Viagens: o que não comentam (mesmo)

soldados em elada
Soldados a caminho de reprimir as manifestações do povo grego em 2012 (Atenas)

 

Quando a gente volta de viagem, sempre perguntam pra gente: gostou? Foi legal?

Dificilmente vou dizer que “não gostei.” Mas da mesma forma que acontece com as experiências com ayahuasca, dizer se foi “bom” ou “ruim”, “gostei” ou “não gostei” não diz muito.

Aquela parada do choque cultural é uma realidade mesmo, por exemplo. Também tem problemas que acontecem que ameaçam estragar seu passeio. As vezes o inesperado não é bem vindo. Coisas assim. Então, alinhei algumas observações a respeito:

  1. Perdoe-se pelos erros e equívocos. Às vezes você perde dinheiro (já tive que comprar duas vezes a mesma passagem de barco, por exemplo, o que me custou 50 euros), entende alguma informação errada e faz um passeio que não queria (ou vice versa), o hostel fica muito longe das atrações e você se recrimina por não ter pesquisado melhor, etc. Esquece isso. Mais fácil falar do que fazer, eu sei. Mas se você ficar se martirizando por ter feito bobagem, vai estragar o resto dos seus dias de férias. Aprenda com seus erros e siga em frente, esquece, desapega do erro e valorize os acertos.
  2. Nem tudo são flores. Aceita isso. Eu sei que tem muita gente que viaja nas férias e quer que tudo seja perfeito. Fair enough. Mas para outras pessoas (eu, por exemplo) viajar é uma aventura e um aprendizado, sobre o mundo e sobre eu mesma. Pessoas assim tentam sair da zona de conforto e mergulhar um pouco (ou muito) mais no seu destino-destinação. O que muitas vezes esquecemos é que nem tudo são flores, e que uma experiência maravilhosa e enriquecedora inclui aspectos muito difíceis de engolir.
  3. Ninguém viaja e deixa o coração em casa. Princípios e afetos viajam conosco. O tal “choque cultural” inclui você estar no norte da África e ver um homem enchendo uma mulher de socos e todo o mundo em volta nem piscar, porque lá isso é normal. Dizer que “é cultural” não é resposta, porque se assim é, então o terrorismo, a mais valia e o racismo também poderiam ser justificados assim. Pode se chocar. Pode ficar mal, se for o caso. Ninguém é obrigado a aceitar e justificar tortura de animais, opressão violenta das mulheres, segregação racial com base nas diferenças culturais. Ninguém está dizendo que você deve se intrometer no evento ou sair metendo o dedo na cara daqueles que você acha que estão fazendo merda. Primeiro porque não adianta, e segundo, um monte de outras razões. Leve sua indignação para casa, denuncie, aprenda com ela, veja o que de semelhante acontece onde você vive e o que você pode fazer para combater a violência ou o absurdo que você testemunhou. Eu, por exemplo, não vou a Espanha e nem compro produtos espanhóis, um boicote diante das torturas que fazem com os touros.
  4. Não parta do princípio que você entende o que está acontecendo. Uma vez vi uns gringos de nariz em pé pegando as latas de cerveja que as pessoas aqui no Rio colocam em cima das lixeiras de poste e jogando elas dentro da lixeira, fazendo comentários depreciativos sobre nós, macacos subdesenvolvidos (ok, eles não falaram isso, mas o comentário foi bem escroto). Não quis nem saber, me meti na conversa e mandei eles pararem de fazer aquilo, porque aqui no Brasil muitos catadores de lata sobrevivem disso, temos um índice alto de reciclagem de alumínio e as pessoas na Lapa colocam as latas em cima das lixeiras para que os catadores as peguem facilmente. Os caras ficaram sem graça e ainda foram chamados de babacas (palavra cujo significado eles obviamente desconhecem). Assim, não parta do princípio que você entende aquilo que se desenrola diante dos seus olhos.
  5. É possível que você fique entediado durante a viagem. Sim, isso é possível. Embora não ter nada para fazer não seja um problema para muitos, para mim por exemplo, ariana elétrica, é um problema. De noite, quando o lugar visitado não permite aventuras noturnas e não há televisão, o problema se acentua. Eu, claro, gosto de ler e meu kobo me faz companhia em todas as viagens. Mas tem gente que não gosta. Tem gente que leva o laptop e se distrai na internet (não é meu caso, não levo nem telefone), mas as vezes não tem conexão. Bom, pensa aí na pessoa que você é, e na próxima vez em que viajar, lembra que o tédio é possível.

 

 

 

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