Espiritualidade a venda?

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Não tem muito tempo e eu me deparei, por acaso, com um vídeo no youtube de uma moça falando a respeito de como ela se libertou do sagrado feminino. Não sei quem é aquela pessoa (só sei que é jovem e, pelo sotaque, deve ser do interior do sudeste, possivelmente SP) e nem sobre o que é seu perfil. Mas consegui assistir pelo menos metade do vídeo, e embora ela levantasse questões muito pertinentes, como não podia deixar de ser na era digital deixou de tocar no ponto mais fundamental da questão, que aliás, é o grande nó da sociedade capitalista.

O que ela quis dizer com se libertar do sagrado feminino? Ela se refere tão somente ao sagrado feminino que andam vendendo (literalmente) por aí travestido de um monte de coisas que não são nem sagradas e nem necessariamente femininas. Existe uma profusão de círculos de mulheres, workshops de reencontro com as deusas, magia isso e aquilo, ancestralidade, etc. Isso não acontece só em relação ao sagrado feminino, mas a tudo que se convencionou chamar espiritualidade, que se torna cada vez mais parecido com o mercado da auto-ajuda. Parece que só quem tem dinheiro pode ser feliz, se reencontrar, encontrar a deusa e despertar o sagrado feminino.

Eu fiquei pensando. A jovem (e uma parte das pessoas que se envolve nesse tipo de busca) parece ter uma percepção clara da formação de um novo mercado, da existência de aproveitadores e oportunistas, da monetização das buscas espirituais, da elitização do sagrado feminino (quando não, da sua completa vandalização). Contudo, eu acho muito complicado perceber isso e não perceber que isso é apenas a lógica do capitalismo a pleno vapor, que coloniza todos os espaços da vida. Camisetas de Che Guevara são vendidas a 200 reais por lojas de marca e usadas por burguesinhas que possivelmente iriam para o paredão se ele estivesse vivo e no poder. E aí?

Existe, como em tudo nessa vida, uma parcela de trambicagem no mercado da espiritualidade. Gente que estuda pouco e cobra os olhos da cara para fazer workshops em que as pessoas ouvem meia dúzia de bobagens sobre o universo conspirando a seu favor ou sobre reprogramação mental que não funciona (por não ser feita direito); círculos de mulheres que não passam de fachada para esquemas de pirâmide; 5 mil reais por um curso de mantras. Por aí vai. Mas tem muita gente que estuda de verdade e oferece seus serviços e cobra pelo seu conhecimento e pelo tempo da sua vida que vai usar dando cursos, palestras, vivências, etc. Acho muito engraçado #soquenão essas pessoas que ficam chateadinhas por pagarem 25  reais para um templo em uma sessão de meditação guiada, ou 120 por uma sessão de ayahuasca com índios que vem do Acre pro Rio, sendo que as gracinhas gastam, fácil, fácil, 80 reais em cerveja na sexta na Lapa. Mas e a galera duranga que só tem grana pra latão da brama? Não tem direito a espiritualidade, ó? Tem sim, e quem frequenta esse meio sabe que pode se dar um jeito, em vários casos. O foda é a galera cara de pau que escolhe errado onde colocar seu dinheiro, ou que mente a respeito de não ter, ou que não se dispõe a ajudar de outras formas para compensar a ausência de contribuição. O foda é achar que porque estamos lidando com espiritualidade, temos que sempre doar nosso tempo e energia para pessoas que às vezes estão de aventura e putaria. A gente doa sim, mas não é todo o tempo, não é toda a energia, e não é pra todo o mundo. Todo o mundo tem conta pra pagar não é? O tempo que se gasta estudando cristais, usos das medicinas da floresta, tradições e rituais, é tempo em que não se trabalha formalmente e não se paga as contas. Não esquecer disso.

De onde vem o cerne da questão, pra mim: porque tantas pessoas acham que precisam pagar para se descobrir, ou descobrir a espiritualidade? Porque elas acham necessário fazer cursos? Vivências organizadas por pessoas que elas não conhecem?

Na origem deste comportamento está a pouca disposição das pessoas, em uma sociedade que tudo mercantiliza, de construir seu saber a respeito da própria vida e dos mistérios que ela contem. Sozinho ou com aqueles que lhes são caros. Todo o mundo quer uma solução pronta. Vendida na esquina. E depois culpam somente quem vende pelo seu fracasso. Buscam panaceias, respostas totalizantes que cabem em 200 páginas, três dias e 1200 reais. E reclamam quando não funciona.

E de fato, como construir esse saber? Em geral, descobrimos sua existência na idade adulta, pois fora religião estruturada e análise, essa busca não nos é apresentada ao longo da vida. Na real, as pessoas estão ficando cada vez mais infelizes, angustiadas e deprimidas, e partem em milhões de buscas para tentar minimizar o sofrimento. Mas esse é um processo muito complexo e muitas vezes solitário, até porque as afinidades que guiam nossas relações no cotidiano não são as mesmas que guiam nossas buscas interiores.

Não existe saída. Meus amigos revolucionários diriam, só a revolução. Eu já digo que uma forma de minimizar esse efeito de mercantilização excessiva e disparatada do mercado espiritual é buscar sempre aprender primeiro por si ou em grupos de pessoas que se conheçam no mundo real (larguem a internet galerinha). Leiam, estudem, em vez de esperar que alguém lhes  ofereça o conhecimento pronto em uma palestra a 150 reais.

Não é fácil, dá trabalho, é uma construção e cada caminho é peculiar a cada pessoa. E não termina nunca.

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