Lolita

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Lolita, de Vladimir Nabokov

Falar de Lolita é quase um lugar comum. Ultimamente, textos e vídeos na internet alertando contra a recorrente romantização do livro, que NÃO É uma história de amor, vêm se tornando cada vez mais comuns. Assim, serei breve, até porque não tenho nada muito novo a dizer.

Eu li o livro quando tinha 12 ou 13 anos. Na adolescência eu tinha uma certa fixação por personagens que tinham a mesma idade que eu (também li Christiane F por aí, com 12 ou 13 anos), e Lolita tem bem 12 anos quando conhece seu algoz, o narrador da história, maldito Humbert. De início já somos informados de que ele narra sua desgraça em um momento futuro, no qual está sendo julgado por algum crime. Ele afirma não merecer piedade mas tenta mesmo assim angariá-la. Algo assim.

Nas décadas seguintes a sua publicação por Vladimir Nabokov, Lolita foi chamado de “romance erótico.” Hoje em dia, em que as mulheres também já discutem literatura e muitas delas questionam seus romantismos, dizemos que não tem nada de erótico no livro. Não é sobre amor e nem mesmo sobre sexo, embora muita gente se excite de certa forma com as passagens que envolvem intercurso, mesmo essas passagens pouco explícitas. Acho muitíssimo impressionante que a violência e o abuso venham sendo discutidos apenas muito recentemente no livro, mas gente, os críticos machos realmente achavam OK um velho babão (37 anos) arrastar uma menina de 12 por uma “aventura sexual” (=estupro) por vários estados americanos? Atenção para o fato de que o próprio Nabokov dizia que não era um romance erótico, que Humbert não era uma vítima. Mas quando pesquisei sobre o assunto, a crítica literária tradicional só focava na “paixão” do pedófilo (que não vi ser chamado como tal), filosofando sobre ela, e pouquíssimas vezes na violência sofrida pela criança.

O livro é, de cabo a rabo, sobre violência. Lolita é desvirginada por um “coleguinha mais velho” aos 11 anos, passa anos sendo violentada por seu padrasto, e quando foge deste, cai nas garras de outro estuprador, aos 14, que inclusive tenta prostitui-la. É absolutamente surpreendente que ela se recuse e prefira o abandono e a vida de mãe precoce e pobre, não é incomum crianças que sofreram abuso sistemático se perderem numa vida de drogas, prostituição, promiscuidade, etc.

Pra quem não sabe: Humbert é um europeu de destino e profissão incertos, com um histórico de internações psiquiátricas que, planejando mudar-se para a América do Sul, onde seria mais fácil ser pedófilo, faz um pit stop na Nova Inglaterra (EUA) onde, por mero acaso, acaba se hospedando na casa de uma mulher (Charlotte) cuja filha de 12 anos torna-se alvo da obsessão do já atormentado-doente-sórdido Humbert. Basicamente ele só aluga um quarto na casa da referida mulher por causa de Dolores, a quem ele secretamente chama Lolita. Ele casa com a mulher porca e detestável (segundo ele mesmo) apenas para ficar junto da menina e secretamente estuprá-la na calada da noite. Ele fica viúvo repentinamente, e assim consegue raptar a garota, que torna-se sua amante, embora “filha” para os vizinhos.

Como o livro é narrado em primeira pessoa, a gente só conhece o lado da história contado por ele, o que me deixa mais impressionada com a empatia que ele desperta nos homens de uma forma geral, pois eles dizem que, coitado, o rapaz foi tomado por uma paixão incontrolável, irrefreável… tadinho. Homem não tem controle, né. Não são maus, mas pensam com a cabeça de baixo. Coitados.

Já as mulheres, né. Que sórdidas manipuladoras. Lolita tem 12 anos. Doze. Qualquer pessoa normal sabe que se uma menina de 12 anos está lançando “olhares insinuantes” para um adulto, se ela “roça seu seio no antebraço” de alguém, ela está testando e conhecendo uma sexualidade recém-descoberta. Cabe aos adultos responsáveis, saudáveis e decentes agir como tal diante de atitudes assim. Assistam meninamá.com. Tem uma cena em que a garota diz exatamente isso.

Só que macho acha que não. Quinze anos, estuprada por 30 homens, ah ela sabia o que estava fazendo quando foi pra festa com eles; grávida aos 13 anos, e agora que responsabilizar o pai, um pobre garoto de 17 que não conseguiu conter seus hormônios diante de tão sedutora figura? Mas a menina não, na hora de abrir as pernas sabia muito bem o que estava fazendo.

Humbert sabe que é um monstro mas se acha um perverso digno de pena por não conseguir controlar seus instintos. Parece que pedofilia é meio isso, a incapacidade de controlar desejos diante de crianças. Vai entender. Minha questão não é com Humbert ou com Nabokov, por que pra mim o livro NUNCA foi uma história de amor. Lolita é uma personagem que só existe enquanto narrada pelo vilão, o que a objetifica e despersonaliza ainda mais. Ela é um joguete, e todas as vezes em que ele tenta torná-la minimamente responsável pela própria desgraça, fracassa miseravelmente, e fracassa justamente porque Nabokov era muito bom.

A única história de amor real no livro é o relacionamento de Humbert com Anabel, quando ambos tinham 13 anos e estavam passando férias em alguma praia da Europa. Eles dão uns pegas mas nunca conseguem consumar o ato, pois são meio que flagrados no meio do amasso (lembrem-se, anos 1920, mais ou menos). Mas a semente da doença, seja lá como for ela floresça, estava plantada, e o próprio Humbert diz que não teria havido Lolita se não houvesse existido Anabel.

 

 

 

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