Sozinha na estrada

mulhersozinha2.JPG
Sozinha na estrada ou no mato.

Recentemente eu andei entrando em alguns grupos do Face formados por mulheres que viajam sozinhas. Eu viajo sozinha há (literalmente) décadas, então acho essa motivação (relativamente recente) entre as mulheres brasileiras simplesmente o máximo. Vinte anos atrás, eu cruzava com poucos brasileiros por aí, mulheres sozinhas então, eram raras, mesmo aqui pelo Brasil. Mas havia sim, então nada de achar que a pólvora foi inventada depois da internet, ok?

Entretanto, muita gente ainda estranha mulheres que viajam sozinhas. E não só no Brasil. E estranham inclusive mulheres que viajam em dupla, por exemplo, sem macho nenhum. Lembro que uns anos atrás noticiaram o assassinato de duas moças em algum lugar da América do Sul (acho que elas eram argentinas) com uma linha meio assim: “duas jovens que viajavam sozinhas foram estupradas e mortas não sei onde.” Oi??? Lembro que isso causou uma grita geral no tal país, e também no Brasil, gerando vários questionamentos acerca de como uma parcela da sociedade encara as mulheres que estão sem macho. É foda e a gente não deve e não pode baixar a cabeça, não.

Anos atrás eu estava na Turquia, voando de balão na Capadócia. O baloeiro era português (me desculpem, mas os homens portugueses são machistas pra caralho, sei que o susto e o medo que se abateu sobre nós recentemente fazem com que muitos pensem em se mudar pra lá, mas lembrem que nada é perfeito) e veio com umas gracinhas pra cima de mim, tipo, e o que o uma moça brasileira está fazendo sozinha na Capadócia? Eu sempre dou uma de cínica, “viajando, ué.” Pergunta cretina, resposta cretina. Quer ver outro ato falho de linguagem? Você está em algum lugar sozinha (pode ser num show, num bloco de carnaval, num comício) e volta e meia algum imbecil vai surgir com a seguinte pérola: e aí, o que cê ta fazendo perdida por aqui? NUNCA ouvi perguntarem isso pra homem. E peço desculpas publicamente se isso acontece com eles também, mas nunca vi. Minha resposta é igualmente cretina, porque você acha que eu to perdida? Tô na rua tal, bairro tal, sei onde estou e o que estou fazendo. Ficam sem graça. E depois eu é que sou antipática.

O baloeiro falou mais uma e outra gracinha e eu fiquei olhando pra cara dele com cara de paisagem, ele desistiu e deve ter saído por aí falando que as brasileiras eram umas infelizes.

Estes incômodos geralmente são só isso mesmo: incômodos. Mas não adianta a gente fazer de conta que não faz diferença o fato de sermos mulheres. Dia desses em um dos grupos uma mulher postou algo assim, “gente, como vocês fazem pra se sentir protegidas em um quarto de hotel quando estão sozinhas?” Cara, que medo é esse que incutem na gente, que cria raízes, envenena nosso dia a dia? Sim, ser mulher é passar metade do tempo com medo que um homem te agrida, porque eles fazem isso mesmo. Mas gente. Hotel, sabe. Um quarto, sua chave. Não existe lugar 100% seguro e nós somos mais vulneráveis, mas deus do céu, menos, gente, menos.

Não me arrisco a toa mas ficar temendo tudo não dá. Por exemplo, não quis viajar sozinha na base do mochilão pro norte da África. Comprei um pacote. Tem mil desvantagens mas dá pra curtir, porque o assédio horroroso (não só às mulheres mas aos turistas em geral) existente em países como o Egito, relatado por pessoas que eu conheço e que sei que não são nutela (e que agora conheço em primeira mão), é muito pior do que qualquer inconveniente de pacotes prontos. Não é frescura minha, mesmo. Aí vem uma amiga minha que adora ser diferentona e diz, mas ai, conheci uma norueguesa que viajou sozinha pra lá e foi o máximo. Que lindo, vai ver as norueguesas de 26 anos são o máximo. Mas vai por mim, investigue seu destino, é a melhor forma de ficar segura. Eu sei  que muitas coisas podem soar como preconceito mas nossa segurança vem em primeiro lugar, e eu senti na pele o que é o desrespeito que os árabes muçulmanos dedicam às mulheres. Senti na Turquia, na África, na Alemanha, na França, na Inglaterra.

Tem coisas estranhas. Uma vez peguei um ônibus da Romênia pra Grécia. O ônibus estava meio vazio, e tive a nítida sensação de que eu viajava com um grupo de romenos que consistia em dois cafetões e umas cinco putas que estavam imigrando em busca de mais oportunidades. Na área do sexo. Qualquer um passa por isso mas as mulheres tendem a se sentir mais desconfortáveis. Eu levo esse tipo de situação mais na boa, até troquei umas idéias com duas moças, fiquei até meio com pena delas, os homens eram muito nojentos. Mas sei que outras moças poderiam ficar intimidadas, e é ruim, porque aí os outros acham que você os está desprezando, e viva o mal entendido…

Às vezes também é uma decisão sábia não beber. Eu sou muito neurótica, morro de medo de perder dinheiro e documentos, então dificilmente fico bebendo na rua com galera desconhecida. Porque também a questão é a seguinte: podem batizar seu drinque em qualquer lugar, inclusive em um bar na sua rua. Mas quando você está cercada de amigos, você está mais protegida. Quando alguma merda acontece com você em casa, você sabe o que fazer, a quem recorrer. Sozinha, em uma terra estrangeira, não.

Viajar sozinha é sempre um aprendizado sobre você. E você vai aprendendo seus limites. Mas o interessante, até para você crescer, é forçar seus limites um pouco de cada vez, em direções diferentes.

 

 

 

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s