Clube da Luta

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Chuck Palahniuk escreveu Clube da Luta em 1996, e pouco tempo depois, o livro virou um filme genial com Edward Norton (amo!!!) e Brad Pitt (gosto). Eu acho o filme o máximo, e ao longo dos anos acrescentei, a minha percepção inicial, outras camadas de entendimento à compreensão da obra. Só li o livro recentemente (absurdo, não?), e considero a adaptação um primor (com exceção do final, mas deixa pra lá, o final apoteótico do filme é necessário na telona).

Tyler Durden. Esse é o nome do maluco que fabrica sabão com gordura roubada de clínicas de lipoaspiração, mora em uma casa a beira do colapso e inicia um clube da luta em que homens com uma vida cotidiana absolutamente comum, de variadas idades e frustrações semelhantes se engalfinham até arrancar a pele. Ou dentes. Ou sangue. Ou tudo.

Nós conhecemos o sr. Durden através do… O cara (narrador) não tem nome. Bom, quando vi o filme achei isso estranho, embora tenha passado desapercebido da maioria das pessoas (em geral presto atenção em interações humanas), ninguém chamava ele de nada, nem o chefe, nem o policial, o Tyler, ninguém, e caralha, ele era o personagem principal do filme. No livro fica ainda mais estranho, e você só entende quando percebe que Tyler Durden não passa de uma personalidade criada pela própria mente do narrador.

O livro não é muito longo, mas é riquíssimo em nuances e narrativas. Um mundo acontece naquelas duzentas e poucas páginas, e é um mergulho profundo e objetivo na loucura de uma sociedade violenta, machista, consumista, em que a democracia não entrega o que promete. Olha o nível de loucura: o protagonista, um homem de seus 30 anos que tem um bom emprego e um apartamento legal, todo equipado, sofre de insônia crônica e inventa coisas para fazer com seu tempo livre. Coisas que o façam fugir de si, na verdade. Ele passa a frequentar grupos de ajuda os mais diversos, de viciados, pacientes de câncer, Parkinson, familiares de vítimas de acidentes, coisas assim. Ele se passa por mais um sofrido e nesses lugares, ele finalmente encontra algum tipo de paz que o permite dormir. Na verdade, a “paz” que ele encontra se deve a criação de Tyler, e ele continua insone: ele simplesmente começa a viver uma outra vida durante a noite.

A terceira personagem do livro é Marla, uma doida feito ele, que faz a mesma coisa, frequenta os mesmos grupos. Ele a odeia mas Tyler acaba tendo um caso com ela. É ela quem dá ao rapaz a certeza de que enlouquecera: Marla, nós já transamos? Como assim, seu doido, um dia você me ama, no outro me expulsa do seu quarto, etc etc.

O rapaz joga tudo pro alto – tudo se torna tão fútil: emprego, roupas, a opinião alheia, a casa – e vai viver no quase lixão com Tyler. A partir daí, ele vai se envolvendo numa enlouquecedora rede de violência organizada, e é nesse momento que o livro dá o pulo do gato. Deixa de ser a crônica densa e desesperada de um homem frustrado (olha, da minha geração, mas as coisas mudaram muito pouco, e talvez tenha piorado inclusive) com uma sociedade consumista que não o satisfaz, com a ausência de relações significativas, com a falta de interesse em ter uma mulher na sua vida (porque afinal, pra quê?) e passa a ser a narração muito precisa da gênese de um grupo terrorista branco americano. Seu círculo social se resume ao clube da luta, que passa a dar sentido a sua vida, resgatando sua vitalidade macha primal. Mas o clube vira outra coisa: uma organização fascista e assassina (o filme pega bem mais leve), que nada questiona, onde não há mais individualidade e nenhuma interação – coisas das quais ele, para início de conversa, queria escapar.

Meninas eu li…

O livro é uma sensacional história macha que mostra a tragédia que aconteceu com os machos em uma decadente sociedade patriarcal consumista e hierárquica. Como há diferentes níveis de compreensão e percepção da realidade presentes no livro, ele consegue não ser só uma obra de homens e para homens. Eles claramente se identificam muito mais com a emergência da violência como dispositivo de escape e de auto afirmação para pessoas que se sentem sem importância do que as mulheres. Mas o narcisismo, a sociedade de consumo desesperado, a rotina desenfreada que não leva a lugar algum (vide Trainspotting, outro clássico da minha geração), ressoam em todos nós. O corpo mater de Tyler Durden (seja qual for seu nome) se ressente de viver uma vida que não importa. Existe, subjacente a história, uma sensação de fracasso enquanto pessoa humana e também como homem, que aliás considera que as mulheres de uma forma geral só sabem reclamar e mandar. Ele não consegue manter nenhuma relação, nem de amizade. Ele odeia Marla, ela compete com ele no espaço que ele escolhera, e ela é tão doente quanto ele mesmo. Ele precisa acionar seu alter ego Tyler Durden para estabelecer uma ponte com ela, aparentemente baseada primordialmente em sexo.

Clube da Luta é um excelente exemplo de como não se precisa problematizar nada para expor esse nada muito bem. Chuck P. não está preocupado diretamente com as relações entre homem e mulher (apenas na medida em que são relações humanas em uma sociedade que isola as pessoas) e muito menos com as mulheres e como fazer para alcançarmos a igualdade de gênero, imagina. Mas ele mostra de forma muito crua o que essa sociedade patriarcal e consumista faz com os homens a partir do momento em que eles não são nem mesmo necessários enquanto provedores. E ele não deixa dúvidas acerca dos perigos que espreitam no caminho dessa busca por um novo papel, uma nova personalidade. Os grupos terroristas norte americanos estão aí para mostrar, e eles não são coisa apenas de fanáticos eugenistas. Existe um potencial destrutivo nessa coisa incel (celibatários involuntários) que graças aos bons deuses vem sendo impiedosamente desmascarada, depois de um tempo em que eles eram mais objeto de pena do que de medo.

 

Para ler bebendo…

Lumberjack (“lenhador”) é uma cerveja de macho (modo sacanagem ativado), uma brasileira estilo belga (Golden Strong ale) com graduação de álcool de 9.5%. Com baixo nível de amargos e corpo denso, apresenta uma cor clara e bastante espuma – enfim, uma boa representante do estilo. É produzida pela Casa do Fritz, um restaurante em Penedo (interior do RJ) que é uma delícia e tem sua própria cervejaria.

 

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