A lição de anatomia

Lição

A lição de anatomia – Nina Siegal

Todo o mundo (que foi a escola) já ouviu falar de Rembrandt. Pode não saber mais nada, só que foi um pintor ou algo assim, mas já ouviu falar. Bom, Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu nos Países Baixos (Holanda) em 1606. Considerado um dos maiores pintores europeus de todos os tempos, o cara marcou a arte com um trabalho que expressava seu interesse, sua empatia e seus estudos da história e do comportamento dos seres humanos. Ele pintou diversos auto-retratos, jamais sendo condescendente consigo mesmo. Ao contrário de muitos grandes artistas, ele amealhou fama, respeito e fortuna durante sua vida. Ok, ele dissipou a maior parte da fortuna com seus gostos caros e exóticos, mas mesmo assim.

A lição de anatomia não é sobre Rembrandt, embora seu quadro de mesmo nome seja o centro da obra. Aos vinte e seis anos, o pintor já tem certa fama, mas antes do referido quadro, ainda não rompera os laços necessários para se transformar no revolucionário que acabou por se tornar. Luta com uma concorrência competente em Amsterdam, e recebe uma grande encomenda da guilda dos cirurgiões, que ele toma, acertadamente, como uma grande oportunidade de lançar seu nome na história. A incumbência seria pintar a primeira aula de anatomia da guilda, uma aula aberta que era considerada um evento social na cidade, mega concorrida, com a presença dos mais ilustres e onde o populacho tentava entrar comprando entradas como se fosse uma partida no Maracanã. E a aula de anatomia, adivinhem só, envolvia uma dissecação de um corpo humano. Hoje em dia isso é lugar comum, mas na época, em muitos lugares considerava-se o corpo humano sagrado e inviolável, a não ser, claro, que a igreja católica quisesse esquarteja-lo por heresia. Mas abrir um corpo para melhor compreendê-lo e assim tentar salvar umas vidas? Transgressor. Claro, centros de estudos europeus mesmo assim dissecavam cadáveres humanos, mas eram muito mal vistos pelos padres e o tabu perdurou por muito tempo.

O livro não acompanha apenas Rembrandt na confecção de sua primeira grande obra prima. Alternando pontos de vista, a autora acompanha o cadáver (desde que era vivo) e seus colegas; a noiva do cadáver (grávida), coitada; o médico Tulp que ministraria a aula; e o fornecedor do cadáver. Na verdade todo o mundo gira em torno do cadáver dissecado, e não do pintor.

A história narra uma série de buscas. A jovem grávida corre para salvar o amado da forca, e quando não consegue, para levar seu corpo para casa (nem isso ela consegue), o dr. Tulp busca consolidar sua posição na guilda, o jovem fornecedor busca um cadáver, qualquer um, para fornecer a guilda, e Rembrandt busca uma nova forma de ver e pintar as pessoas. Só quem não busca nada, e há muito tempo, é o pobre Aris Kindt, que passa a sensação de se sentir um condenado desde a infância e que, a espera da forca, nada mais busca ou deseja.

O livro transmite com bastante força a empatia que fez de Rembrandt um visionário capaz de retratar emoções humanas e rostos de pessoas com tanta peculiaridade. Ele conversa com o morto que irá pintar, enxerga-o como o humano que fora. Luta para expressar seu sentimento diante de toda a sua situação de uma forma diferente, revolucionária, profundamente emotiva.

Retrato de um tempo há muito enterrado, com toda a sua crueldade e negligência diante da vida e do sofrimento (humanos ou não), o livro ainda insere nosso tempo na voz de uma curadora/ restauradora dos dias atuais, que dá um toque técnico ao descrever, em meio a sua própria fascinação, as técnicas de pintura utilizadas e seus significados.

Recomendo especialmente para médicos, artistas e restauradores.

Meninas, eu li

A única personagem feminina atuante na história é a noiva de Aris Lindt, Flora. É através dela que de fato conhecemos a história do ladrão Aris Lindt, tido como facínora, mas que através da sua narrativa (e também de enxertos da narração dele mesmo) acaba surgindo muito mais como um pobre coitado surrado, torturado e explorado por um pai semi-sádico, que por fim o abandona a própria sorte na adolescência. O rapaz se entrega ao alcoolismo e perde o negócio que o pai deixara. Quando este retorna, ele se vê obrigado a fugir para não enfrentar a ira do velho.

Flora cresce na mesma região que ele, mas na época não tinha disso de menina e menino brincarem juntos na rua. Mas ela o acompanha de tempos em tempos, e na adolescência começa a cuidar dele, o que faria pelos anos subsequentes. É a sina das moças: cuidar dos moços, sarar suas feridas e corações, até que partam novamente, esperar que voltem com novas feridas, convencê-los de que eles valem alguma coisa e que continuar a viver é preciso. Há um mal-entendido muito triste na história deles, que nos dá a sensação que Lindt não necessariamente teria encontrado um fim tão devastador. Mas é aquilo: ninguém deveria precisar de um motivo para viver. No caso de Lindt, ele precisava simplesmente de um motivo para ficar, mas sua vida se resume a uma permanente cadeia de roubos e fugas.

Eles jamais se casam e quando Flora, já órfã, aparece grávida, a notícia da condenação de Lindt se espalha, ela se torna a bruxa da aldeia, tem sua casa apedrejada, entre outras coisas horríveis. Porque assim é: uma moça vai ser sempre e apenas o apêndice do rapaz que cuida.

 

Para ler bebendo…

Gulpener-Bock

Lá em mil novecentos e noventa e lá vai fumaça, algumas cervejarias aqui no Brasil lançaram suas versões bock. Na época não tinha ambev, era cada um na sua, e lembro que tinha a Kaiser bock, a Skol bock e não sei se outra mais. Era de cor castanho-escuro, mais encorpada e com teor alcoolico mais elevado, características que tornavam estas cervejas um produto típico do inverno. Atualmente o estilo passa longe de ser uma das minhas preferências, mas tem sua hora e lugar.

Cervejas bock são típicas da Alemanha e vizinhanças, e surgiram no século XIV. Há 3 vertentes principais: Eisbock Bock (em que o doce e o tostado se equilibram), Doppelbock (mais robusta e alcoólica com o malte tostado mais em evidência) e Maibock (mais claras e mais amargas que as demais Bocks). O malte é sempre marcante e costumam ser servidas com comidas mais pesadas e gordurosas. Seu teor alcoolico em geral fica em torno de 6-7%. NÃO É PARA BEBER ESTUPIDAMENTE GELADA.

O estilo é muito popular na Holanda de Rembrandt, aliás, desde apenas o século XIX. Mesmo assim, boas dicas vêm de lá: a cervejaria Gulpener Bierbrouwerij data de 1825 e produz uma das bocks mais tradicionais e apreciadas do país.

 

 

 

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