Pequenos incêndios por toda parte – Celeste Ng

incêndio

Dramas de subúrbio americano já se tornaram um clássico há muito tempo. Pra quem não sabe, “subúrbio” tem uma conotação muito diferente para os norte-americanos, não tem nada a ver com Bangu ou Madureira (uma vez, quando traduzia um thriller policial que se desenrolava nesse contexto, eu tentava sempre que possível, escrever “dona de casa burguesa” ou “classe média,” porque é por aí mesmo).

Shaker’s Village é uma comunidade planejada e endinheirada perto de Cleveland. No estilo todo o mundo conhece todo o mundo, alto padrão de vida, famílias progressistas em que casais inter raciais não causam escândalo, todo o mundo muito saudável. Imagem é quase tudo, e embora as pessoas na camada mais baixa da sociedade sejam tratadas com condescendência e caridade, também todos fazem questão de não demonstrar e não desvalorizar sua própria riqueza. Exemplo de elegância, berço e sucesso, a família Richardson conta com um casal na casa dos 40 anos (ambos trabalham), uma filha de 18, dois meninos de 17 e 16, e uma garota de 14. Todos são mais ou menos “normais,” (como a história de passa no fim dos anos 1990, não ficam pendurados no smartphone e em redes sociais 100% do tempo) com exceção de Elizabeth, a mais jovem, classicamente rebelde, com direito a coturno e tudo. Para desequilíbrio de todos e dor de cabeça geral da nação, Mia e sua filha Pearl (pérola, em inglês, quer mais cabeça?) chegam de fusca para mudar a vida de muitos.

Mia é uma fotógrafa que viaja pelos Estados Unidos em um nível de vida próximo ao da pobreza. As vezes para em algum lugar por um tempo, para que a filha de 15 anos estude, enquanto ela trabalha em seus projetos ou em algum bico disponível. Às vezes consegue um bom dinheiro com seus projetos artísticos, às vezes não consegue nada. E assim segue com sua vida cheia de desapegos e vazia de regras, até que vai parar em Shaker Heights, onde aluga o segundo andar de uma casa pertencente a matriarca da família Richardson, Elena.

Elena, que se acha muito fofa e generosa, de cara escolhe Mia e a menina para ocupar seu imóvel (ela alugava por um baixo preço a pessoas que ela considerava boas em potencial, mas de alguma forma injustiçadas pela vida), mas pouco depois percebe que há algo de indomável em Mia, que – naturalmente arredia – não se rende a encantos fáceis e conhece demais do mundo para se deixar enganar pela generosidade auto-adulatória.

Paralelamente, os dramas adolescentes de sempre com seus contornos peculiares. Gravidez e aborto, o garoto bacana e sem sal que se acha merecedor do amor e do corpo da garota nova no pedaço mas que demonstra não ser tão bacana quando ela resolver trepar com o irmão burro e bonito dele, a partida para a faculdade e as rupturas dela decorrentes.

Em meio a tudo isso, o drama pessoal de duas mulheres de classes sociais e etnias distintas que lutam pela posse (isso, posse) de uma mesma criança.

As diferenças de classe, aliás, marcam toda a narrativa, e não apenas o dinheiro, mas o comportamento esperado e a vida planejada são a cada momento postos em xeque. Todas as pequenas vitórias têm um preço, e ninguém sai incólume de experiência alguma. A mãe que perde a criança tem diante de si uma nova possibilidade, e a mãe que a leva tem que abrir mão de um sonho e de um futuro melhor. Todas as histórias desta história, na verdade, giram em torno de um mesmo tema e suas variações: a maternidade.

A estranha trajetória de Mia guarda um segredo (o arco suspense do livro é muito bom), que Elena Richardson desencava com seu talento e sua raiva, em um movimento que ela justifica como sendo de justiça mas que na verdade, tem muito mais de piromania. Que aliás, é o mesmo que sua filha mais nova faz para destruir a própria família.

Todo o mundo se sente no direito de dar uma lição em quem perturba sua vida, atrapalha seu caminho, não age como deveria. A verdade é que Mia nunca prejudicou Elena, que em tese não tinha porque acender o pavio da vida da outra. Elizabeth, embora adolescente oprimida em casa por ser diferente, não tinha o direito de destruir a história e a vida da sua família porque ela mesma precisava escapar (e vamos combinar que nem estamos falando de uma família tão opressora assim, não havia violência e nem abuso, o castigo maior foram a destruição dos seus amados coturnos). O mote do livro é esse, são pequenos incêndios por toda parte que uns e outros causam nas vidas alheias, muitas vezes, de forma quase aleatória. A lição, no caso, é transformar estes eventos destruidores em um novo e fértil começo, como ocorre com florestas devastadas por incêndios. É buscar o recomeço em novas bases, sacudindo a poeira acumulada que apenas atravancava a vida.

Meninas, eu li [SPOILER ALERT]

Como eu disse, a maternidade está no centro de tudo, e sendo assim, são as mulheres que colocam toda a história em movimento.

Celeste Ng tem uma sensibilidade muito própria e muito envolvente, e sua narrativa me prendeu até que eu tivesse terminado a história. Mas eu fiquei um tanto insatisfeita com o final. Toda a discussão em torno da pequena bebê que havia sido abandonada pela mãe imigrante em uma noite gelada me pareceu forçada, com umas questões irrelevantes (mas talvez nos EUA seja diferente) e não consegui sentir nenhuma empatia pela mãe abandonadora que depois se arrepende. Pior, ela perde na justiça o direito de reaver a menina, mas simplesmente sequestra a garota e volta para a China com ela. Mas como eu disse, ninguém sai incólume desse história, pois o retorno a China, para ela, fora também uma derrota.

Mas afinal, tudo vale a pena pela maternidade. Né. Essa moral inquestionável que perpassa o livro também me incomodou. É só drama, inclusive quando uma das garotas faz um aborto. Moralismo em relação a adoção, em relação a barrigas de aluguel… Não é o moralismo conservador da direita raivosa, é um moralismo bonzinho de mãe natureba. São discussões éticas fundamentais, mas que achei esvaziadas por um pseudo-heroísmo maternal na história.

Mia é uma personagem que também me incomodou um pouco. Não achei bem construída. Certamente os aspectos estranhos foram bem pensados pela autora, mas não me agradaram nem um pouco. Por exemplo, Mia é virgem. Digo, ela nunca transou com ninguém. Santa Maria? E duas coisas que eu acho que foram mal trabalhadas, provavelmente porque Ng quis que admirássemos Mia em toda a sua glória independente e ousada e criativa, amém. Uma, que ela arrasta a filha pelo país afora sem nem pensar no que a ausência de outros relacionamentos pode fazer com a vida emocional daquela pessoinha. Sério, nem é a coisa material, careta, institucional, tipo casa, carro, roupas, escola. Mas eu tenho várias amigas solteiras com filhos, e algumas delas eram meio nômades mas optaram por se enraizar um pouco porque sabem que seres humanos são gregários e necessitam desenvolver a capacidade de se relacionar e se colocar em grupo. Pearl só tem a mãe, só conheceu a mãe, é o único relacionamento que ela conhece.

A outra parada é mais subjetiva. Pessoalmente, eu acho que teria sido dez mil vezes mais interessante se o incêndio na vida de Mia tivesse sido mostrado. É fácil chutar cavalo morto, é fácil mostrar uma adolescente rebelde em trajetória de colisão com uma família burguesa (embora progressista) que ela detesta. É fácil desmascarar essa família burguesa e suas máscaras, sua condescendência, sua previsibilidade. Difícil é questionar o questionador, e se Mia parte deixando para trás uma pretensa lição, além de uma bomba-relógio na forma de Elizabeth (que passara a idolatrá-la), porque também ela não poderia ter levado consigo um grande ponto de interrogação, um tropeço, um questionamento? Sua fuga surge como uma injustiça, fruto de uma perseguição mesquinha, mas que na realidade só fora possível pelas pontas soltas que ela mesma deixara para trás na juventude, pontas soltas que a meu ver também foram injustas com outras pessoas. Mas parece que a autora, em seu moralismo maternal, opta com clareza por um dos lados de uma complexa discussão ética e torna Mia sua heroína inconteste.

Apesar desses questionamentos eu curti muito a leitura. De novo, Ng tem uma sensibilidade rara e uma narrativa provocativa que me fazem ter vontade de sempre ler seus livros.

 

DoktorBrauslider1.jpg

Para ler bebendo…

Apresentando, as interessantes cervejas da Doktor Brau (Congonhas). Pra combinar com a vida da classe média alta, que pelo seu conforto muitas vezes precisa pagar com modorra e hipocrisia, a ANESTHES’IPA, uma Double Ipa com 8.6% de álcool. É uma cerveja intensa, com lúpulos cítricos, para ser servida entre 5 e 10 graus.

Tem também  SORO N’AVEIA, uma Summer ale para relaxar, refrescar e fazer pensar na vida com a calma que também é bem vinda. Graduação alcoólica de 5.3%, para beber a uma temperatura de 4 graus.

E, se nada der certo, temos a PSICOT’IPA, uma american Ipa densa e lupulada, graduada a 7.2%.

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