Rapé

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Eu demorei muito a experimentar o rapé. Inclusive, até o momento em que vos escrevo, foi só uma vez.

O rapé geralmente integra o ritual de ayahuasca, assim como a sananga (um colírio). Vamos relembrar as origens e dizer que é uma tradição indígena, sul-americana e ancestral. Os três elementos se combinam e se complementam, formando uma tríade de medicina cabocla que é a base da pajelança. Até onde eu sei (posso estar enganada), a utilização do rapé e da sananga integra o ritual indígena mas não o das igrejas de Daime, UDV e outras, com exceções abertas quando há um pajé presente. Faz sentido.

Muita gente conhece o rapé como aquele pozinho feito de tabaco que se usava até uns cem anos atrás. O rapé indígena também é feito de tabaco mas em geral vem misturado a outras coisas (enteógenos ou não). Os que eu conheço, levam apenas tabaco e cinza de madeira, finíssimos. A substância não é inalada, como a cocaína, ela é assoprada pelo pajé. Você a absorve através dos vasos sanguíneos presentes nos seios nasais. É mais uma medicina da floresta que, como tantas outras coisas, vem sendo conspurcada pela galerinha que topa qualquer coisa pra ficar bem na balada, e usa as coisas sem nenhum bom senso. Vi histórias de pessoinhas que tomaram chá e foram nadar no lago. “Oba”, devem ter pensado. Se afogaram, olha a merda. Aí dizem que a culpa é da ayahuasca.

Bom, eu sempre tive nervoso com enfiar coisa nariz adentro, tem gente que tem nervosinho de olho, eu tenho nervosinho de nariz. Nunca cheirei nada na vida, tenho tendência a ter rinite, sinusite, alergia. Sempre tive um pé atrás com rapé por isso. E porque testemunhei duas pessoas basicamente virarem do avesso na primeira vez em que experimentaram. Então, durante muito tempo, não confiei em experimentar o rapé, mesmo sabendo que há uma razão para que ele integre o ritual. Diziam-me que melhorava o mal estar, ajudava a aterrar, a mudar a energia se esta estivesse muito carregada para um lado da balança (acalmando quando necessário, dando energia se fosse o caso).

E eu enrolei; quando estava muito bom (o chá), eu pensava, não vou experimentar o rapé porque pode estragar a experiência, e quando não estava muito bem, pensava: vou ficar ainda mais na merda. Acabou que experimentei durante o último ritual, a força do primeiro despacho já tinha praticamente ido embora, e eu resolvi experimentar, assim do nada.

Um balde foi colocado do meu lado, porque às vezes você também faz limpeza com rapé, embora normalmente seja só secreção, catarro, e não vômito. Daí aplicaram em mim, narina direita. Maluco, puta que pariu, como doeu. Eu não sou muito sensível para dor, mas to percebendo que todos os componentes do ritual possuem um efeito meio forte em mim (ás vezes, tenho dores de barriga bizarras com o chá, não é caganeira, é só a dor mesmo, sem alívio). Ardeu um pouco (o que eu já imaginava) e doeu a cabeça pra caramba, parecia um martelo explodindo na minha testa. Mas foi muito rápido, e a segunda narina doeu menos.

Depois foi sensacional. Muito rápido, mas sensacional. Uma euforia incrível, e ao mesmo tempo, luz e paz. Minha kundalini foi lá pra lua. Fiquei toda arrepiada, dando risada. E entendi imediatamente o porquê de ser usado durante o ritual. Em certos rituais eu fico muito sedada, e o rapé deu aquele ânimo. Porque demorei tanto tempo pra descobrir isso?, me perguntei…

Não fiz limpeza nenhuma, meu nariz ficou limpinho logo depois. Assoei o nariz algumas vezes, claro. E também o efeito em si foi bem rápido. Também me disseram que, assim como a ayahuasca, o rapé também se apresenta de um jeito diferente a cada vez que você toma. Talvez um dia não seja tão dolorido, ou talvez um dia a energia não seja tão maravilhosa.

Quanto a sananga… dói demais. Todo o mundo diz. Se eu tomei uma porrada com o rapé, imagina com a sananga. Acho que vou demorar muito tempo pra experimentar.

 

 

Um comentário

  1. Oi. O rapé reativa a ayahuasca. São Varios tipos de sopros para fins diferentes. Aterrar. Fazer “aumentar” a “forca”. Purgar. Sim, se você não estiver conseguindo purgar e estiver pagando mal precisando disso, há um sopro que funciona imediatamente. Você tem necessariamente que confiar em quem está soprando, pois não se trata apenas dos “ingredientes ativos” como nosso modelo médico descreve. O sopro literalmente carrega a intenção do soprador. Como uma ferramenta de cura indígena, ela age instantaneamente. Afinal, quando você está na floresta, tudo quer te comer e você não pode esperar meia hora para o efeito começar. Dentro do ritual de ayahuasca, ou mesmo sozinho, é recomendável você ter, como vc já sabe, suas âncoras, que são os cantos e maracas , antes, durante e depois. 🙏

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