Na escuridão da mente

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Na escuridão da mente – Spoiler alert

Paul Tremblay

Quem já leu O Iluminado (de Stephen King) com atenção sabe que, até o momento derradeiro, não há nenhum indício muito claro de que havia forças sobrenaturais interferindo no destino da família Torrance. O limite entre loucura humana e monstros sobrenaturais oferece as mais incríveis possibilidades ao bom escritor de terror.

Paul Tremblay em seu livro Na escuridão da mente brinca com esses limites [SPOILER ALERT].

A jovem Merry conta os eventos que marcaram sua infância a uma jornalista que está escrevendo um livro sobre os tais fatos aterrorizantes. Logo no início temos a impressão de que somente ela sobreviveu, impressão confirmada na segunda metade do livro. Portanto, é uma história com apenas um ponto de vista.

Quando criança, sua família esteve no centro de um pavoroso reality show que girava em torno da suposta possessão de sua irmã mais velha Marjorie, de 14 anos, e do exorcismo a ser realizado pelos homens de bem da igreja, apoiados por seu pai. O programa televisivo termina em desastre (embora a família Barret tenha saído financeiramente melhor do que entrara no jogo), devastando as pessoas da família e deixando a jovem Marjorie ainda incapacitada mentalmente.

Merry começa a contar a história a partir da época em que a irmã mais velha era levada a psicólogos para que seu comportamento errático e agressivo fosse controlado. Sob stress intenso, seus pais não conseguem mais pensar em soluções: sem dinheiro para terapias e instituições caras, vivendo uma crise econômica da qual o pai é a primeira vítima, deixando a mãe como única fonte de renda, a aproximação com a religião acaba parecendo uma saída. Neste caso, é o patriarca, alijado do seu papel de provedor pela crise e de fonte natural de todas as decisões pela sociedade moderna em que supostamente os direitos são iguais, que toma o radical rumo de procurar “ajuda espiritual,” ou seja, levar umas batinas pra casa e tentar expulsar uns demos que se enfiaram no corpo da sua filha rebelde querida. Logo um canal televisivo se interessa pela história, e o canto da sereia cifrada acaba vencendo (parcialmente) a resistência da mãe, que se via em um beco sem saída ou solução.

Merry deixa claro o tempo todo que sua história é uma narrativa infantil, e que ela se lembra inclusive de ter inventado algumas coisas para “apimentar” o programa e deixar todos mais felizes. Ela tem uma relação de doentia submissão à irmã, que a tortura e manipula o tempo todo. A medida que a história avança, permanecemos na dúvida: essa menina (Marjorie) está fingindo, ela é doida de pedra, ou tem mesmo o diabo no corpo? E a dúvida permanece até o final, em que Merry finalmente revela, pela primeira vez, o que de fato aconteceu.

Meninas, eu li…

Gosto de filmes de horror, mas odeio esse papo de exorcismo, possessão, etc. Acho bem babaca. Pega o mais baixo nível da mitologia cristã, bate no liquidificador com todos os estereótipos da sociedade patriarcal/ machista e serve com gelo e cenas nojentas. Baf.

Em geral são demonstrações explícitas do medo que os homens têm das mulheres: a possuída é uma moça jovem que realiza atos obscenos, para horror dos pobres padres das histórias e gáudio das entidades mitológicas pré-cristãs que deram origem ao mito dos demônios. A moça precisa ser virtualmente torturada para que se submeta aos valores cristãos e expulse o demônio do seu corpo. Essas babaquices.

Na escuridão da mente (escrita por um macho, contudo) joga precisamente com esses estereótipos todos, desmontando-os um a um, manipulando-os e reconstruindo uma história genial e inesperada com estes elementos. É dito com todas as letras que toda a história da família estava sendo analisada e “resolvida” sob uma perversa perspectiva machista. Fica muito óbvio que o pai está amargurado e sente falta de estar no controle, e assim toma a decisão unilateral de levar a filha à igreja, conversar com o padre, para fúria da mãe. A equipe televisiva, que prepara o reality, é toda masculina, e eles editam as cenas de forma que a mãe sempre apareça descabelada, fumando, com olhos vagos e assustados, negando a realidade sobrenatural estabelecida pela equipe, sem respostas para as aflitivas perguntas que a todos preocupavam. Como diz Merry, uma São Tomé meio fora do rumo e com maus hábitos. O pai, embora tão ou mais desesperado, é retratado como a figura serena e firme de uma família em pedaços, indicando o caminho a seguir. O desastre do programa o deixa ainda mais desestabilizado, e a família fica ainda mais sem rumo.

Marjorie assusta e manipula a irmã com histórias horrendas de homens que haviam perdido o emprego e o respeito por si, assassinando suas famílias e muitas vezes cometendo suicídio em seguida. Essas histórias são reais, acho que existe até um termo para definir este padrão de comportamento. A lenda de Medeia é, assim, uma grande injustiça histórica e uma lição de moral machista que na verdade, não corresponde a realidade, pois homens tendem a matar seus filhos quando desprezados pelas esposas e ex-esposas, e não as mulheres.

O final do livro não azeda em nada essa exposição franca da misoginia em histórias de possessão. Alguns acharam ambíguo (sobrenatural ou psiquiátrico), mas eu pessoalmente acho que ficou tudo muito claro. Nós, serem humanos, temos um pavor tão indescritível do nosso próprio potencial psicótico que precisamos nos agarrar a fantasias de outro mundo.

petrusnitro

Para ler bebendo…

Vamos tomar uma belga para ler um americano, vamos? Petrus Nitro Cherry Chocolate. Maltes torrados, cereja, chocolate, café. Esses são os sabores evocados pela cerveja. Parece uma bagunça, mas não é. Ah, e também reza a lenda que introduzem nitrogênio na garrafa. Uau.

É uma quadrupel. Ou seja, segura a onda, teor alcoolico alto (8.5), escura, espumosa (tecnicamente, carbonatada). Adocicada, quase uma sobremesa. NÃO BEBA GELADA, CACETE. Temperatura de serviço, uns dez graus.                 ⠀

 

 

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