Montando a barraca (sem trocadilho)

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Eu não sou especialista em acampar. Tem tempo que não acampo, inclusive, uns 2 anos. Mas acho uma coisa incrível porque  te leva a lugares que não dá pra conhecer de outro jeito. Não curto essa vibe de passar dias e dias sem banheiro, achando lindo cagar no mato e enterrar o cocô. Ou levar o cocô, que aparentemente é o mais correto. Mas estar no meio do mato a noite não tem preço, e falar do céu estrelado é chover no molhado.

Em tudo há vantagens e desvantagens, e como em tudo, o que conta é o somatório final, vale a pena cagar no mato pra ver as estrelas? Ok, mete o pé. Eu já sou meio termo. Camping selvagem para mim não vale por mais do que 2 ou 3 noites, a não ser que haja um propósito específico, por exemplo, atravessar um vale, observar uma sequência de fenômenos estelares, chegar ao monte Roraima.

Como em tudo, são os detalhes que fazem a diferença. Tem a história do banho e do cocô, claro. Isso todo o mundo fala. Mas não falam tanto da sujeirinha que se acumula nos cantos da barraca depois de dias de entra e sai, monta e desmonta, e que é virtualmente impossível de limpar. A luz que incomoda nas horas mais inconvenientes, afinal, não necessariamente você vai querer acordar com o sol nascendo. A impossibilidade de se comprar norfloxacino caso baixe uma infecção urinária. E acidentes acontecem, também, desde os mais óbvios, como a barraca vazar e encharcar em um temporal. Até os mais insólitos, tipo você ficar trancado na propriedade em que está acampando porque não apareceu ninguém para abrir a porteira (ah, vai a pé, diz o filho da puta; 50 km até a cidade mais próxima? E a moto, deixa aonde?). O tédio que desaba sobre você caso o tempo não contribua. A convivência, que muitas vezes não tem nada a ver com o sonho adolescente da fogueira ao luar, violão e cachaça.

Meus pais me levavam para acampar, já falei sobre isso. Com o fim da infância, só voltei a acampar aos 18 anos, na primeira vez em que fui a um lugar que atualmente é um dos meus lugares favoritos no mundo, Visconde de Mauá (a foto é de lá).

Dizem que não existe história de acampamento sem perrengue. Depende do que você chama de perrengue. Para alguns, ficar sem sinal de telefone é perrengue, acho. Mas ó. Minha primeira vez acampando no mundo dos adultos foi perrengue sim.

Só pra começar, minha  amiga V. teve a ideia idiota de me chamar para acampar com ela e com um cara que ela tinha conhecido não sei onde. Um paulista  qualquer que estava de passagem. Eu não sei, acho que ela estava insegura mas queria ficar com ele, embora não o conhecesse direito, e daí resolveu me levar, tipo uma trava de segurança. Ideia idiota, mas eu queria acampar de novo depois de tantos anos e nunca tinha ido a Mauá, então partiu (a gente não falava “partiu” na época, falava “demorou”).

E lá fomos, a ruiva encruada, o paulista comedor, e a vela de sebo aqui. Pra quem não sabe, Mauá é um distrito no estado do Rio, divisa com Minas. Ganhou fama com os hippies dos anos 60 e 70, e até hoje em dia, em especial em Maromba, guarda um pouco (muito pouco) daquele espírito. No início dos anos 1990, guardava bem mais.

Para se chegar lá de ônibus a partir do Rio o jeito mais fácil é ir a Resende e pegar mais outra condução até a vila de Maromba. Hoje em dia isso é tranquilo, mas na época não muito. Os horários eram do tipo vai-quando-pode, se puder. E naquele sábado de carnaval, ninguém pode. Ficamos encalhados no terminal de Resende durante horas de ilusão, e o ônibus não veio. Uma galera, tipo 20 pessoas. De tudo que é canto, do interior de SP, do Rio, de Minas. Derrota. Trevas negras e profundas, e agora fazer o que? Passar o sábado de carnaval nos charmosos bailes de Resende? Mal sabia eu que dentro de pouco tempo era tudo o que eu queria ter feito.

Fez-se a luz e alguém apareceu com um dono de caminhão disposto a nos levar por um preço justo até lá em cima. Acho que esse maluco amaldiçoou todos nós, até a quinta geração, e possivelmente em seu leito de morte (se ele já morreu) fez algum filho jurar vingança. Não tenho ideia do tamanho do arrependimento dele.

Pra quem não sabe, Mauá é tipo Paraty, tem sempre 50% de probabilidade de chuva. E, sabe. O tal caminhão não era fechado, era aberto mesmo. Preciso falar mais nada, né.

Outra coisa que não sei se você sabe, ao contrário de Paraty, Mauá é frio. Bem frio. Inclusive nas noites de verão. Venta. Chove. Um horror. De Resende até lá, 50 quilometros. E, veja. Na época 50 quilômetros  serra acima, na estrada mais minhocada que eu conheço, e ela NÃO TINHA ASFALTO NA ÉPOCA. Tivemos que parar para ir ao banheiro, porque claro que todo o mundo tinha ficado bebendo cerveja no terminal de Resende. Depois o motorista parou pra beber cachaça em Capelinha, porque afinal, puta merda. Que roubada.

A gente chegou muito tarde em Maromba, depois de atolar, afogar, beber, vomitar e sei lá o que mais. Uma vintena de xovens ensopados de chuva fria e ansiosos pelos sonhos de Mauá, porque lá não tinha carnaval, só Raul Seixas, Legião, fogueiras, duendes e afins. Eu sei que demorou muito a viagem, saímos de Resende com luz, e chegamos lá em cima quase meia noite.

Não vou falar, pelo menos não hoje, do quanto Mauá era diferente do que é agora. E do quanto eu lamento isso, de verdade. Outra hora. A história aqui é de camping. Que dessa vez não foi selvagem, ficamos em um lugar a meio caminho do Escorrega, na beira do rio. A cachaça de lá é boa, e na época eu ainda arriscava vinho de garrafão, foi o que segurou, porque fez um frio que eu não esperava. Talvez não tanto frio assim, mas eu não tinha levado nada tão pesado. Muita gente não acredita no frio que faz na serra fluminense. Eu era uma delas. Nunca mais.

Por mim, as coisas fluíram ok com o casal indeciso. Talvez porque eu chegasse na barraca tarde e bêbada todas as noites. Não lembro de nenhum stress, acho que ele possivelmente ficou meio frustrado. Ó, lamento.

Uma coisa chata de camping muito selvagem em lugar muito fim de mundo é o lance da comida. Que no caso não foi problema porque já naquela época, Maromba (e também Maringá, a vila mais abaixo) tinha pontos de abastecimento (botecos, mercearias, um mercadinho). Comíamos o tradicional, macarrão, PF, sandubas. Cerveja. E etc.

Não choveu nos dias em que acampamos. Fazia frio a noite, mas não choveu. Lembro que uma noite um cara mucho loco passou subindo o rio pelas pedras, peladão naquele frio da porra. Tinha muita gente muito louca por lá, cogumelo, trombeteira (nunca vi tanta profusão delas na vida) e sei lá mais o quê. Uns hippies burgueses filhos de pecuarista mineiro que mandava dinheiro pros filhos viverem sua fantasia rebelde no cabresto possível.

Não houve perrengue no resto da viagem, não que eu me lembre, talvez nossa cota já tivesse sido paga em prestação única durante a subida. O motorista, coitado. Até hoje penso nele. Ou neles, acho que ele tinha um acompanhante. Ou talvez não, talvez ele se lembre até hoje da roubada que em se meteu por causa de um bando de pós-adolescentes com fogo no rabo com um sorriso de divertimento nos lábios e carinho no coração. Eu duvido, mas vai que. O mais provável é que esse tipo de incidente fosse até comum, afinal o cara era local.

Eu demorei mais de 15 anos para acampar em Mauá novamente. Voltei lá muitas vezes, mas alugava um quarto, ou uma casa se o grupo era grande, ou ficava em chalezinho ou hotelzinho, se estivesse com namorado. E é um pouco estranho comparar as experiências, por uma série de razões.

Gosto de pensar em mim mesmo como uma pessoa aventureira. E sou. Arrisco o desconhecido, a surpresa, sem elevar demais o risco (não peço carona sozinha na estrada nem que a vaca voe). Eu gostava mais de acampar quando tinha 8, ou 18 anos? Com oito, certamente sim. Era um refúgio. O camping inteiro se transformava em minha casa, e eu me lembro de passar muito tempo ao ar livre sem supervisão de adultos. As vezes sozinha, as vezes com amigos que fazia no momento. Com 18, 20, o acampar se tornou o clássicos dos clichês juvenis: liberdade, diversão, novos amigos… pensando bem, quase como na infância. Com a diferença do sexo, drogas e roquenrol.

Eu vivencio as coisas de forma muito diferente, hoje. Pode parecer estranho para quem convive comigo saber disso, mas eu parei há um bom tempo de buscar outros seres humanos. Eu sei que acampar, e viajar mesmo, quando era mais jovem, tinha a ver com conhecer pessoas diferentes em lugares diferentes. Conhecer suas histórias, e principalmente, pela novidade. Aos poucos as pessoas foram parando de me interessar. Busco mais as obras do passado, nossos rastros e vestígios e principalmente, a natureza.

Espetar as varinhas no chão hoje em dia, pra mim, tem a ver com um encontro comigo e com um mundo em despedaço, uma natureza que mesmo viçosa quando em sorte, sabe que no todo se despede. Tem a ver com o afastamento do outro, ou pelo menos, dos outros que não importam. Tem a ver com cores, cheiros, luzes e altitudes. Com a aventura de si pelo mundo. Com o caminho de flores e lama, e não com a chegada de viola, cachaça e voz de gente.

 

 

 

 

 

 

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