Autran Dourado: entre mortos e sinos

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As imaginações pecaminosas, O risco do bordado, Uma vida em segredo, Os sinos da agonia, Ópera dos mortos. Autran Dourado possuía um talento raro para dar nome aos seus livros. Nomes evocativos, provocativos.

Eu honestamente desconheço o quanto ele é lido hoje em dia. Sei que A barca dos homens e Ópera dos mortos foram traduzidos para diversas línguas, e receberam vários prêmios. Eu li na escola, mas não sei o que a galera lê hoje em dia. Se é que lê.

As imaginações pecaminosas reúnem contos que giram em torno de personagens que partilham tempo e espaço na fictícia cidade interiorana mineira de Duas Pontes dos anos 1920/ 1940 (talvez, ele raramente deixa muito explícito a época em que se passam suas histórias, em geral inferimos pelos hábitos e pelos eventos históricos). Tem sexo (homossexual inclusive), loucura, violência, solidão, preconceito, mesquinharias típicas das cidades pequenas com mentalidade menor ainda. Tem gente que adora idealizar o passado ou as pequenas comunidades, pois acreditam que as coisas eram mais “verdadeiras,” as pessoas eram “melhores”, e tudo era mais “fácil” outrora e algures. É só botar a cabeça pra funcionar 5 minutos que a gente vê que não é nada disso e que o ser humano sempre deu e sempre vai dar um jeito de ser mau e desprezível. As historinhas de Imaginações pecaminosas nos mostram bem esse lado pequeno, limitado, insano das pequenas comunidades de antanho, em que todos se sentem sufocados em seu desejo por sexo (sempre interdito), dinheiro e poder. O risco do bordado gira em torno do mesmo universo, mas o tom é diferente. É o que chamamos de romance de formação, em que acompanhamos a transformação de um garotinho em um jovem adulto. A trajetória é obviamente encantadora, mas cheia de dolorosos percalços…

Autran Dourado, assim como muitos da sua geração de escritores, empenhava um enorme e bem-sucedido esforço no virtuosismo literário, no equilíbrio perfeito entre forma e conteúdo, na utilização do potencial máximo que o idioma permite. Esse virtuosismo reflete-se com mais intensidade nos livros Ópera dos mortos, de 1967 (de longe, o meu favorito) e Sinos da agonia, de 1974.

Sinos da agonia é uma reinvenção, em termos de forma e conteúdo, do mito trágico de Fedra. Ambientado na Vila Rica (atual Ouro Preto) no final do período de exploração do ouro (época da “inconfidência” de Minas), transforma princesas, reis e heróis em donos de garimpo, aristocratas decadentes, herdeiros e pistoleiros. Estão lá a ambição, o sexo, a violência, o medo. Só não tem amor, porque essa história não é sobre amor, é sobre desejo, aparências, vaidades, tudo ao extremo.

Ópera dos mortos é sua obra mais celebrada, incluída pela Unesco na lista de obras mais representativas da literatura universal. O que não é pouca merda. O livro traz de volta a família Honório Cota, que aparece depois em Lucas Procópio, e também pontualmente em outras obras de Dourado. Como em relação a praticamente tudo o que ele escreveu, é preciso tempo para apreciar a leitura deste livro. Tempo e cuidado. Seus temas recorrentes estão lá: perda (de familiares, de status, de dinheiro, de identidade), deslocamento, solidão, ambição, orgulho, preconceito. Rosalina, a última do clã, vive sozinha em um casarão decadente com sua empregada Quiquina, até o aparecimento do vagabundo Juca.

Tudo tem uma razão de ser nos livros de Autran Dourado. Quiquina é muda, Rosalina faz flores de pano, Juca Passarinho tem um olho ruim e a cabeça perturbada por voçorocas. Como Sinos da agonia, o livro foi montado com extremo cuidado, e sua estrutura está lá para evidenciar,  dar força a narrativa e aos simbolismos de tudo o que entra na história.

As histórias de Autran Dourado são tristes, melancólicas, de uma infelicidade muito próxima de nós. Essa capacidade de, em um universo específico, falar das dores de qualquer um, transforma um bom livro em obra prima.

Meninas, eu li

Eu até gosto de Érico Veríssimo, autor gaúcho que escreveu a saga O tempo e o vento. E eu até acho que seres humanos possuem suas limitações espaço-temporais, e a incapacidade de superá-las não tira o brilho daquilo que fazem de bom. Contudo, a forma com que ele naturaliza o machismo, a misoginia e o abuso generalizado contra as mulheres por vezes me incomoda, assim como sua idealização da mulherzinha perfeita, a Clarissa dos seus sonhos.

Digo isso para contrapor a Autran Dourado e a forma com que ele lida com suas personagens femininas que, aliás, são centrais em suas histórias. Não precisa questionar, criticar, expor todo aspecto presente, enraizado no dia a dia do seu tempo e lugar. Eu nunca esperaria que um escritor mineiro (ou gaúcho) nascido nos anos 1920 fosse se preocupar muito com a opressão sofrida pelas mulheres. Não é isso. Mas a sensibilidade de Autran Dourado permitiu que ele tratasse das suas personagens femininas como seres humanos cheios de complexidades, em confronto, subserviência ou silencioso inconformismo diante de uma sociedade que ditava seus caminhos. Ele tem essa capacidade não apenas em relação as mulheres, muito do sofrimento de vários dos seus personagens vem do sentimento de inadequação que sentem diante de um mundo que não os contempla.

Da egocêntrica e ambiciosa Malvina, que é quem toca os Sinos da agonia, à alheia e silenciosa Biela de Uma Vida em Segredo, passando pela solitária e apaixonada Rosalina de Opera dos mortos, suas mulheres possuem caráter próprio e uma trajetória marcada pelo seu tempo. Dizer que são mulheres “fortes” não é verdade. Elas são marcantes porque reais, complexas, para além do seu papel de mulher em uma sociedade machista, embora profundamente marcada por ela. Algumas delas são más, outras são tolas, outras submissas, outras livres e alegres,outras meio insanas. Mas todas elas existem.

 

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Para ler bebendo…

As cervejas dubel, tripel, quadrupel são filhas típicas da escola belga. Não faz minha cabeça mas é um produto típico daquele país, tanto quanto as IPAs são inglesas e as pilsens são tchecas. São cervejas bastante alcoólicas e muito carbonatadas, e para o meu gosto, um tanto adocicadas.

A Wals é uma cervejaria de Minas, possivelmente a mais premiada daquele estado que não acaba nunca. Eles fazem uma das minhas cervejas favoritas, a Petoleum, e especializaram em cerveja com rolha na garrafa. Em 2014, estavam todos os barrigudos do mundo ansiosamente aguardando a cerva vencedora da categoria dubbel no World Beer Cup, uma das competições de cerveja mais concorridas do mundo. Geral achando que ia dar uma belga ou uma americana, no máximo. Eis que a Dubbel da Wals leva o prêmio de melhor dubbel do planeta. A Quadrippel deles ainda leva a prata. Sensacional. Única vez que uma cerveja brasileira leva o ouro em qualquer categoria nessa copa específica. Os rótulos costumavam ser característicos, regionalistas, dando um toque bem Minas aos estilos internacionais. Bem Dourado, que transforma as histórias de Minas em dramas universais.

Bebam em taça e a temperatura de mais ou menos 10 graus Celsius.

 

 

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