As mil partes do meu coração – Colleen Hoover

mil partes

Depressão não é odiar a vida. Pode ser apenas achar que não tem mais graça.

Já leram um livro muito legal que desanda no finalzinho e você fica meio chateada? Pois é, foi assim com As mil partes do meu coração…

História: Merit tem 17 anos, uma irmã gêmea, um irmão um ano mais velho, e um pai que se separou da mãe dela e casou com a enfermeira desta, com quem teve um filho, atualmente com 4 anos. Eles todos moram em uma igreja reformada onde mora também sua mãe, que ocupa o porão, pois tem agorafobia e não sai nunca de casa. Contada em primeira pessoa, a história vai ganhando outros personagens que surgem para balançar a família de Merit, Merit e o relacionamento entre todos.

Nem morta eu queria ser adolescente de novo. Um saco. A minha adolescência não foi tão ruim, mas é um tal de vivermos na nossa própria bolha que deus me livre. Isso me agoniava na época (panelinhas colegiais, os limites pra tudo, carai) e olha que eu nem cresci nessa época neurótica de redes sociais. Merit se isola de tudo e de todos porque essa foi sua reação aos eventos traumáticos pelos quais passou. Sua irmã gêmea, que também passou por eventos traumáticos, reage de outra forma, tampouco muito construtiva, mas inegavelmente mais sociável.

A discussão acerca do que é “normal” ou não perpassa todo o livro e é um dos aspectos mais ricos da narrativa. Ninguém é normal, nem no livro e nem na vida real. Na verdade, todos nós apresentamos reações negativas a eventos que se passaram conosco, temos manias muito estranhas, obsessões quase imperceptíveis… Muitas vezes, hábitos e padrões perversos e destrutivos, fruto de uma sociedade bem doente e desequilibrada. As pessoas não exercem sua criatividade, vivem brigando, bebem demais, os relacionamentos são envenenados pela misoginia e machismo dominantes, vivemos sob o jugo de hierarquias e estruturas que nos parecem fora do nosso alcance. E ainda tem os terapeutas, desde Freud as pessoas acham que devem ser “bem-resolvidas” como se fossem problema de matemática.

Admitir que somos uns doentes é difícil, e não falo isso brincando. Porque o livro trata disso, de fato, e não apenas de crises de adolescência. Sabemos tão pouco sobre nós mesmos, do ponto de vista emocional, psicológico, físico, que se torna difícil entender onde termina uma angústia adolescente ou uma crise existencial da maturidade e onde começa uma depressão clínica que tem pouco a ver com a situação real da pessoa.

O conflito com o mundo externo é comum e pode ser saudável, transgressor. Eu não quero “aceitar” um mundo tão injusto. Por isso a paz e a motivação para seguir vivendo só podem ser encontradas dentro de nós e ao nosso redor – nas pessoas próximas, naquilo que vivemos e construímos no dia a dia, em como experimentamos as coisas.

A depressão nem sempre se apresenta como tristeza. As vezes se manifesta como uma falta de interesse e motivação tão profundos que parece que a pessoa já morreu, não faz a menor diferença entre estar viva ou não.

Um dos mais lindos poemas de Maiakóvski foi escrito para seu amigo e também poeta Iessiênin, que antes de se suicidar escreveu “se morrer nessa vida não é novo, tampouco há novidade em estar vivo.” O triste da história é que o próprio Maiakóvski também se matou anos depois, com as seguintes últimas palavras: “Acertei as contas com a vida/inútil a lista de dores,/desgraças e magoas mútuas,/Felicidade para quem fica”.

Mas o livro de Colleen Hoover é pra cima. Termina tudo bem. É fofo. Ninguém morre (nenhum ser humano). E não, não foi isso que me incomodou. Me incomodou porque ficou explicitamente didático demais, sabe. Muito aula acerca do que é depressão, seus sintomas, e de como resolver os problemas de família, e blá blá. E também tem a história do cachorro, que é bem bizarra (não vou contar, mas não tem crueldade animal nem nada, é só incoerente pra carai). Mas não tira nem um pouco o interesse pelo livro, cuja leitura me prendeu bastante.

Meninas eu li

“Sempre tive aversão a Ângela, que é o tipo de garota que permite que a atenção dos caras a valorize.”

Merit tem depressão mas não é boba. É meio insegura mas não faz esse tipo de escolha errada (faz outras, mas whatever). Se isola e deixa passar um monte de coisas acerca das pessoas que a cercam, mas se mostra bastante perspicaz em outras questões.

O sexo permeia o livro todo, de uma forma sutil. É o tal lance adolescente de descobrir a sexualidade. E aqui, quase nada é o que parece. Todo o mundo faz escrotice, mas quem nunca? E não me refiro só a sexo e relacionamento: Luk – irmão da madrasta de Merit – quando estava na fase ultra rebelde da adolescência, roubou jóias de família da irmã, e deu no pé. Péssimo. E coisas assim.

O prêmio de primeira pior impressão vai para o pai de Merit. Ela nos conta que sua mãe padecia de câncer e seu pai começou a ter um caso com a enfermeira dela, com quem acabou casando depois que a esposa sarou e a amante engravidou. Tosco, né. Mas não foi bem assim, ainda que toda a loucura da mãe de Merit não justifique o nível de neurose existente no relacionamento entre os adultos da família. Mas quem sou eu para julgar.

De novo, quase nada é o que parece. Uma sociedade doente cria pessoas doentes que por sua vez, alimentam o círculo vicioso. Mas a mensagem do livro é: ei, somos um bando de doidos, mas ainda assim podemos tentar melhorar, nos amar e sermos mais felizes. Questionando tabus e preconceitos, expondo como a hipocrisia e a falta de comunicação podem nos deixar em mil pedaços tristes, o livro dá um recado otimista e manda um alerta geral para a presença cada vez mais disseminada da depressão nas nossas vidas.

 

session ipa

Para ler bebendo

A Roleta Russa é uma cervejaria que só faz IPAs, APAs, PAs e que tais.  Eles chamam de cervejas extremas mas vou avisar que, as que conheço, não são tão extremas assim. A da formiga, em especial, achei bem suave, mas estou acostumada com Vertigem, fazer o que.

Mas hoje vamos de session ipa da Roleta Russa. Não gosto que o único rótulo feminino da marca (aliás, as garrafas dessa cervejaria são qualquer coisa, muito legais) seja da cerveja mais “fraquinha”. Mas uma ipa session de 4.5% de graduação alcoólica e amargor 42 IBUs é uma boa porta de entrada para uma cerveja mais séria, mais de gente grande – bem o momento da molecada problemática do livro.

Aromática tendendo pro cítrico, amargor razoável, acaba sendo uma boa opção para quem gosta do sabor típico das IPAs americanas mas não quer ficar bêbado logo.

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