O Círculo

circulo

A discussão acerca do efeito das tecnologias digitais na vida das pessoas e na organização política, na produção cultural e na economia de uma forma geral costuma causar muito incômodo, se realizada com competência. O lugar comum (acadêmico ou cultural), como sempre, superficializa questões que devem, precisam ser aprofundadas, pelo bem de todos nós e felicidade geral do planeta.

Da mesma forma com que uma parcela significativa (se não, esmagadora) das pessoas se enganou com a mecanização do trabalho uns 100 anos atrás – achando que iria libertar os seres humanos do trabalho estafante – também se iludem com as tecnologias digitais. Acham que aquilo que fazem nas redes é comunicação. É política. Em uma análise mais séria, percebemos que não há uma relação dialógica entre indivíduos (parece que as pessoas começaram a achar que somos apenas palavras e imagens, incrível isso. E olha que a maioria se expressa muito mal, mas enfim), e que a mobilização política através das redes, embora possível, é menos comum que sua perversão através de fabricação e disseminação de mentiras.

O Círculo, de Dave Eggers (virou filme, parece que bem ruim) conta a história de uma moça de 20 e poucos anos (o autor faz questão de salientar o tempo todo o quanto todos são xovens na empresa, a um nível que cheguei a achar irreal), de origem modesta que vai trabalhar na grande empresa tecnológica do planeta, que tem o nome do livro. Imagina uma mistura de google com youtube com aplle com instagram com whatsapp e facebook. Algo assim. E com uma tecnologia muito, mas muito mais potente. Bom, a moça tem uma ascensão meteórica na empresa e acaba se transformando em peça fundamental para um grande salto qualitativo na dominação (literal) dos Estados Unidos (primeiro, depois o mundo) pelo Círculo.

O Círculo é uma empresa tão foda que sua central (um sillicon valley qualquer) é uma verdadeira cidade, quase nos moldes das grandes fábricas de há cem, cento e cinquenta anos atrás. Mas, nossa, muito mais divertido, nada daquelas pessoas que ralavam o dia todo e chegavam em casa tarde da noite parecendo uns fantasmas, exauridos, vigiados pelos patrões e sem possibilidade de organização em prol dos seus direitos e… #sqn. O livro mostra bem (e isso é uma das coisas mais interessantes) que a gente oferece o pescoço e deita no cepo com muita facilidade, contente até. Acha que porque a faca é de ouro e a tábua é sedosa o golpe vai menos fundo. Nananina não. A galera do Círculo tem que realizar mil tarefas ao mesmo tempo, através de vários dispositivos (celular, tela de retina, microfone com lente, etc) e ainda ser social com o mundo inteiro. Olha a obrigação de ser feliz aí minha gente. Ser feliz e necessariamente partilhar a felicidade, em uma total perversão dos conceitos felicidade e partilhamento.

O Círculo é uma empresa aparentemente cheia de coisas cool e propostas modernetes e humanitaristas. Abraça causas. Odeio empresa que abraça causa, sou anticapitalista por natureza e acho que isso sempre vem com um preço, empresa não faz nada só porque é bonitinho. Eles incentivam petições ecológicas, desincentivam a ostentação de posses, defendem todo tipo de diversidade, funcionam como empresa completamente verde. Um encanto, e seus dez mil funcionários são vistos como a ponta de lança de um grande projeto que, através da tecnologia digital, transformará o planeta em uma única comunidade diversa, calorosa, ecológica, feliz. Um saco.

No decorrer da história, vamos percebendo que o buraco é muito, mas muito mais embaixo. As questões mais óbvias acerca de publicidade/ transparência versus privacidade são colocadas, e quando alcançam as pessoas públicas ganham uma dimensão mais interessante: afinal, pessoas públicas têm direito a privacidade? Porque aqueles que ocupam cargos eleitos precisam se esconder em reuniões a portas fechadas?

No tocante a pessoas comuns, a privacidade passa a ser percebida como roubo. Roubo de informações, pois todos deveriam ter direito a tudo o que o outro vive. Não filmar um passeio de barco e postar na rede é visto como puro egoísmo. Eu não sou daquelas que idealizam a privacidade e sei que ela também é uma construção social. No entanto, e o livro não nos deixa esquecer, essa desconstrução da privacidade não se dá em termos democráticos, comunitários: ela ocorre sob a égide de uma corporação que tem em si o DNA do controle e do lucro, em uma sociedade em que as relações humanas são midiatizadas ao extremo – em ambientes controlados pela corporação. As pessoas falam de novas formas de sociabilidade, de novas identidades digitais com uma carinha feliz e idiota de quem não percebe o quanto isso é realizado a partir de uma lógica que vem de cima (e agora falo do nosso mundo, do nosso tempo). Você tem medo da intrusão e do controle do Estado? Não queira substitui-lo pelo controle absoluto das grandes corporações…

O livro ganha mais originalidade quando mostra não os efeitos apenas, mas a origem do comportamento das pessoas que se entregam a comunidade online. Elas precisam alimentar seus perfis constantemente em uma busca incessante de si, pois o que mostramos online nunca é o quadro completo: não passam de dados jogados na nuvem. Muitos deles, aliás, fabricados para benefício alheio. As pessoas (no livro e na vida atual) perdem um tempo enorme elucubrando formas de agradar a terceiros online, em busca de likes e que tais. E todo o mundo fica magoadinho, eu mesma já tive experiências muito escrotas com isso, de pessoas que não gostaram de eu ter apagado comentários delas (desculpem, é minha página, contanto que eu não diga nada ofensivo ou ilegal, posso e devo mantê-la do jeito que quero e não, isso não é “anti-democracia,” postar no facebook não é exercício democrático e dar like não é dar afeto) e começaram a virar a cara para mim depois de anos de amizade. Sério, gente adulta.

Para justificar a perda de privacidade, os donos do poder circular partem de premissas super falaciosas, por exemplo, de que só existe vergonha e preconceito porque existe o segredo. Assim, é só você expor online todos os gays do Paquistão que imediatamente isso deixará de ser crime e vergonha por lá. Super easy.

O maior problema do livro, para mim, é a segunda parte. Acho que a lógica do livro tropeça, a perseguição ao cara que não queria ser pego é surreal (tipo, porque ele foge? Era só fechar a porta de casa e esperar as pessoas asquerosas e suas câmeras cansarem), e o trecho perto do final, da predação no aquário, é completamente desnecessário. O livro já tinha obtido sucesso em demonstrar que na verdade contava uma história de predação capitalista, não vi sentido naquelas páginas (que pulei) cruéis e tolas. Também de vez em quando escorrega no didatismo discursivo, mas ainda assim curti bastante.

 

Meninas eu li

Mae é a tal moça de origem modesta que ganha o emprego dos sonhos, através de uma amiga toda bela e rica, Annie. Não concordo muito com as críticas que eu li, dizendo que ela era inocente demais, beirando o idiota. Não acho, não. É que as pessoas esquecem o quanto a perversão é banal. O mal é banal. E Mae é do mal. E, como a esmagadora maioria das pessoas do mal, não é do mal porque fica maquinando maldades ou em como amealhar mais riqueza ou poder. Ela é do mal porque as coisas que faz, de boa vontade, levam ao mal. Leiam sobre como o povo da Alemanha apoiou o nazismo. Pode acontecer com qualquer um (ficar do mal), e não necessariamente vai ser para sempre.

Ela não tem nenhuma história trágica por trás. Não. É uma pessoa comum, de classe média (daquelas que trabalham bastante em empregos mais braçais) e um pai que sofre de esclerose múltipla e luta com planos de saúde e afins. Filha única, pode cursar excelente faculdade mas depois de formada, foi parar em um empreguinho de bosta na cidadezinha de merda em que nasceu. Nada demais, quem nunca esteve em um emprego de bosta aos 24 anos? O importante é correr atrás, e Mae consegue a oportunidade de trabalhar no emprego dos sonhos.

A gente percebe aos poucos o quanto ela é carente e mesquinha, nunca perdoando Annie, a amiga que a colocara no Círculo, por ser rica e popular. Mae precisa de aprovação alheia para funcionar, e para ela, se expor e viver uma vida virtual não a exaure, como ocorre a muitos de nós. Ela se embriaga com esse pseudo poder de dar likes, de ter milhões de seguidores, de ter sua opinião em alta conta – mas não percebe que esse poder não é dela, é do edifício construído e controlado pela corporação. Ela tem uma necessidade psicótica de impor seu ponto de vista e seu olhar a todos que a cercam, mesmo quem não quer – ela acredita que não tem essa, todo o mundo precisa mesmo estar sob escrutínio constante.

Ela mente, engana a melhor amiga e objetifica seus pais em nome dessa grande proposta. Ela se transforma em outra pessoa, que ela considera “melhor” mas que na real, está muito longe de ser ela. Novamente o livro tem um ponto alto quando mostra essa discussão: muitas coisas horríveis se escondem sob o manto da privacidade, mulheres e crianças abusadas que o digam; morar tão próximo dos outros (no real ou virtual) inibe sim, comportamentos violentos, agressivos e ilegais (pensem em pedófilos, em pessoas que só obedecem as leis de trânsito por causa das câmeras, em homens que pararam de bater nas mulheres por causa da intervenção de vizinhos). Mas qual é o limite disso? Quando passamos a construir uma identidade ÚNICA e exclusivamente em função do outro? E se isso acontecer, não vamos ser todos absolutamente iguais?

Mae vive para os outros. Não por fazer caridade (embora ela acredite que assinar petições online seja o máximo em termos de ajudar o próximo) mas porque a aprovação alheia é fundamental para ela. Já é assim nos instagrams da vida não? Não tem muita gente ali, apenas caras e bocas bem pensadas e que tomam conta cada vez mais de parcelas largas de tempo das pessoas. Que acham o máximo né. Têm crises de confiança quando não recebem likes. Fazem pirraça. É de cair o cu da bunda. Nesses sentido, porque as mulheres (ainda) são criadas para obter a aprovação alheia, elas se encontram ainda mais vulneráveis a essa lógica do “olhem para mim, me marquem, cliquem no coração, compartilhem, mostrem que EU SOU MARAVILHOSA.” Mae diz, com todas as letras: “Eu quero ser vista. Eu quero provar que existi.”Em um mundo sem espaço para a atuação concreta, em que há um anseio por mudanças sem a capacidade correlata de fazê-lo, estar no controle e na exposição online parece uma boa ideia.

Tem um personagem que tenta dar um freio nisso. Mas a lógica dele é meio infantil, pois há um limite para o que indivíduos podem fazer por conta própria, mesmo tendo sua voz amplificada para milhões de pessoas. E outra: esse cara (um idealista) acredita que o sonho do Círculo era um sonho bom de início, transformado em pesadelo pelas garras vorazes da corporação. Eu sempre achei que, se a gente abre os portões do inferno, não vai dar para escolher qual diabo pode passar.

 

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