Tudo o que nunca contei: o silêncio em Celeste Ng

MarthaBatalha

E de novo, nos perguntamos o que leva as pessoas a levarem a cabo idéias que nos causam tanta aversão normalmente – assassinatos, torturas, suicídio. Dentre esses tópicos que nos causam horror, fascínio e perplexidade, talvez o suicídio seja o mais difícil de compreender. A única coisa que de fato temos é nosso corpo e a vida que o anima, como escolher não existir mais?

É complicado falar de suicídio porque podemos facilmente nos tornar levianos, ou condescendentes, ou injustos com quem fica ou quem vai. Ano passado uma série on line chamou muito a atenção (e críticas positivas e negativas) por tratar do suicídio de uma adolescente. Não vi, mas pelos comentários abalisadíssimos que li nas redes, rolou o básico: a menina sofria bullying, não tinha assunto com os pais, etc. Um sofrimento só. A vida de adolescente é um sofrimento só? Não sei, eu pessoalmente achava meio chato mas sabia que era só uma fase. Tudo o que nunca contei, de Celeste Ng, tem um suicídio adolescente no centro da sua narrativa.

Lydia tem 16 anos, é inteligente e boa aluna, filha primogênita de um casal “inter-racial.” Sua mãe é uma americana “típica” e seu pai é filho de imigrantes chineses. Uma bela manhã sua família acorda e percebe que ela não está em casa, sequer passara a noite em seu quarto. Logo seu corpo é descoberto no fundo do lago que marca a paisagem da cidadezinha onde moram, e a partir daí a história dos seus pais e também avós se desenrola, um novelo de expectativas quebradas, racismo, machismo, mesquinharias, amor, tristezas e alegrias, de fazer o que é possível, ou um pouco mais, ou um pouco menos.

A primeira coisa que deveriam ensinar para a gente é que a vida não é lá muito fácil. Não acredito nisso de que a vida é simples e a gente é que complica. Não é, não, a vida é complicada. As relações humanas, pra mim pelo menos, quase impossíveis. Mas em grande medida, porque temos a impressão desde o início que o mundo é justo, é correto, é previsível, que você tem determinadas obrigações (emocionais inclusive) que devem ser cumpridas para o bom andamento de, bem, tudo. Aprender que a vida é mais complicada do que parece (ou devia ser?) paradoxalmente nos tira um peso dos ombros, e aí sim, dá para torná-la mais simples, a partir da percepção de que a única coisa que você deve aos outros é respeito.

Lydia morre em 1977. Seus pais haviam se casado ainda no fim dos anos 1950: James, jovem de carreira universitária promissora, atrai a atenção imediata da bela e loura Marilyn, sua aluna, na aula de história americana (isso mesmo, não a toa, o chinês escolheu falar de cowboys no seu curso). Ela, por sua vez, era uma jovem brilhante que queria ser médica.

Imagine nos anos 1950 uma adolescente que freqüentava aulas de química e física onde era a única mulher da turma: “querida, por que não deixa que eu misture isso para você, pode ser perigoso,” “deixe que eu lavo seu béquer,” “não precisa preocupar sua linda cabecinha com isso, tem certeza de que você quer estudar física?”, “é medicina mesmo que você quer fazer, não prefere ser enfermeira?”. Ela decide ser a melhor, sempre, e desprezar o assédio masculino.

Imagine nos anos 1950 um filho de chineses pobres e analfabetos ousar não apenas terminar seus estudos com brilhantismo como também buscar uma carreira universitária em uma das melhores faculdades dos EUA?

Para tudo tem limite, e Marilyn acaba virando esposa, e James, professor de um colégio no interior. Eles se casam, para desgosto profundo da mãe dela, e decidem começar do zero, deixando para sempre todo o seu passado para trás.

Tudo o que James sempre quis foi se dissolver na sociedade americana, se reconhecer e ser reconhecido, e nunca mais ser visto como um diferente. Marilyn, ciente da quebra de padrões que representava, sempre tentou fugir da mesmice do destino que se impunha às mulheres de então. Esse desencontro profundo acabou escamoteado por anos a fio pelo pacto do recomeço sem passado, que na verdade nunca se mostra possível. Presa entre estas duas correntes, que simplesmente não tomam conhecimento uma da outra, Lydia se sente na obrigação de agradar a ambos: a seu pai, cujo maior desejo é que ela se torne popular e faça muitos amigos, e a sua mãe, que a pressiona incansavelmente para que ela seja sempre a melhor aluna em tudo, futura grande médica da família. No entanto, Lydia é uma moça tímida e traumatizada, incapaz de desenvolver relacionamentos de amizade; sua saída é fingir passar horas ao telefone, e tardes na escola com as amigas inexistentes. Ela é inteligente e boa aluna, mas não é o gênio que sua mãe exige que ela seja; assim, ela pouco a pouco sucumbe ao fracasso que é incapaz de admitir.

O livro não se prende a “explicar” seu suicídio, que como eu disse, é uma tarefa inglória e injusta. Foi culpa da mãe? Foi culpa do pai? Do amigo homossexual por quem ela tinha interesse? Do irmão mais velho, a quem ela era muito apegada mas que está de partida marcada para a universidade? As pessoas são cruéis umas com as outras, são indiferentes umas com as outras, e isso não pode servir de explicação para um suicídio. A responsabilidade pelo suicídio só cabe a quem tira a própria vida. O livro acaba centrando-se em questões familiares, na impossibilidade de se apagar o passado e na necessidade de se trabalhar com ele (ou a despeito dele); no nosso lugar em um mundo tão complexo, cheio de vida e de morte, de dúvidas e certezas desnecessárias; nas nossas identidades, não aquilo que somos, mas aquilo que os outros acham que somos.

A morte de Lydia de início fragmenta completamente a família (ela tem um irmão e uma irmã), mas no fim das contas, é somente com sua morte que eles acabam enxergando-se uns aos outros, e percebendo o enorme abismo que sempre houve entre eles. É a partir desta percepção que eles podem começar a construir suas pontes.

Meninas eu li

Marilyn, a mãe de Lydia e esposa de James, desaparece de casa quando sua filha tem 5 anos (o garoto Nath é um pouco mais velho). Obviamente deixa marido e filhos destroçados, tentando entender o que aconteceu. James, cego para outras realidades, tentando entender onde errou, onde erraram; seus filhos pequenos, culpando a si mesmos por não serem crianças perfeitas.

Não, ela não foi atrás de macho. A verdade é que Marylin, já nos seus 30 anos, cai em si e percebe o que se tornou. Uma pífia tentativa de retornar a algum tipo de atividade acadêmica séria é recebida com ceticismo e condescendência, e ela tenta correr contra o tempo e o destino de esposa e mãe que ela permitira abater-se sobre si aos 20 anos.

Quando ingressara na faculdade, sua mãe lhe dissera: “que bom, você vai conhecer muitos homens lá.” Por que esse era o destino das mulheres, não? Apenas casar e ter filhos. O resto, na melhor das hipóteses, era perfumaria e passatempo. Marilyn entrou na universidade de elite disposta a ser a melhor aluna, e a fazer medicina. Não foi o que aconteceu: ela se encantou pela delicadeza e sensibilidade de James (diferente de todos os machos adolescentes que ela conhecera até então), e acabou engravidando. Bingo. Casamento e vida de dona de casa. Ele, por sua vez, tem seu brilho ofuscado pela sua origem asiática, e uma boa colocação em Harvard lhe é negada. Resta ao jovem casal o interior, a obscuridade, o conforto de uma mesmice sempre arranhada pela estranheza que um casal como eles formavam causava naquela época e naquele lugar.

Sua fuga resulta da percepção de que se tornara algo muito próximo daquilo que sua mãe, professora escolar de economia doméstica, fora e que achava que ela seria. O fracasso de uma tímida tentativa de voltar a trabalhar (a pensar!) a coloca em movimento, deixando para trás seu lar em busca de uma carreira acadêmica. Ela retoma os estudos, se esforça, rala, mas pouco depois, percebe que está novamente grávida, e que seu destino estava definitivamente selado. O seu sim, mas não o da filha, ela pensa. E assim, Lydia torna-se repositória de todas as expectativas da mãe, que começa a enchê-la de livros de anatomia e astronomia, forçando os limites e as vontades da criança em busca de um destino que deveria ter sido o seu.

Essa briga não é a de Lydia. Ela não precisa lutar contra um destino doméstico que a esperava inexoravelmente. Seus obstáculos são outros, é a vida interiorana, é o abandono sofrido que não consegue superar e que transforma sua relação com a mãe em um poço desesperado por atenção e anuência. É a necessidade de não desapontar um pai que se sente permanentemente isolado em uma sociedade branca, e que vê nela e em seus olhos azuis herdados da mãe, a esperança de uma integração impossível.

As diferenças podem ser enriquecedoras, desafiadoras. Mas podem ser extremamente destrutivas, e o esmagamento quase literal de Lydia nos fala de como falar, enxergar, admitir e destrinchar diferenças é fundamental, muito mais do que tentar apagá-las, “aceitá-las,” escamoteá-las.

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Para ler bebendo

A cervejaria Três Mosqueteiros (RJ) fabrica uma cerveja chamada Secreta. A recomendação de hoje é uma Hefe Weissbier, ou seja uma cerveja de trigo não filtrada. Ou seja, uma Weiss ainda mais turva. A Hefe Weissbier é uma alede origem alemã, super carbonatada (lá vem espuma), com baixíssimo amargor, sendo também bem encorpada e de baixo teor alcoólico, entre 4 e 5 por cento em geral. No caso da Secreta, a cerveja acabou ganhando um tom mais cobre por conta da utilização de malte caramelizado.

Seguindo na onda das cervas de trigo, para quem quiser mergulhar nas origens alemãs, vale a linha da Schneider, que tem cristal Weiss, orgânica, Weizendoppelbock, etc. Aventure-se, é a minha preferida na família trigo.

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