Confissões

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Confissões _ Kanae Minato

Eu amei esse livro, mesmo. Primeiro, porque é muito bom. Segundo, porque sai daquele lugar comum adolescente-coitadinho que sofre bullying, ou adolescente malvadinho, que no fundo só precisa de compreensão. Aqui a sordidez escorre por todo lado. Sim, há uma (duas) grande vitima, uma professora e, principalmente, sua filha de 4 anos, mas ela passa ao largo da inocência.

Sim, ela é uma grande vítima, e como não sê-lo, já que dois sociopatas adolescentes assassinam friamente sua filhinha? Mas ela vira o jogo belamente, e passa a agir de forma indescritivelmente calculista e extremamente cruel. Incrível.

Yuko (a história é escrita por uma autora japonesa e se passa no Japão) é uma jovem professora do ensino fundamental, ensina adolescentes de 13 anos. Escolhera esse nível por achar que poderia fazer a diferença se entrasse cedo na vida dos alunos: a linha de frente, como ela mesma diz. Vai ensinar em uma cidade pequena, o idealizado interior… E ela tenta, tenta ensinar o que sabe, tenta ser respeitosa, mas sempre mantendo limites – e como ela critica aqueles professores que ignoram seu lugar na hierarquia para virar amiguinhos dos alunos! Ela tenta, mas as vezes simplesmente nada é suficiente.

“Você quer saber o que eles perceberam? Acho que descobriram a sensação de serem tratados com respeito. Ouvimos tanta gente falar de famílias abusivas que corremos o risco de achar que todas as crianças são maltratadas em casa. Mas a verdade é que a maioria das crianças hoje em dia é paparicada e mimada. Os pais imploram e só faltam ajoelhar para que os filhos estudem, comam ou o que for. Talvez por isso os filhos demonstrem tão pouco respeito pelos pais e falem com os adultos no mesmo tom que usam para conversar com os colegas. E muitos professores entram no jogo – acham uma honra ganhar um apelido ou serem tratados de maneira informal pelos alunos na sala de aula.”

Esse limite é muito difícil mesmo, e o que determina que os alunos vão respeitar um professor é algo quase intangível. Possivelmente é consequência da estrutura escolar, como ela é concebida na sociedade contemporânea, ou do papel que se espera que a escola desempenhe.

Os adolescentes ganham cores horrendas. E fora do lugar comum (valentões, covardes, fúteis, arrogantes etc). Aqui eles são maus. Hipócritas como todo o resto da sociedade que tanto criticam. Narcisistas ao extremo. Agem com uma crueldade inaudita, e o livro expõe com crueza a questão que persegue todos nós: o que fazer com monstros de 13 anos? É, eu sei, a galera implica com chamar assassinos sádicos adolescentes de monstros. E dá para entender, porque vivemos em um país extremamente perverso que amarra meninos negros que tentam roubar celular em árvores, nus, mas chamam de ”rapazes irresponsáveis que estavam apenas brincando” quando um bando de sociopatas de classe média tacam fogo em um índio vivo. Dá pra entender a resistência de nós, pessoas legais, diante de casos em que crianças são julgadas como adultos, porque sabemos que aqui isso vai se tornar regra geral pra adolescente pobre enquanto que as monstruosidades das elites continuarão a ser perdoadas.

Mas não adianta fugir da questão. Não interessa a classe social de um indivíduo que joga gasolina em uma mãe e sua bebê e depois ateia fogo. Esse nível de maldade constitui um mistério, e muito perturbador. Você vai deixar o garoto dois anos em um reformatório, “reeducar”, e depois ele vai pra rua ok, depois de ter praticado um ato tão hediondo? Dá para ensinar alguém a ser humano? E nem falo que prisões e reformatórios são os últimos lugares em que alguém “aprenderia a ser gente”…

A filha de Yuko é assassinada por dois de seus alunos. De forma premeditada. Deliberada. Um deles é um rapaz inteligente e narcisista, mas não especificamente sádico; o outro, um sociopata que se compraz na desgraça e dor alheias. Acha graça. E, claro, também é narcisista, e usa seu “poder” destrutivo para ganhar existência em um mundo que o ignora.

Yuko se torna, ao longo do livro, o maior dos gênios do mal, quase inverossímil, de tão calculista e astuta. Ela espera pela vingança. Saboreia. Porque ela sabe, e diz explicitamente, que embora a lei japonesa tenha sido mudada em 2001, baixando a maioridade criminal para 14 anos, seus alunos assassinos tinham 13 anos e jamais seriam punidos. E ela crê (e com razão) que eles sabiam muito bem o que estavam fazendo, e que deveriam ser responsabilizados pelo crime. Assim, ela assume o papel de anjo negro da justiça.

O final do livro, a meu ver, fica em aberto. Uma vez que ela começa a história com uma bombástica revelação-mentira, ela pode muito bem ter terminado o livro com outra. O livro é super bem encadeado, uma história contada meio que de trás para frente. A cada capítulo, novos detalhes, novas peças que se encaixam em uma teia complexa de ódio e vingança. Várias vozes (são vários narradores, da professora, dos assassinos, da mãe de um dos assassinos, de uma colega de classe pra lá de perturbada – aliás, são todos BEM perturbados) se sucedem e contam uma história macabra.

O livro não se propõe a discutir com profundidade se fazer justiça com as próprias mãos é ou não aceitável. Mas destrincha os sentimentos e contradições de todos os envolvidos, assim como do sistema educacional e da tradição familiar japonesa, incrivelmente rígidas, mas nas quais conseguimos enxergar desesperadas similaridades com nossas questões.

 

Meninas, eu li…

O Japão é um país muito preconceituoso, eu já tinha uma ideia disso por ter conhecido algumas japonesas com histórias horrendas. Yuko é mãe solteira, pois engravidara de um noivo portador de uma doença terminal (essa parte achei um pouco estranha, quem ler o livro vai entender) que não queria que ela e o bebê tivessem uma conexão eterna com ele. Mas no Japão, ser uma mãe sem marido é muito problemático. Os pais das crianças a olham torto, e qualquer problema imediatamente é consequência da sua “condição.” O pai da sua filha, ironicamente, também é um professor, daqueles que os alunos adoram. Daqueles que acham (e talvez consigam) que dá para salvar as ovelhas negras, por acreditar que cada ovelha negra é uma alma pura que só precisa de amor. No entanto, a história mostra que muitas vezes amor não basta, respeito não basta, disciplina não basta. As vezes, simplesmente não basta.

Yuko, professora e mãe solteira, desiste depois de perder a filha, e fica claro que ela desiste inclusive do gênero humano. Não há pieguice ou desespero histérico em sua voz. Ela não apresenta os traços clássicos de uma criminosa mulher que a literatura costuma retratar. Não é a vítima ferida e acuada e nem tampouco a megera fria e manipuladora. Embora sim, ela seja manipuladora, calculista e esteja muito, muito ferida.

Um aspecto crucial da história que me desagradou sobremaneira foi o fato de o psicopata adolescente ter trauma por abandono da mãe. Af, é tudo culpa da mãe, achei escroto (e, sim, a narrativa toca nessa tecla, ele vive reclamando disso e afirmando que quer chamar a atenção da mãe), embora dê para fazer um drible aí e apontar para um possível jogo de ideias da autora entre a jovem mãe que perde seu bebê assassinado por um moleque que fora abandonado pela sua.

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