Vulgo Grace – Atwood

vulgo

Vulgo Grace – Margaret Atwood.

Se as mulheres são seduzidas e abandonadas, espera-se que fiquem loucas, mas se sobrevivem e seduzem por sua vez, então são consideradas loucas desde o começo.

Eu já tinha tentado ler Margaret Atwood antes. Sendo fã da série Conto da Aia, tentei ler O Ano do Dilúvio, mas não consegui, por razão similar a que interrompeu minha leitura de Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Adichie. Me faltou estômago.

Graças aos bons deuses da floresta, não foi o caso com Vulgo Grace.

Em 1843, no Canadá, um homem e uma mulher são assassinados em sua residência (não eram casados, mas viviam em pecado; ela, a princípio governanta da casa, estava grávida). Poucos dias depois, um rapaz de 19 anos e uma menina de 16 foram presos, acusados do crime (ambos trabalhavam na propriedade do falecido). Condenados a forca, apenas ele cumpre seu destino; ela, talvez por sua pouca idade, talvez por ter convencido o juiz de que era apenas uma menina tola e manipulável, acaba por escapar da morte, ficando cerca de 30 anos na prisão, até conseguir o indulto. História verídica.

A partir desta história, Atwood delira e escreve a história de Grace Marks, a tal assassina, da infância na Irlanda a sua libertação, misturando dados (e fontes) concretos com muita imaginação e incrível sagacidade. Se Grace alegava inocência, dizendo não se lembrar de desempenhar o papel que seu suposto cúmplice lhe imputava, ela carregava consigo, de forma inescapável, alguns pecados mortais, imperdoáveis: era jovem, era bela, e tinha uma língua solta que obedecia a uma mente perspicaz.

Há trechos do livro narrados por ela mesma, em primeira pessoa, e nem por isso ficamos sabendo da versão escolhida pela autora, porque ela na verdade não tem nenhuma. O máximo a que chegamos é que Grace sofreu traumas muito profundos, e possivelmente sofria do que hoje chamamos transtorno dissociativo de personalidade.

A trajetória da moça é um sofrimento só, mas quer saber? O sofrimento é muito mais comum do que a gente imagina. Pobreza, famílias enormes, ter que começar a trabalhar aos sete anos de idade, aos 13 está totalmente sozinha no mundo em um país estranho, espancamento, sedução, estupro… O mundo é mau, pica pau. Mas Grace é esperta, e é sensacional como Atwood constrói uma personagem (possível assassina) extremamente esperta sem torná-la astuta, maquinadora, fria, mentirosa. Não sei se um homem teria conseguido isso. Porque né. Mulher tem que ser bobinha, emotiva, e de preferência um livro aberto. Grace sempre responde a altura aos homens que a agridem, e em troca recebe seu ódio e xingamentos como puta, víbora, etc. Nada de novo sob o sol.

Há tramas paralelas no romance, em especial um médico norte-americano que chega na prisão, quando Grace já deve ter passado dos 30 anos, com o objetivo de avaliar sua sanidade mental. Ele mantém um caso ilícito com sua senhoria  ao mesmo tempo em que tenta se aproximar de uma mocinha de boa família. E cara, por um triz ele mesmo não se vê envolvido em uma grande tragédia. A loucura está sempre a espreita, tanto quanto a morte.

O fascínio que os humanos possuem por violências que seus pares cometem remonta a bíblia, aliás cheia de crimes e intrigas, como a própria Grace faz questão de salientar. Tampouco há novidade na crueldade e mesquinhez humanas – a diferença entre nós e os vitorianos é que eles ficavam sabendo de muito menos casos do que nós, que ficamos pendurados na internet e diante da TV o dia inteiro, assistindo ao circo de horrores mundial.

Meninas, eu li…

Mulher não pode ser bonita. Não pode ser jovem. Se for rica então, valha-me deus. Precisa de um macho pra colocar arreio. “Pensei em como os homens piscam e fazem um sinal com a cabeça quando uma viúva jovem e rica é mencionada, e como uma viúva era respeitável se fosse velha e pobre, mas não o contrário.” Grace tem uma percepção muito clara das hierarquias sociais, cuidadosamente estruturadas em torno do gênero, da cor, da situação financeira e do passado familiar das pessoas. Ela sabe que há vários pesos e várias medidas, e sabe muito bem que ela se encontra perto do extremo mais vulnerável desta corda. Ela diz: “uma mulher como eu é sempre uma tentação, se for possível para eles não serem observados: porque no que quer que digamos, ninguém acreditará.”

Ela percebe que a culpa é sempre das mulheres: “a verdadeira maldição de Eva era ter que aturar as tolices de Adão que, assim que teve um problema, jogou toda a culpa em Eva.” Embora ela tenha escapado da forca, aparentemente a maioria das pessoas acreditava que ela era, de fato, uma mulher fria e manipuladora, que seduziu o pobre rapaz para que este assassinasse seu patrão e a mulher que ela tanto invejava.

Há mulheres que manipulam outros para que façam o que desejam? Claro que sim. Há assassinas cruéis, ladras, etc. Mas se analisarmos estatisticamente, a maioria esmagadora dos assassinatos (de todos os tipos, inclusive deste que estamos falando) é praticada por homens, e muitas vezes descobre-se que suas cúmplices estavam envolvidas em um relacionamento abusivo, de espancamentos e ameaças. Mas os homens adoram pintar a caveira das mulheres, e jogam nelas a responsabilidade por seus desatinos com uma facilidade acachapante. Desde Adão.

A Grace de Atwood é humana, tem a mente e a língua afiadas, pouca esperança na vida, mas sem derrotismo, vários traumas e muitas tristezas. Uma personagem intrigante, um livro sem respostas fáceis, que faz com que olhemos para nós mesmos e para nossos pares com um olhar diferente. Como disse, a loucura bate a porta.

smoked-porter.png

Para ler bebendo…

Morei um tempo na Inglaterra, muitos aos atrás. Foi lá que de fato aprendi a apreciar cerveja. Gosto de bitters, stouts, Ipas, porters… Aliás, recentemente as IPAs entraram no gosto do brasileiro e viraram modinha, toda cervejaria tem a sua.

As stouts e as porters são meio invernais, acho difícil que a galera daqui se jogue nesses estilos. As primeiras menções ao estilo Porter datam do século XVIII, a partir de cervejas lupuladas feitas com malte castanho. Logo se tornou popular entre os estivadores e trabalhadores braçais, daí seu nome. Aparentemente, foi a primeira cerveja que podia ser produzida em larga escala, desenvolvida a partir do envelhecimento na própria cervejaria. O estilo stout desenvolveu-se a partir das porters.

A cervejaria de Piracicaba Dama produz a Dama Bier Smoked Porter, com graduação de 6% de álcool e IBU 45. Subestilo da Porter, a Smoked Porter tem um defumado acentuado juntando-se aos traços de café torrado típico do estilo original.

A cervejaria Três Lobos tem a Bravo, maturada em barril de umburana e com elevado teor alcoólico (9%). A Malteza da Insana oferece um sabor mais para o chocolate amargo, e também é mais suave, não chegando aos 5% de graduação.

Cuidado!!!! Mais um estilo que não se presta ao jeito brasileiro de beber cerveja estupidamente gelada. Sirva em torno de 10 graus.

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