O Museu da Inocência

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Museu da Inocência -Orhan Pamuk

Na Istambul dos anos 1970 Kemal Bay, prestes a tornar-se noivo de Sibel, reencontra por acaso uma prima distante com quem começa um romance que irá desestruturar completamente a sua vida

Kemal tem 30 anos, e sua (inexperiente) prima acaba de completar 18. É uma garota muito bonita que pertence ao lado pobre da família. Kemal, ao contrário, é filho de um empresário muito bem sucedido, estudou nos Estados Unidos, vê-se como moderno, ele e seus amigos igualmente ricos. Na Istambul dos anos 1970, a virgindade é um tabu real, que os jovens moderninhos conseguem apenas arranhar superficialmente: aceita-se relações carnais entre dois jovens comprometidos, mas a reputação das mulheres ainda é um grande “bem” a ser zelado.

É um país dividido entre tradições e o desejo de pertencer a um mundo mais moderno, europeu. Um país que sofre com extremismos e violência política, em que as aparências não enganam e o lugar de cada um na sociedade é muito bem demarcado.

Fusun, a prima, dorme com Kemal no segundo encontro, entrega-se a ele com vontade, curiosidade e desejo, o que seria incomum em uma moça, ainda mais virgem (o que de fato ela era). Ao longo de meses, Kemal se torna cada vez mais dominado pelo relacionamento, e seu noivado com Sibel não resiste. A despeito do rompimento do seu antigo compromisso, contudo, Fusun desaparece da sua vida por um ano, o que o deixa virtualmente louco. Eles voltam a se encontrar, mas o relacionamento continua conturbado, por diversas razões.

Ao longo do livro, Kemal apresenta ao leitor vários objetos que contam sua história com Fusun, de bitucas de cigarro fumados por ela (!) a entradas de cinema, passando por brincos perdidos, cinzeiros, xícaras, enfim, qualquer objeto que ela possa ter tocado. Esse aspecto do livro demonstra quão perto do limite da insanidade o rapaz está. Ele se apaixona pela moça e transforma esse amor em uma obsessão doentia, que por pouco não leva a empresa da família à falência e ele mesmo, ao alcoolismo. Não acho romântico um sujeito, em meio a crise de abstinência da mulher amada, depois de quase um ano de ausência, se dedicar a lamber, cheirar e se esfregar em um cinzeiro ou um lápis utilizados por ela. Como Pamuk é um grande escritor (Prêmio Nobel, dá licença) a história não fica clichê, ou vulgar. O que surge para nós é exatamente um homem no limite da sua obsessão.

O curioso é que Pamuk de fato fez um Museu da Inocência com objetos que ele colecionara ao longo de vários anos, antes mesmo de finalizar o livro. É um museu de uma história fictícia, uma história privada, e é interessante a conexão que existe entre os capítulos dos livros e as vitrines propostas. Mas para mim, o comportamento de Kemal se aproxima perigosamente do comportamento do acumulador…

O livro empolga durante um tempo, depois cansa, porque ele é muito longo e Pamuk exagera na extensão das páginas que descrevem as dúvidas e neuroses de Kemal chafurdando na dor. E ele faz isso mesmo, e reconhece que o faz: chafurda na dor, recusa-se a dar as costas para esta dor, pois é sua única conexão com a amada, que ele se recusa a perder. Esse tipo de abordagem do amor me deixa meio triste, acho deprimente. O amor não deve ser medido pela capacidade que o outro tem de sofrer, em especial se for um sofrimento egoísta, como Kemal mesmo admitia ser o caso. Gosto de pensar que o amor é luz e paz, sujeito a chuvas e trovoadas (nada que vale a pena vem de graça), e não perdição e condenação. “Minha única chance de ser feliz nessa vida se foi com Fusun”, não acho isso sinal de maior amor, só de incapacidade de amar de verdade, em especial a vida e a si mesmo.

Meninas eu li

Kemal Bay é um babaca. Nossa, como é babaca. Ele sabe que é. Egoísta que deus do céu. Covarde. Um cretino. Mas não é um sujeito mau ou manipulador. Um machista bem do seu tempo (que até tenta superar vários preconceitos), mas que em nenhum momento pensa na sua amada como uma pessoa com sentimentos, merecedora de cuidados e respeito.

Ele acha inadmissível que ela tenha beijado outro homem que não ele, quase enlouquece quando sabe que, embora virgem, ela tinha já “ficado” com outros caras, enlouquece tanto que quase bota a empresa do pai a perder, por conta de retaliações a um sócio que havia saído com Fusun.

Em nenhum momento ele pensa no quanto prejudica a moça, desde impedir que ela estude para o vestibular, até impor-lhe uma vida de mulher de má fama. Ele não se importa. Tudo o que importa é tê-la em seus braços.

Kemal acredita que Fusun tem que ficar com ele (independente de qualquer coisa) simplesmente porque nenhum outro homem há de amá-la como ele. Esse pensamento é recorrente em homens e mulheres apaixonados, mas quando uma mulher é retratada dessa forma, ela é uma stalker louca e perigosa. Já o homem, é romântico. As diferenças de pesos e medidas são um dos indicadores mais fortes da intensa sujeição das mulheres a um ideal e á vontade masculinos.

Seu pai é igual, ou pior. Depois da partida da sua amante, e de ouvir falar que ela se casara com outro, ele se recusa a acreditar, imaginando que ela só havia espalhado a notícia para chamar sua atenção e fazê-lo sofrer. Porque, né. O homem é o centro da vida de toda mulher e razão única das suas ações e sentimentos. Infelizmente, nesse caso é verdade, o que talvez nos diga também acerca do romantismo machista do autor…

As mulheres existem para servir e satisfazer às expectativas masculinas. “Não encher o saco” (nagging women) é fundamental. Mas o que é encher o saco? O homem faz isso o tempo todo com sua mulher, mas não admite que ela também tenha expectativas em relação a ele. A mulher perfeita é “modesta,” “encantadora,” e sabe seu lugar.

Kemal é um covarde, que mente descaradamente para sua noiva, até quando sabe que a situação é irremediável. Sua depressão acaba forçando uma confissão, depois da qual ele afirma querer “se curar” e retomar o noivado, o que é mentira pois ele mesmo já decidira que não queria mais ficar com ela. Um mentiroso escroto, covarde até a raiz do osso.

Claro, estamos falando de homens turcos dos anos 1970. Quer saber? Nada de novo (nem velho) sob o sol.

walk

Para ler bebendo…

As cervejas do estilo saison abarcam uma gama ampla de ingredientes e aspectos, e permitem que os mestres cervejeiros brinquem com sua criatividade. Elas geralmente são carbonatadas, refrescantes, secas. É aromática, sendo mais comum o traço cítrico.

A cervejaria Wals, de Minas Gerais, lançou a Walkeriana em homenagem ao museu a céu aberto de Inhotim. O traço diferente aqui é o sabor baunilha, que eu acho ser bem incomum em cervejas desse estilo. Possui baixo amargor (25 IBU) e 6.4% de teor alcoólico.

Um brinde aos Museus, no país do ódio à cultura…

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