Flores Partidas (e outras desgraças de Karin Slaughter)

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Camilla Lackberg, Patricia Cornwell , Liza Marklund, Tess Gerritsen, Kristina Ohlsson, Gillian Flynn são algumas das escritoras de suspense que mais gosto atualmente. Algumas delas são da Escandinávia, o que pode parecer estranho já que é uma terra em que aparentemente tão poucos crimes acontecem. Ou talvez seja justamente por isso, em lugares ricos em crimes violentos, geralmente originados em questões como desigualdade social e corrupção dos sistemas judiciário e penal, assassinatos cometidos por sociopatas tornem-se mais uma estatística, eventos sem novidade em um mundo de sangue. Já na Suécia, qualquer facada vira manchete.

Se retirarmos da equação os assassinatos cometidos em função de atividades criminosas, balas perdidas, violência policial, as estatísticas mostram enorme desproporção entre homens e mulheres: são poucas as assassinas, e demasiadas as assassinadas. O nome disso (para que ninguém se engane) é feminicídio, pois essas mulheres morrem única e exclusivamente em função do seu gênero.

Discutir a representação da violência contra a mulher rende um programa inteiro de doutorado. Milhões de teses por aí. Aliás, discutir a representação de qualquer coisa na indústria cultural rende uma fábrica de tecido, de tanto pano pra manga (piada infame). Ultimamente tem havido uma discussão intensa acerca dessa nóia de diretores, roteiristas e produtores sempre colocarem um estupro no meio da história como recurso narrativo para a personagem feminina “dar uma virada.” No mínimo, é um recurso pobre, como se mulher precisasse virar vítima de crime sexual pra se transformar em senhora de si: a clássica provação. Não pode ser um câncer? A perda de um filho? A perda do emprego e da casa por falta de pagamento?

Além disso, a exposição crua da violência contra a mulher, quase sempre de teor sexual, banaliza o evento, tornando-o algo que simplesmente se espera ao longo de uma história – real ou não. Não costuma funcionar como denúncia, já que as raízes dessa violência, sempre naturalizada no ato do macho, jamais são expostas. Como dizem por aí, o estuprador é um filho saudável do patriarcado, e mostrá-lo como um monstro não ajuda em nada já  que via de regra eles são pessoas normais (na vida real).

Tudo isso para falar de Karin Slaughter. Li alguns livros dela: Destroçados, A boa filha, Flores Partidas, A Garota de olhos azuis, Esposa Perfeita.

Pausa. Filmes e programas de TV são uma coisa. Livros, outra. BEEEEEEM diferente. A análise de conteúdos de mídia eletrônica e efeitos sobre a sua audiência é uma linha de investigação muito rica em ciências sociais, mas a literatura é um outro campo. Outra história. Outras análises.

Eu fico pensando que não é possível que Karin Slaughter seja o nome real dessa moça. Sério, Slaughter? Daí ela escreve uns livros que contêm os atos mais sádicos jamais praticados contra mulheres, em sua maioria, muito jovens. Uma coisa horrorosa. Nível dark web. E eu me pergunto pra quê tanto sangue e tanto ódio. Porque na boa, você fecha o livro e quer matar um macho. Sério. Não é porque eu sou feminista. Já li coisas medonhas sim, inclusive reais, mas em geral não são tão explícitas.

E sabe o que é mais chocante quando se trata desse tipo de violência? A quantidade bizarra de homens que a apreciam. Vocês sabem que snuff porn (real) não é lenda urbana, não sabem? Então já concluíram que existe um público numeroso para isso. Como para pornografia infantil. Tráfico de mulheres (milhares de mulheres prostituídas mundo afora contra a vontade, seqüestradas, escravizadas, e homens de negócios que assinam contratos nesses bordéis). E por aí vai.

Isso para continuar a falar de Slaughter. Me dá uma revolta bizarra, porque eu sei o quanto a violência contra a mulher é normalizada, é real, é aceita. É só assistir filmes pornô na internet, a cara de sofrimento das mulheres. E os meninos começam a achar que tem que ser assim. Se você assiste, por exemplo, Criminal Minds, pode ficar com a falsa impressão de que o mundo é cheio de psicopatas traumatizados e muito inventivos. Mas não se pode dizer o mesmo dos horrores narrados por Slaughter (ou mostrados em Law and Order SVU) ou outros escritores do gênero. Porque o estuprador não é um sociopata; é apenas um bom filho do patriarcado.

Enfim. Eu tive impressões diferentes quando li os diferentes livros de Slaughter; achei a trama de Destroçados e Flores Partidas muito boa, super me prenderam. Já Boa Filha achei mais ou menos, meio óbvia, meio sem graça. Ah, sempre rolam problemas familiares intensos, pessoas que se afastam em função dos crimes cometidos contra elas, porque afinal, a violência é profundamente desestruturante – qualquer que seja ela.

 

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