Ayahuasca: Não quero convencer ninguém

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Faça uma pesquisa na internet em busca de relatos e depoimentos de quem tomou ayahuasca. Eles se repetem muito, e pra mim isso indica basicamente duas coisas: um, que existe muito em comum entre as experiências; e dois, que as pessoas repetem sem parar o discurso alheio, em especial quanto aos significados de cada experiência com a medicina. Tipo, se o seu dedo mindinho esquerdo dobrou pra trás, sua avó quer se comunicar com você; se o seu cabelo ficou azul, Yemanjá está te dando um esporro; se você vomita lilás, a medicina está te dizendo que você tem que ser mais humilde. Essas coisas.

Esse tipo de atitude é bem típico da era da internet, nem tanto da prática da ayahuasca em si. Mas até porque é uma prática de cunho religioso que mexe com o emocional das pessoas, é dada a guruísmos diletantes. Veja, acho importantíssimo que esta prática se desenvolva em grupo (na esmagadora maioria dos casos) e que haja pessoas mais experientes orientando o caminho. Não dá pra subestimar os efeitos do chá, e pelo menos no início, a presença de outras pessoas que conhecem a medicina melhor do que você traz segurança, sim. Nunca aconteceu comigo, mas há situações em que pode ser necessário que alguém te dê a mão e te assegure, vai passar, respira fundo, vai passar. Conta até dez, conta até cem. Vai passar. Mas a verdade é que é um processo muito íntimo, e ninguém deveria ficar te dizendo o que suas visões/ sentimentos/ experiências significam. No máximo, te ajudar a organizar essa barafunda (ainda se usa essa palavra?) e te passar como as pessoas lidaram com suas próprias viagens.

Eu relutei muito a começar a narrar minhas experiências por achar que os relatos que voam por aí acabam co-criando a experiência de cada um. E principalmente, porque acho que a experiência com a ayahuasca, no que tem de fundamental, seu cerne, é incontável. Intraduzível.

Você pode ter tomado uma ou três vezes e achar que eu estou exagerando. Mas como eu disse, dificilmente você vai saber do que se trata se não tomar algumas vezes em um espaço de tempo relativamente curto. Umas cinco vezes no mesmo ano, talvez? Vai de cada um. Mas algo assim.

Então percebi que os relatos das pessoas se concentram exatamente naquilo que é meio indizível. E achei por bem contar o que cerca esta experiência, aqueles detalhes tão pequenos de nós dois nos quais ninguém parece se interessar muito, mas que considero uma coisa muito mais traduzível.

Dificilmente você vai me ver levantando bandeira. A não ser que alguém demonstre interesse genuíno, aí vou falar sim. Mas vou tentar ter o cuidado de não ficar falando por aí em salvação, elevação, iluminação e blá blá. Isso soa arrogante pra caralho. Quer ver outra coisa que soa arrogante? “Nem todo o mundo é pra ayahuasca.” Tipo, eu, ser superior e cheio de força, dedicado a me elevar e iluminar, consigo, sou feito pra ela; mas você, materialista/ hedonista/ fraco/ apegado ao ego (adoram isso), não está preparado porque fica aí, vomitando, duvidando da Verdade. Cara, ninguém é melhor/ mais forte/ mais legal/ mais evoluido porque toma a medicina. Pela lógica deveria ser assim, pois muitas vezes te ajuda a entender o outro e a amar mais esse mundo, mas não é. Prova de que o efeito duradouro da planta está no seu corpo, nos seus neurônios, nos seus nervos, porque a cura da alma muitas vezes não se consolida, não. Muitas vezes o amor passa, a luz apaga depois da sessão, e a pessoa fica lá, feliz e calma, e cheia de insights poderosos que vai levar pra vida. Mas continua ruim que só ela, chuta o cachorro, bate na mulher, passa a mão nas alunas de 14 anos. Mas assim como eu acho que nem todo o mundo se beneficia da análise freudiana (ou terapia ocupacional ou holística ou bioenergética ou junguiana), nem todo o mundo se realiza praticando esporte em equipe, assim também nem todo o mundo se encontra na ayauhasca. Acho que a maioria sim, até porque, ao contrário das terapias outras, é mais barata (comparativamente falando) e te dá uma autoconfiança muito grande.

Uma vez um palestrante (acho que ele era químico, ou antropólogo, sei lá) falou em um talk da vida que vi no youtube algo assim: a medicina desenvolvida ao longo de milênios na Amazônia diz respeito muito diretamente a um ambiente, a um ecossistema, a uma etnia muito específicos. A gente ainda não tem tanta segurança para lidar com ela no ambiente de hoje, em pessoas não-americanas (americanas=nativos desse continente em que vivemos). Tipo, aquela história de orientais não metabolizarem muito bem o álcool. Ele não quis dizer que era nocivo a saúde (não achei um único estudo que aponte algum perigo para a saúde física ou psíquica de indivíduos saudáveis) mas que as interações ainda estão por ser mapeadas.

Não quero convencer ninguém. Mas pra quem estiver aberto, gosto de conversar sim, porque é muito legal. E muitas questões, ressalvas, implicâncias mesmo que eu tive, são comuns a muitas pessoas, em especial a agnostas e ateus.

Ai, mas eu não acredito em deus. Que bom. Você vai perceber que o universo não precisa de deus nesse sentido humano/ cristão/ monoteísta. O buraco é mais embaixo (mas vem cá: você por acaso tem medo de deixar de ser ateu se tomar o chá? hum). Toda aquela coisa que a gente fala sobre “energias” fica muito mais clara. Pertence a série “não dá para explicar” mas pode crer que não tem muito a ver com teorizações e racionalizações acerca de como nós, humanos, lidamos com as forças inicialmente (sic) inexplicáveis da natureza. Acabei fazendo mais ou menos as pazes com as entidades nomeadas; a “culpa” não é delas se as pessoas precisam de um nome e de um rosto. Jesus era só um cara bem foda, mas também uma “entidade”, uma força sem gênero que passeia por aqui de vez em quando. Claro que os estudos antropológicos sobre a construção social da religião começam a ganhar sentido (o que representa Kali, Yemanjá, Cibele, Jesus), mas a experiência nos leva além. Você simplesmente não precisa de religião, e nem desse deus. Ou antes, tornam-se uma coisa bem diferente.

“Percebi que somos todos uma só espécie, dividindo um mesmo planeta, e é por isso que temos que nos ajudar, para nos salvarmos de nós mesmos, e a nosso planeta, principalmente.” Ai, que óbvio, dã. Não, pequeno gafanhoto, não é. Como eu já disse, racionalizações cotidianas ganham um sentido muito, mas muito diferente quando você chega a elas pela mão da ayahuasca, porque ela te leva por caminhos que são só seus. Por isso, pra quem ta de fora, os praticantes parecem uns bobos nova-era, falando tolices haribô. Só que não. E não é tipo maconha, que você viaja nas questões mais bobas e prosaicas, achando aquilo muito louco e original, e depois que passa, você acha graça. Nada a ver. O que acontece com a ayahuasca é um reencanto, que deita raízes, ganha pernas e sai caminhando pelas suas emoções. Mais uma da série “não dá pra colocar em palavras.”

Ai, mas não gosto daquelas músicas, que falam em verdade, caminho único, firmeza, combate contra trevas, essas coisas, me parece muito dogmático. Não precisa curtir nem se identificar. É só se abrir o suficiente para relaxar e aceitar a existência dessas palavras. Olha aqui uma obviedade pra você: as palavras ganham sentidos diferentes, para diferentes pessoas, em diferentes lugares e momentos. Invente o seu. Existe uma galera que entra numa briga pra valer contra a tristeza, a falta de luz de entidades perdidas, as forças mais destrutivas. Respeite isso, já basta. E olha só que maravilha, ao contrário de homens bomba e senadores evangélicos, eles travam essa batalha única e exclusivamente no astral, ninguém está interessado se o vizinho vai pegar na espada flamejante de Gabriel pra mostrar o caminho da luz pros espíritos sombrios. Ou algo assim, não sou exatamente do ramo. Então, que tal ver as coisas sob outra ótica? Pense na verdade do seu eu, esse eu de quem todos nós sempre nos afastamos ao longo da vida. Pense nessa verdade, pense no apego (ou não) que você tem a ela, pense na essência de si mesmo, no que é importante para você, quando ouvir cantarem sobre a verdade. Pense no seu caminho, que é único embora atravesse prados comunitários e estradas alheias. Pense em combate contra aquilo que te puxa pra trás ou para baixo. Pense, e depois sinta. Se deixe levar. E isso é difícil, porque no fundo, dogmáticos somos nós. Se a gente não explica tudo, nossa que absurdo. Por isso a maioria das pessoas detestou o final de Lost (eu, não, eu me amarrei).

Essas coisas que cito aqui surgiram no meu caminho, em mim mesma ou em outras pessoas com quem converso. São algumas coisas que eu superei, e outras que vejo pessoas citando como obstáculo. E digo, não respondo porque quero convencer ninguém. Digo porque acho uma pena que questões menores afastem pessoas da possibilidade de realizarem uma processo tão rico.

 

 

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