ser: o cara pode ser gostoso, mas se for um babaca, esqueça.

O livro descreve a sociedade rural inglesa da época, seus maneirismos, seus preconceitos, sua graça. Aliás, graça é o que não falta no livro, Austen é bem irônica, faz piada com as expectativas e costumes da sua época. Diferenças de classe social, mulheres em desvantagem, jovens em dilemas, casamentos – são os temas do livro que Austen também explora em outras obras. Orgulho e preconceito fez sucesso na época, assim como, Razão e sensibilidade, outra obra sua.

Meninas, eu li

Frances Burney, as irmãs Bronte, Jane Austen. Apenas alguns poucos exemplos de escritoras que, em fins do século XVIII e início do XIX, publicavam livros na Europa anglo-saxônica. No universo ibérico, ainda mais repressor, católico e patriarcal, era raro mulheres sequer expressarem suas opiniões em público. Não que a vida das mulheres na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha fosse uma beleza, imagine! Mas que suas possibilidades eram maiores do que as pobres hispânicas, eu não tenho dúvida.

Os livros de Austen sempre trazem questões ligadas a posição inferior que a mulher ocupava: obrigação de casar cedo, interdição ao direito de herança, boas maneiras. Ainda assim, suas heroínas em geral casam por opção e por amor. Lizzie recusa um casamento de conveniência – aliás, dois. E só se resolve a casar com Darcy depois que ele demonstra amá-la, respeitá-la e que não era um babaca.

Volta e meia há uma história de moça caída em desgraça nas histórias de Austen. No caso de Orgulho e preconceito, a irmã mais jovem de Lizzie foge com um patife, antagonista de Darcy, e basicamente sua honra só é salva porque os dois são arrastados ao casamento. Suas personagens femininas, no entanto, são sempre marcantes mesmo quando antagonistas.

Quem leu o Diário de Bridget Jones sabe que as desventuras da mesma são inspiradas nesse livro, que inspirou muitas outras obras, livros, peças.

aristocrata

Para ler bebendo…

Barley wine. Não, não é um vinho, mas um tipo de cerveja bastante antigo que ganhou o apelido de vinho de cevada por ter um teor alcóolico próximo ao do vinho. Como sua produção exigia uma grande quantidade de malte, seu preço era elevado e acabava consumida pelas parcelas mais abastadas da população. Uns aristocratas, talvez. Mas esse nome só foi aparecer em um rótulo de cerveja no século XIX.

A barley wine é basicamente uma ale bem mais forte, embora atualmente variados processos de produção tenham sido incorporados, como o envelhecimento em barris e etc. Seu sabor é intenso, complexo, amargor presente e cor mais escura. Mas muitos defendem que não é precisamente um estilo em si.

Ok, a Brewlab não é aristocrática e nem inglesa, mas fez uma ale decente chamada Aristocrata, com 58 IBU, 10% de proporção de álcool e uma garrafa muito legal. Faz tempo que não vejo, então talvez tenha sido descontinuada.

Precisa avisar que a temperatura de serviço não é zero grau? Beba quando chegar aos dez graus de temperatura.

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