Três vezes nós

 

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Três vezes nós – Laura Barnett

Pode dar a impressão que só ando lendo livros de drama e fofura bittersweet, mas nem é o caso. O caso é que tenho gostado de muito pouco do que tenho lido. Mas também não vamos nos enganar: Três vezes nós não pertence a categoria de livro bonitinho-bobo. Nem todo bonitinho é bobo, aliás.

De saída não dá para ler o livro de um jeito descompromissado. Percebi que algumas pessoas lutaram um pouco com o livro, apesar de terem-no adorado. Por que? Bom, porque Três vezes nós acompanha Eva e Jim ao longo de décadas, em três diferentes jornadas possíveis de um mesmo casal, e você tem que prestar bastante atenção para não confundir as narrativas.

Quem nunca? Qualquer ser humano com um mínimo de imaginação se pergunta “e se…” Se eu tivesse aceitado emprego X em vez de Y, não teria sido mais rica? Se eu tivesse ido aquela viagem, será que teria encontrado um grande amor? Se eu tivesse terminado aquele curso, não teria tido uma carreira diferente, conhecido gente diferente? A ideia de que possuíamos momentos que definem toda a nossa vida não é nova, embora cada um tenha crenças diferentes acerca do quanto de decisão e de acaso há em nossa vida.

Eva e Jim se conhecem por acaso, mas nas três versões eles de fato se encontram e tudo o que ocorre a partir daí decorre de decisões tomadas de acordo com circunstâncias variadas – por exemplo, em uma das versões Eva mal cogita conhecer o rapaz Jim, com quem esbarrara com sua bicicleta, porque tem um problema tão grave para resolver que nem dá para pensar em mais nada. O que não ocorre nas outras versões.

O livro acaba por se mostrar bem romântico, pois em todas as versões, de uma forma ou de outra, Eva e Jim têm suas vidas entrelaçadas. De formas diferentes, em momentos diferentes, mas fica claro que existe entre eles um algo a mais intangível que faz com que flutuem pelas mesmas esferas.

Também é interessante que [SPOILER ALERT] a versão mais careta e romântica do tem-tudo-para-dar-certo é a que justamente dá mais errado. Nossa, e como ela desanda. Eu pessoalmente acho que, quanto mais tarde a gente sossegar com alguém, melhor. Especialmente nos dias de hoje, em que tantas oportunidades de diversão, estudo e trabalho são oferecidas a pessoas de ambos os sexos. Acho muita falta de imaginação casar logo depois da faculdade e ter filho antes dos 30. Daí que a pessoa não estuda o suficiente para ter uma carreira foda, não viaja, não conhece o mundo, não pega ninguém, não aprende tai-chi, não paga mico de dor de cotovelo séria com direito a amnésia alcoólica, e chega aos 40 querendo gastar as economias em um carro esporte ou uma lipoaspiração. Mas claro, eu sei que isso é papo de classe média, ok? Antes que me critiquem por falar de “problema de branco.”

O livro também é sensível (categoria correlata ao fofo), acompanha os altos e baixos, as vicissitudes próprias das nossas vidas com muita perspicácia e sinceridade. As vezes, lendo uns livros assim, fico pensando que minha vida (graças a deus) tem muito pouco drama. Resultado da saúde generalizada da família e da decisão de não ter filhos, acho. Porque nossa, é filho com problemas de droga, artistas frustradíssimos, casos extra-conjugais turbulentos, competição entre cônjuges (ou “conges”). Um milhão de coisas. Vida, né. Tem doença e morte também, claro, porque a história vai até 2014, quando eles estão com mais de 70 anos. Só falei de problemas? Foi mal. Tem paixão, filhos e netos lindos, sucesso comercial e acadêmico, alguma aventura.

Uma vez tentei reescrever a história da minha vida com base nessa ideia, pegar um momento que pudesse ser um divisor de águas e imaginar como minha vida teria caminhado a partir daí. Mas eu não consigo perceber a vida desse jeito, acho que muitas escolhas diferentes teriam desaguado em futuros muito parecidos, de forma que eu teria que mudar muitas coisas para imaginar vidas tão completamente diferentes. E para imaginar isso, eu ainda não tenho esses neurônios todos.

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