Literatura Mulherzinha????

sushi

Chicklit na Irlanda: Mariene Keyes

Conheço pouco do assim chamado mercado literário, embora leia bastante, e gêneros bem variados. Mas apenas recentemente me toquei de que há uma literatura de mulherzinha (odiou o termo? o conceito é bem pior) cuja denominação corrente é chick-lit. Em tese, são histórias que abordam (outra palavra medonha) questões comuns às mulheres, em geral, jovens e modernas. Ou seja, segundo o mainstream: homem, bares, trabalho, homem, amigos, cerveja, homem, compras, arrumar um homem, família, casamento. Ah, e tudo marcado pelo humor, tem que fazer rir e pensar na vida.

Antes de conhecer o termo eu já havia lido os Diários de Bridget Jones (Helen Fielding), Uma vida de bandeja (India Knight), Os trinta anos de Nadine Kite (Lisa Jewell), Melancia, Los Angeles,(ambos de MarieneKeyes),Gente famosa (Claudia Pattison). Esqueci algum? Talvez. Recentemente, andei lendo Sushi. Na boa, acho tudo muito anos 90 (nada contra, é minha década), uma época em que as moças começavam a descobrir os custos emocionais de ser o que queriam ser.

Os livros que eu li de Keyes são divertidos de ler. Não por ser chicklit é um livro ruim. A crueza e acidez de Minha vida de bandeja são acachapantes, Os trinta anos de Nadine Kite lida com questões como estupro e gravidez indesejada, a heroína de Los Angeles rompe mais limites do que esperaríamos. Sushi dá pra divertir mas todos os estereótipos estão lá. Tem a perua das marcas (Lisa), que não é um modelo ideal para ninguém, e na verdade é uma vaca mal-resolvida com um passado muito louco e de quem ninguém gosta; uma jovem insegura (Aishling) que tem uma história complicada por trás do seu toc, e uma imensa dificuldade em se relacionar com o sexo oposto (claro que ela é muito bem recompensada no final); e tem a bem-casada (Clodagh), que é uma amiga de merda que nem está tão feliz assim e, embora casada com um verdadeiro Apolo, só dá uma vez por mês (esta última não chega a ser personagem central, está mais ali no meio para ajudar a contar a história da nem tão amiga assim).

A vaca mal resolvida é uma jornalista (jura?)  inglesa que se vê obrigada a lançar uma nova revista feminina (sério?) em Dublin, cidade que odeia. A mulher insegura também é jornalista (ah, é?) e acaba arrumando um emprego na tal revista. Sua amiga de longa data é a terceira personagem, amiga da onça mal comida pelo marido.

Eu achei o livro muito longo. Desnecessário tantas centenas de páginas pra tanta dor de cotovelo, peruice, chifres, desencontros, bocadas e coquetéis. Mas eu gosto do jeito com que ela escreve, e gostei do passado das duas “heroínas.” Mas na boa. Leia Chá de sumiço, é muito melhor.

Meninas, eu li…

Embora esses livros tenham enredos e questões diferentes entre si, em geral eles possuem premissas e personagens com as quais não só não consigo me identificar como não fazem parte da minha vida. É sério. E quem começar com esse papo de “ah, toda mulher no fundo quer casar e ter filho…” Meu bem, se você começa uma frase com “toda mulher…” é porque você não sabe nada nem de mulher, nem de homem, nem de gente.

Nessas histórias, os 30 anos parecem uma sombra desesperadora para quase todas elas. Sabe aquele papo de relógio biológico? Pois é, nesses livros as mulheres são, num belo dia, jovens de 29 anos, poderosas, com bom emprego, várias festas, e um lindo namorado conquistado ao longo do livro. Dois anos depois, elas são mulheres desesperadas para agarrar um homem qualquer, cansadas dos empregos antes irados, lutando contra o alcoolismo e a obesidade incipientes. Tem mulher assim? Tem sim, senhor. Mas acho que já é muito ruim partir dessa premissa unidimensional, porque vamos lá, a gente já vê isso em todas as comédias de Hollywood. E o pior é a abordagem. Corrobora de forma muito incômoda essa ideia de que uma mulher não existe fora de um relacionamento. Eu acho isso muito estranho. Esse desespero por estar em um relacionamento nos é vendido e empurrado desde cedo, e é claro que faz parte de uma parcela muito significativa de mulheres (e homens também, vá lá). Para que ele funcione bem nos dias de hoje, há que se vender um combo: o sonho do casamento perfeito com o amor perfeito. E é justamente quando estes livros enfatizam a parte do amor (im)perfeito que eles funcionam melhor.

Quando li a apresentação das personagens centrais de Sushi quase parei por ali. Pra começar: mesmo as personagens mais descoladas deste universo possuem uma obsessão muito louca por marcas. Sério, em um destes livros, a personagem não dizia “atendi meu telefone,” dizia “atendi meu Nokia,” “fui obrigada a ir a uma festa com um Forever 21 da estação passada,” coisas assim. Ou eu sou muito pobre ou as jovens jornalistas britânicas (elas quase sempre são jornalistas) ganham mega bem. E se importam com tosquices.

Daí tem a indefectível mocinha que conseguiu encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris, ou seja, casou logo depois da faculdade com um homem gato e endinheirado, teve dois (sim, sempre dois) filhos fofos e encapetados, e mora numa casa sensacional. Mas… está começando a questionar suas escolhas. Sabe como é, passar a vida cuidando de criança e decorando a mansão não deve ser fácil.

E ai tem a moça insegura (em especial, com a própria aparência), que tem dificuldade de encontrar um cara legal, etc. Ela tem problemas de auto-estima, se acha gorda, ou brega, ou com a pele ruim, e dificuldades em “crescer profissionalmente” (whatever that means).

Esse tipo de literatura começou a fazer sucesso entre 1995 e 2000, acho. O que é estranho, porque dos anos 90 lembro das girrrlbands, do Garbage, daquela música Ladykillers, sei lá. Tão pouco mulherzinha. Bom, acho que é pra gente aprender que tudo tem dois lados (ou várias faces).

Mas, bom, é um nicho e tal. Quem sabe eu não escreva um. Tipo, Beber, xingar e trepar. Sei lá, acho que alguém já deve ter escrito esse. É muito piada pronta.

Exemplo de situação que me incomodou demais em Sushi (certamente em outros exemplares de chicklit também): a não-tão-insegura está numa festa e é azarada por um cara por quem ela não se sente atraída; ele passa seu telefone para ela, depois de uma conversa com pouco entusiasmo da parte dela, que vai para casa. Eles se encontram de novo depois, por acaso, em uma festa. Ele não é grosseiro com ela, mas a pressiona: “porque você não me ligou?” E, gente, ela fica sem graça, pensando numa desculpa para dar! Imagina isso. Imagina o contrário, a mocinha que dá seu telefone para o macho reclama que ele não ligou (situação em geral retratada após o sexo). E pergunta o porque!!!!! Como assim, gente. Lição número um: quando uma pessoa quer te ver ela liga; quando ela não liga é porque não quer. O machinho bem caga na cabeça de qualquer uma que faça essa pergunta para ele. Mas no caso das mocinhas, né. Que feio. Seja legal.

Na boa, galera. Vai se fuder. Faz isso não. Você pode ser sincera e educada ao mesmo tempo. Infelizmente os homens vivem em uma sociedade em que eles podem tudo, e nós devemos tudo, então vão naturalmente exigir que a mocinha lhes dê atenção. Já vivi a absurda situação de explicar porque não queria beijar um cara. Isso pode, Arnaldo? Olha, não tô a fim, tá bom? Mas eu vi você beijando meu amigo. Sim, mas dele eu tava a fim. Gente, se tiver um macho pra me explicar essa lógica eu agradeço. Meninas, não. Vocês não são obrigadas a ligar para ninguém, beijar ninguém, trepar com ninguém só porque ele insistiu, ou os amigos ficaram urrando em volta beija, beija, beija, ou pra ele não ficar tristinho. Pára.

É por isso que a gente vai e critica, sim. A mocinha do livro passa por uma situação dessas e nem se questiona. Ela é assim, como um monte de mulheres que são assim. Ah, oh, o livro está tratando da realidade, oh sua feminazi que quer erradicar tudo o que não for feminista. Vamos deixar uma coisa bem clara? Os escritores podem escrever essas coisas (e nem tô dizendo que é na maldade, viu?) a vontade. Os roteiristas e diretores podem enfiar estupros aleatórios em seus filmes e séries para agradar a uma plateia de machos que gosta, sim, de assistir a situações em que a mulher sofre na mão de um homem (ou vocês acham que é a toa que os vídeos reais de homens flagrados espancando e humilhando suas mulheres em público são tão visualizados, curtidos, compartilhados?), situações essas que, no caso de estupros, envolvem corpos desnudos e penetração (me recuso a chamar estupro de sexo, então não chamo cena de estupro de cena de sexo), e outros exemplos mais. Poder, todo o mundo pode, até segunda ordem, não tá nada proibido. Da mesma forma, qualquer pessoa pode e deve problematizar tudo o que é dito e mostrado sempre, em algum momento, por que isso se chama refletir a respeito do mundo que nos cerca. O péssimo é que quem faz isso é tachado de chato, de mimimi, e é mandado cantar em outra freguesia, ninguém é obrigado a assistir, etc. Não, mas eu quero ler, assistir e questionar tudo, entendeu? Acho que a vida é bem legal assim. Senão a gente vira pastel sem imaginação, sem recheio, sem nada, reproduzindo um monte de bobagens.

 

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