Millenium: e Lisbeth Salander

salander

Trilogia Milenium

Eu sempre relutei em ler a Trilogia Millenium, de Stig Larsson, apesar de o enredo, teoricamente, ter muito a ver com machismo, sociedade patriarcal e etc. Relutava porque é uma série que foi escrita por um homem, e por um milhão de razões (principalmente, a necessidade de ouvir as mulheres porque não costumam ser ouvidas, em especial quando se trata de falar delas mesmas) resisto a dar preferência a literatura sobre mulheres escrita por homens, que já falam de nós o tempo inteiro e raramente nos ouvem. Mas acabei assistindo dois filmes baseados na personagem Lisbeth Salander e decidi ler qual que é.

Basicamente, um jornalista chamado Blomkvist, que trabalha em uma revista foda e superíntegra chamada Millenium, ganha a vida denunciando os podres dos capitalistas safados. As vezes se dá mal e perde uns processos por difamação e calúnia, mas quem nunca. Ele tem uns quarenta e blau, um monte de casos com mulheres de variadas idades e status sócio-econômico, e uma irmã advogada. Lisbeth Salander é uma moça de vinte quatro anos, esquisita a vera, mas é um gênio, a hacker mais irada da Europa, que tem memória fotográfica, atira bem, fode melhor ainda e ainda é capaz de nocautear dois homens com o dobro do seu tamanho, embora não tenha mais de um metro e meio. Isso tudo tendo passado toda a adolescência institucionalizada, sem quem a ensinasse a atirar, lutar, etc. Quase uma Mulher Maravilha. Ah, sim, ela foi vitimada pelo sistema judicial e policial sueco (o livro é sueco). Os caminhos de ambos se cruzam em uma investigação que aparentemente tem a ver com um assassinato 40 anos antes, mas acaba por trazer a tona sádicos sexuais, nazistas, serial killers.

Sim, a trama é muito boa. Os três livros estão intimamente conectados, mas dá para ler cada um independentemente do outro. De vez em quanto Larsson enrola para desenrolar, mas nada que prejudique demais. E isso apesar de a personagem principal me incomodar com sua superforça, superinteligência, supersagacidade, superchatice (ela é chata que dói, credo, careeeeente…). O jornalista não chega a incomodar, mas o fato de ele ser um intrépido jornalista acaba por se tornar bastante datado em meio ao nosso inominável mundo novo de “pós-verdades” internéticas e “fake News”. Na minha época de adolescente muita gente queria ser jornalista, descobrir a verdade, lutar contra os  poderosos, hahahahah. Sempre foi um sonho romântico porque as empresas jornalísticas sempre foram corporações como outras quaisquer. Ainda mais aqui, nessa terra de botocudos, famílias Civita, Marinho e pastores como Edir Macedo, que mandam e desmandam na grande imprensa. Hoje em dia, a diversificação de meios de difusão de (des)informação, embora não tenha tornado as empresas obsoletas (longe disso), desmontou o mito do profissional jornalista intrépido, para o bem ou para o mal.

Fora isso, fica a pena de o autor dos livros ter morrido logo depois de escrever o terceiro volume da série Millenium, que deveria ter dez, levado por uma inesperado ataque cardíaco aos cinquenta e alguma coisa. Os outros livros da série não foram escritos por ele, e eu nunca os li.

 

Meninas, eu li [SPOILER ALERT]

A gente (bom, eu pelo menos) tem aquela ideia de que a Escandinávia é um lugar meio que perfeito. Pouca desigualdade, estado do bem estar social, consciência ecológica, pessoas saudáveis, machos legais, todo o mundo nu. Bom, comparado com esse paraíso da desigualdade e do feminicídio socialmente aceito em que vivemos (no meu caso, contra a vontade), de fato é assim. Mas quando começamos a ler os policiais escandinavos (e falo principalmente de autoras suecas, como Liza Marklund, Camilla Lackberg, Asa Larson, Kristina Ohlson), vemos que todo o mundo tem seus problemas.

Os poliça retratados nesses livros suecos, deus me livre. Acho que nem aqui tanta homofobia, misoginia e racismo. Aliás, racismo e violência doméstica são comuns a todos eles, inclusive estão presentes na Trilogia Millenium. É de cair o cu da bunda. Só para ter uma ideia, o termo “lésbicas satânicas” aparece no livro na boca de policiais (de forma séria), e muita gente parece ter ódio de mulher, em especial se são lésbicas ou/ e bem sucedidas. Does it ring a bell? Lisbeth Fala mais de uma vez: mais um homem que odiava as mulheres…

Não costumo tolerar o uso do estupro como recurso narrativo nem na tv e nem em livros, mas percebo que na literatura é bem menos nefasto. Salander é violentamente estuprada, mas a trama gira em torno de sadismo – de homens em relação a mulheres, então… Aliás, os homens aqui são mega desprezíveis, mesmo os machos legais as vezes fazem a gente revirar os olhos. E Lisbeth Salander meio que vinga todas nós. Inclusive nos filmes, isso fica bem mais claro, em especial no último, o da Teia de Aranha (que Larsson não escreveu).

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Para ler bebendo..

Uma cerveja com lactose. Estranho. É a Dragon Flies Mexican, da Dádiva. Estranha que nem a Salander, que aliás tem um dragão e uma vespa tatuados no corpo. Mas dragon fly não é um dragão que voa, é só uma libélula, e Salander não é estranha por causa das tatoos.

Russian Imperial Stout, um estilo que amo, mas pouco adequada para consumo constante em terras quentes. Viscosa, escura, achocolatada (sem ser doce), cheirosa demais, alcoolica, é própria para dias de inverno (não é para ser bebida estupidamente gelada, ok). Essa versão da cervejaria Dádiva também leva pimenta, café, baunilha, canela… e foi envelhecida em barril de carvalho por 6 meses (sim, cerveja também envelhece).

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