A improvável jornada de Harold Fry

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A improvável jornada de Harold Fry – Rachel Joyce

Culpa. Solidão. Envelhecimento. Narcisismo. Obstinação (ou determinação?). Relacionamentos (de todos os tipos).

Acho esse livro muito lindo. Lindo, e não “fofo”. Denso, mas sem ser chato ou complexo em analogias e terminologias, A improvável jornada de Harold Fry tem a força das muitas histórias que vivemos após décadas de vida. Mas sem tanto peso, ao contrário: é um livro cheio de vigor.

Sabe quando alguém te tira da maior das roubadas, do nada, e sem pedir nada em troca? E você, tão ocupado com seu drama, tão obcecado pela própria vergonha de ter que ser salvo por outra pessoa, meio que faz de conta que nada aconteceu e deixa tudo por isso mesmo, sem nem um “nossa, valeu, você é incrível” ? Pois é, eu também não sei e espero nunca saber. Harold sabe.

Ele recebe uma carta de uma antiga colega de trabalho, que escreve meio que para se despedir dele, já que sofre de uma doença terminal. Fica claro que eles haviam tido alguma relação muito estreita (mas nada romântico) que fora engolida pela vida que passa. A partir do momento em que lê a missiva, algo em Harold vai se partindo aos poucos. Talvez anos de indiferença e cotidiano, talvez camadas de frustração e impotência, o que importa é que aos poucos ele redescobre a importância daquela mulher em sua vida e do quanto ele enterrara, dera as costas, empurrara para baixo do tapete uma série de sentimentos e situações que transformaram sua vida em um poço raso cheio de amargura, tédio, falta de sentido e cor nenhuma.

Ele tem 65 anos e é casado com Maureen, um relacionamento frio que não traz alegria ao outono das suas vidas. Já não conversam há décadas, não dormem juntos, há um denso clima de irritação e cansaço entre eles. Quando recebe a carta, Harold escreve uma resposta e vai até o correio postá-la, mas vai caminhando e caminhando… do jeito que saiu de casa, ele decide caminhar até a cidade em que Queenie (a amiga doente) mora. Uns 1000 quilômetros. Do outro lado da Inglaterra. Um homem sedentário (muito, aliás), de 65 anos, com roupas comuns e mocassins assassinos para quem caminha. Simples assim.

Tem umas horas em que a gente fica meio nervoso. Carai, pega um ônibus velho maluco. Mas ele acredita que se for a pé, Queenie vai permanecer viva até que ele chegue. Tipo, uma promessa ao contrário. Na verdade, eu acho que no fundo ele se apega a uma superstição por medo de chegar ao destino e por vontade de continuar uma jornada em que acaba se redescobrindo e redescobrindo os relacionamentos humanos.

Sua história se revela aos poucos, uma trajetória marcada pelo maior dos sofrimentos. Incapazes de seguir em frente a despeito da dor, ele e Maureen se tornam prisioneiros da culpa, da raiva, até ser quase tarde demais.

A vida é um rio, mané. Um dia você está com raiva, e no dia seguinte continua, e amarra a cara, e não faz mais carinho, e não ri mais, e acha que vai passar. De repente a pessoa esquece como é não se sentir mais daquele jeito. Ela esquece de como é rir, abraçar e conversar. Um dia acorda e 20 anos se passaram. Pois é. Mas, para alegria de todos, de acordo com o livro, nunca é tarde demais. Mas o tempo que passou e o que se perdeu com ele, ah, isso é irrecuperável. E aceitar isso é fundamental para se seguir em frente – finalmente.

Há um quê de Forrest Gump na sua jornada, embora Harold seja bastante inteligente e perspicaz. Mas a série de encontros, a romaria que em certos momentos ele carrega inadvertidamente, e a enorme diferença de propósitos entre seus objetivos (simples, quase ingênuos) e os de seus seguidores (alguns inclusive bem sórdidos) me lembraram a personagem de Tom Hanks.

Meninas, eu li – spoiler

A esposa de Maureen, a primeira vista, é uma chata com mania de arrumação. Mas, cara. Ela perdeu o rumo e jamais aceitou a morte do filho. Literalmente. E não foi uma morte qualquer, o rapaz era doido, depressivo, arrogante, muito inteligente, essas coisas. Se mata, um horror. Um poço de culpa para os pais, que não conseguem lidar com a tragédia. Se afastam, se culpam. Esquecem das pessoas que foram. A jornada do marido se torna um pouco a jornada dela também, inicialmente por tudo o que a solidão desencadeia, e depois, por uma amizade redescoberta e pelo quase assédio dos fãs de Harold em sua caminhada.

Queenie, a colega de trabalho às portas da morte, fora uma funcionária extremamente competente que, apesar disso (ou justamente por isso…) sofrera intenso assédio moral do chefe e muito preconceito dos próprios colegas. Solteira, sem filhos, independente, contadora, e trabalhando em uma cervejaria, imaginem só. Mas é ela, de certa forma se aproveitando da vulnerabilidade “inerente” à condição feminina, quem salva Harold e enrasca a si mesma.

E é bacana ver um livro de uma amizade, ou antes um companheirismo algo fugaz, entre um homem e uma mulher, adultos (na época, ela esta com trinta e muitos e ele, quarenta e tantos) sem nenhum climinha, romântico e nem sexual.

Para ler bebendo

Theakston’s Old Peculier

Essa é uma indicação de terceiros, nunca tive chance de experimentar, mas pelas reviews online e de acordo com o recomendante: Theakston’s Old Peculier, uma english old ale, álcool 5.6%, de cor castanho escuro avermelhado, sabor maltado/ caramelado com um toque de uva passa. Corpo médio, de uma forma geral suave ao paladar, 29 IBUs.

Esse tipo de old ale (ao contrário daquelas que devem ser envelhecidas na garrafa e etc) é um “estilo” relativamente elástico, e suas características vão variar. O old, no caso, é quase um aviso de tradição inglesa. No caso da Theakston’, que remonta há mais de 100 anos, em Yorkshire.

A cerveja é um clássico da velha ilha dos piratas mercenários (a Inglaterra), mas não segue a linha mais para o amargo/ salgado. Ao contrário, pelo que sei ela chega a levar açúcar na sua composição – sem que no entanto se aproxime daquelas belgas carregadas e adocicadas. Quem sabe atravesso a Inglaterra a pé como Harold, e experimento essa cerveja num dos milhares pubs de estrada que tem por lá.

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