Quem teme a morte – Onye e a profecia

MedoMorte

 

Quem teme a morte não é o último livro de Nnedi Okorafor (foi lançado em 2010), mas é o primeiro que li. Certamente não há de ser o último. A autora é americana, mas obviamente muito ligada as suas raízes africanas (nigerianas).

O cenário do livro parece um deserto sem fim. Aos poucos, revela-se que a história se passa em algum futuro mais ou menos distante (a sutileza das referências e a mistura destas com alegorias e mitologias torna difícil imaginar quando, e porque o mundo é daquele jeito), mais árido, menos povoado, menos urbano, e muito mais mágico. A magia, embora um processo extremamente doloroso, complicado e exaustivo, faz parte da vida das pessoas. E as pessoas, ao menos aquelas cujo destino acompanhamos, assemelham-se em muito ao que hoje tomamos por africanos. Vivem em pequenos povoados que me lembraram os descritos por Chimamanda em suas histórias, locomovem-se a pé, de moto ou camelo, possuem dispositivos semelhantes a palmtops, e seguem uma religião baseada no Grande Livro e na deusa suprema Ani.

A história é sobre hierarquias e os ódios que elas semeiam,  baseadas naquilo que nascemos: mulheres ou homens, nurus ou okekes. Os okekes seriam aqueles de pele escura, os nurus seriam os de pele mais clara (fiquei com a impressão de que estavam mais para os árabes do que para nórdicos/ saxões, pois os nurus têm a pele dourada ou caramelo, e os cabelos negros e lisos). Há indivíduos que resultam de relações inter raciais, os ewus. Eles têm a pele e os cabelos mais claros, a pele manchada por sardas e sofrem um sórdido preconceito, pois são percebidos como filhos de estupros (o que na esmagadora maioria dos casos, de fato são).

Okekes e nurus não se misturam, e quando o fazem, os okekes terminam como escravos. São subalternos e devem obedecer aos nurus, pois assim estava escrito no Grande Livro, no qual todos acreditam. Aparentemente, segundo o tal livro, o mundo se tornara árido e os okekes, escravizados, em conseqüência dos erros okekes e do mundo altamente tecnológico que eles construíram. Existem relíquias e resquícios deste mundo altamente tecnológico e artificial criado pelos okekes, que tanto desagradou a deusa suprema Ani e que fez com que esta se voltasse contra eles, punindo-os com uma posição subalterna.

Onye é uma ewu, e é ela quem conta sua história, um percurso em busca de si, seu caminho de descobertas das suas origens e, principalmente, do aprendizado sobre seus poderes e do seu papel na história. Sua mãe fora estuprada por um horrendo mago nuru e partira da aldeia logo em seguida, deixando para trás um povoado queimado e massacrado, e um marido inconformado com uma esposa que havia sido conspurcada.

Eu tendo a resistir a personagens muito poderosas, no fim das contas, parece que estamos lidando com deuses: a moça em questão consegue mudar o tempo em si, o passado, expurgando o ódio do livro-guia de uma sociedade doente. Se isso não é ser deus, o que é?

Mas o livro é encantador, e muito bem escrito, o que sempre faz com que deixemos nossas reservas e preconceitos de lado. Onye é uma criança (e depois, mulher) meio insuportável: irritadiça, ressentida, arrogante, impaciente. Eu acho legal uma protagonista-heroina (ela por fim inicia o desmonte daquela sociedade tão cruel) que tem um monte de defeitos, tanto quantas qualidades. Até porque ela é filha do mago maldito, líder dos nuru, que os guia no caminho da dor, guerra e exploração.

As descrições da Natureza Selvagem (uma dimensão para onde alguns “paranormais” vão em momentos de prática mágica) são muito fortes, não pelo apelo visual, mas pelas impressões espacial e emocional. Me lembra um pouco “visões” de ayahuasca.

O sofrimento e a opressão dos okeke, e o ressentimento em relação aos ewus, são onipresentes; os nurus são sim, os grandes vilões. Mas, como é revelado que os nurus sofriam da influência maléfica do grande mago, e como o companheiro de Onye testemunha a crueldade que os okekes também são capazes de exercer, um possível maniqueísmo da história suaviza-se bastante. É o que eu sempre digo, seres humanos são ruins mesmo, é só dar espaço.

Há muitos traços da cultura africana contemporânea, essa miscelânea que resulta de tantos massacres, do colonialismo europeu e cristão ao expansionismo árabe muçulmano. O Grande Livro nos remete à Bíblia, ou ao Alcorão. A prática disseminada pelo feiticeiro nuru, de estuprar mulheres okeke e nelas fazer filhos ewus, inspira-se na atuação de grupos árabes/ islâmicos na África, afinal quem não conhece a prática do pérfido grupo Boko Haram, de seqüestrar meninas escolares? Ou a rotina de estupros diários de prisioneiras mulheres dos grupos islâmicos em pé de guerra?

E como na vida real, nas páginas também as mulheres pagam em dobro a moeda do sofrimento e da opressão.

Meninas, eu li

O livro é sobre opressão racial e de gênero, ponto. Há pouca sutileza e poucas entrelinhas aí. A cerimônia de circuncisão feminina (nome inadequado, pois o procedimento tem origens, objetivos e conseqüências completamente diversos do seu correspondente masculino) que de fato existe e é praticada até hoje,  é descrita com crueza, em toda a sua crueldade. O procedimento ganha ares de ritual mágico, envolvendo jujus (feitiços, mandingas) para que a mulher só sentisse prazer com seus maridos. Como diz uma das vítimas, que acaba por se tornar a melhor amiga de Onye, “querem que achemos que nossos maridos são deuses”.

Quando conhece a história da própria concepção, ela trava contato com a ideia de sexo como instrumento de violência pela primeira vez. Tem muito machinho que justifica a idéia de estupro culpando os hormônios porque, coitados dos homens. Não passam de feras sem nenhum controle sobre suas ações, só os hormônios falam. Maluco, se eu fosse homem eu ia achar isso super ofensivo. Olha que impressionante, há (e houve) muitas sociedades em que a idéia de forçar uma mulher a fazer sexo é tão estranha quanto a de chupar prego pra ver se vira parafuso. Enfim.

A descoberta do sexo e do seu prazer (alguns anos depois da cerimônia em que perde seu órgão de prazer, ela consegue fazer com que ele cresça novamente, afinal ela é uma feiticeira) faz parte da descoberta dos seus poderes, e seu companheiro Mwita (outro ewu) é uma chave fundamental nessa descoberta e também funciona como alicerce para sua segurança: Onye é muito jovem e impetuosa, e coloca-se constantemente sob riscos com os quais ainda não sabe lidar.

O tal Grande Livro conta uma história que a própria Onye caracteriza como horrível, pois a figura central feminina é pobre, linda e virgem, e morre pobre, linda e virgem apenas para que o macho central da história realize seu destino. Na sociedade patriarcal, mesmo uma “suavizada” como a contemporânea, imaginar uma mulher sem função-feminina é quase impossível. Ela tem que se prestar a alguma coisa bem específica: ser bela, altruísta, mãe. Se não, pra quê? Toda a cultura pop sofre desse mal, e foi por essas e outras que inventaram o teste de Bedchel.

O Grande Livro, fica claro, é um livro de ódio. Não se sabe se nasceu assim ou se se tornou isso, mas esse ódio é o motor de tudo o que dá errado entre nurus e okekes. O livro fala da raiva da deusa Ani, e é esse o detalhe mais estranho da história para mim. Faz tempo que não estudo antropologia, mas o monoteísmo tende a ser masculino, e sociedades cujas deidades centrais são femininas tendem a não expor a mulher a demasiada violência ou opressão.

Mas as coisas mudam. No fim, Onye coloca em movimento uma grande mudança, e um despertar atinge as mulheres daquele reino, e apenas as mulheres, que passam a desenvolver poderes antes reservados aos magos e feiticeiros: conversar com animais, visitar a Natureza Selvagem, falar com os mortos. Eu queria que tivesse uma continuação, mas aparentemente ela escreveu apenas uma prequência (rsrsrsr prequel), explicando como deu ruim geral e as coisas viraram o que são.

rauchbier

Para ler bebendo…

Um mundo destruído, cervejas com um quê de rústico. Sei lá.

Parece que estou comendo lingüiça, ou bacon, ou até feijoada, quando bebo uma rauchbier. Essa cerveja é antiga, dizem que o tom defumado, em priscas eras medievais em terras germânicas, não era incomum, devido aos métodos de secagem do malte. Não sei, só bebo cerveja, não fabrico. É uma cerveja diferentona, escurinha, que remete a churrasco e madeira queimada. Literalmente, uma viagem sensorial. Das que experimentei, de longe a minha favorita é a Schlenkerla Märzen Rauchbier, de Bamberg, cidade aliás de onde o estilo ganhou mundo. Teor alcoólico em torno de 5%, temperatura de serviço em torno de 5 graus.

 

 

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