Ayahuasca: ancorando

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Pelo menos enquanto a ogrice geral que toma conta deste país não se manifestar, o uso da ayahuasca para fins ritualísticos é liberada no Brasil. Isso significa, na prática, uma permissão geral para uso, pois o conceito de ritual é muito amplo, a não ser que você seja pego vendendo a dita cuja em uma casa noturna. Mas eu não consigo imaginar gente tonta o suficiente para tomar chá em rave. Embora saiba que andam fumando changa por aí achando que é uma nova cara da medicina, mais rápida, moderna, xovem. Triste, triste. Enfim.

Tradicionalmente o uso da medicina de fato se relaciona com igrejas e rituais. Sessões de cura, rituais xamânicos, igrejas do Daime. O fato é que normalmente se toma em grupo, sob a liderança de pessoas mais experientes. Se é uma entidade estruturada, ou se é um grupo de amigos que se reúne em casa, isso varia. Mas a questão é que ela deve ser usada com extrema responsabilidade e respeito. Primeiro, porque é uma tradição ancestral que não existe para que você, menino mimado e branco de cidade grande, tenha mirações psicodélicas ou resolva seus problemas com seu papai. A ayahuasca não vai resolver nada pra você, só pra começar. Seu propósito sempre foi comunitário, passando pelo individual; lembre disso com amor. E honestamente eu espero que se você vai tomar o chá pedindo uma graça pra sua vidinha, ou um barato vulgar, e ponto, que você vomite até o baço. É, eu não devia desejar isso. Mas ainda não me iluminei, tá. Às vezes eu penso essas coisas, mesmo.

A substância altera seu estado cotidiano de consciência. A gente vive em uma sociedade triste em que estados alterados de consciência são demonizados. Se as pessoas estudassem antropologia logo se sentiriam tolas por, de forma apressada e preconceituosa, descartar e criminalizar o uso de psicoativos. Ao longo da história, e em todo o globo, as mais diversas sociedades usaram estas substâncias de forma ritualística ou recreativa, e ainda como forma de enfatizar a coesão social. O problema (como sempre) é que em um sistema capitalista você tem que fazer a pessoa comprar mais e mais, e desta forma, cria-se essa celeuma em torno de drogas viciantes (altamente artificiais), que aliás passam a estar no centro do mercado, como crack, heroína e cocaína, aproveitando para (por motivos políticos e interesses comerciais) tornar proscrito o uso de plantas tradicionais. Aqui no Brasil, então nem se fala, enquanto o mundo inteiro libera, estuda, e ganha dinheiro com a maconha, a gente tosca continua voltando uma década a cada ano que passa, e mais uma vez vamos ficando para trás. Encher a cara de cachaça e atropelar dez pessoas, tudo bem. Fumar maconha e ficar chapado em casa, rindo com os amigos, xô satanás.

Uma vez que é um alterador de consciência para usos ritualísticos e terapêuticos, faz sentido que exista um certo número de atitudes recomendáveis em torno do seu uso. Em relação aos usos terapêuticos (contra dependência de drogas, depressão, TSPT), procurem os estudos que andam sendo feitos em Universidades mundo afora (Google it).

Em relação aos rituais, venho percebendo a importância de algumas coisas, em especial, da música. Todos os rituais vêem com música, as vezes, música e dança. Tudo vai depender de como está sendo trabalhada a medicina naquele momento (sessão) específico, com aquele grupo específico, e acredite, a música faz uma grande diferença. Não só porque chama as energias/ entidades/ paisagem que o(s) líder(es) quer(em) mas porque constrói um senso de grupo fundamental para dar segurança a quem não está habituado, e sentido para quem já está no caminho. E principalmente, ajuda a ancorar a pessoa que pode estar em processos complicados dentro de si.

Quem assistiu ao filme A Origem vai saber do que estou falando: sabe aquele objeto que todos eles carregavam consigo, para que se ancorassem, soubessem se estavam sonhando ou não? É tipo isso, uma âncora pra te lembrar que você está em uma sessão de ayahuasca. Existem outras formas de ancorar, de melhorar o mal estar, e cada um vai aprendendo conforme for passando pelas situações.

Se você gosta de orar, ore; o ritmo ajuda, te obriga a se concentrar na repetição das palavras. Medite contando a respiração. Faça o ohm (isso me ajuda a beça, às vezes quando a força tá muito avassaladora eu fico zumbindo), se concentra na japamala (que é tipo um terço budista). As vezes o momento é de se concentrar em ficar em você, se estabilizar pra não perder o chão. Outros momentos é pra cair dentro mesmo, e essas coisas você vai sentindo com o tempo.

Dançar para mim é muito bom, mas há momentos e momentos. É bom porque eu sou meio sensível aos componentes do cipó (que é sedativo) e às vezes me dá um sono louco, e também acontece muitas vezes de eu sentir muito frio, daí que dançar, pra mim, funciona bem. Mas nem sempre a sessão inclui a dança…

Ayahuasca é sempre um aprendizado, acerca de você, do mundo, e dela.

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