Minha primeira viagem só

IMG_3380

Quando criança meus pais me levavam pra acampar nas férias. Era um outro estilo, uma outra vibe. Íamos de carro com uma barraca gigante, de sala-e-dois-quartos, com varanda e estrutura em ferro. Sério, era sinistro. Fogãozinho duas bocas, colchonete e que tais. Minha mãe era minimalista, então não tinha muita frescura. Mas tinha gente que levava tv (isso na época em q tvs ‘portáteis’ eram um verdadeiro trambolho e ainda precisavam daquela antena bizarra no topo), panela de pressão, tapetes (!), armários portáteis de plástico, vassoura e etc. As estadias eram mais longas, tinha gente que montava a barraca em dezembro e só desmontava depois do carnaval, tipo uma casa de praia de plástico, para frequentar nos fins de semana. Não era o nosso caso, chegamos a ficar vários dias, uma semana no máximo talvez.

Lembro que a noite as barracas que tinham televisão ficavam com um público cativo assistindo novela, jornal, ou qualquer coisa assim, mas principalmente novela. Sim, pessoas, antigamente o envolvimento com as novelas era bem maior, hoje em dia só quem fica em casa preso por causa de novela é… deixa pra lá. Eu passava o dia curtindo o ar livre, a praia, o lago, o rio, as árvores. Não lembro de ninguém no meu pé, e para mim eram dias de quase liberdade e solidão completos, distante de pessoas que perturbavam meu cotidiano.

Daí que acampar sempre foi muito normal pra mim. Quando cresci é que descobri que na verdade o acampar é um ato peculiar, diante do qual muitas pessoas torcem o nariz e, heresia, nunca acamparam. Hoje em dia não existe mais barraca com estrutura de ferro, são aquelas varetas de fibra de vidro, superleves. Muita gente leva seus tablets e notebooks, e não uma TV de alguns quilos.

A primeira vez que eu viajei absolutamente só, eu e eu, e uma barraca, foi acampando em um carnaval em Iriri, no Espírito Santo. Eu tinha 20 anos. Juro por todos os deuses do velho olimpo que eu não me lembro se isso para mim era uma questão: tipo, oh, vou viajar sozinha, que ousadia, ou, que medo. Eu sei que resolvi ir porque uns amigos tinham ido em grupo no ano anterior e tinham curtido muito. Peguei uma barraca e me fui, com indicação de camping e só.

Pra quem não sabe, Iriri é uma cidade no litoral sul do Espírito Santo. Lembro sim, de ficar meio nervosa durante a viagem de ônibus, tipo, será que vou encontrar um lugar para acampar? Eu fui um uns dois dias antes do carnaval justamente para garantir um lugar, nunca se sabe. Lembro que cheguei de manhã bem cedo e fui parar em um camping improvisado em um quintal com dois banheiros externos. A casa em si tinha dois andares, e um deles tinha sido alugado por um barulhento grupo de homens de Niterói e arredores, que tinham um bloco que saía por Iriri.

Eu era jovem, e nunca tinha curtido o carnaval fora de bailes e que tais. O renascimento dos blocos de rua do Rio ainda estava anos distante, mas eu sempre me identifiquei com a festa, desde pequena, e morria de inveja de quem se divertia no carnaval. Assim, pra mim foi maravilhoso passar aqueles dias nas ruelas de Iriri, conhecendo gente de todo tipo, bebendo a hora que quisesse, pulando atrás de bloquinhos. Na época, Iriri era uma cidadezinha mesmo, que se percorria a pé em pouquíssimo tempo.

Eu tenho uma fé profunda na minha sorte. Não que eu soubesse disso na época, mas olhando para trás, para todas as coisas que eu fiz, eu percebo que eu sempre tive muita sorte. Muito mais velha eu me dei conta de que estar sozinha é, sim, uma questão importante para as mulheres. Eu sempre andei de guarda erguida, na esquina de casa ou do outro lado do mundo, mas nunca passei por grandes perrengues por ser mulher. E fiz muita, mas muita coisa, algumas temerárias, mas sempre com os olhos bem abertos. Mas infelizmente também deixei de fazer várias coisas, sim. Tipo, sair caminhando sozinha com uma barraca nas costas pelos campos da Inglaterra. “Ah, mas eu conheço uma mina que viaja pelo Brasil de carona e nunca aconteceu nada com ela.” Lindo, maravilhoso, espero que continue assim. Mas acreditem quando digo, o padrão não é esse. Eu também conheci algumas que literalmente botaram o pé na estrada e saíram caminhando por aí. Duas delas acabaram estupradas, e a outra eu conheci em Portugal já quando havia se libertado da escravidão que o tráfico sexual lhe impusera. Pesado, né. Então, não vale a pena. Dá pra viver um milhão de aventuras sem ser careta, dá pra enlouquecer sem se colocar em (muito) perigo, vai por mim.

A merda dessa história toda é que quando acontece, lá vem o comentário: mas o que essa menina estava fazendo sozinha acampada na praia? Mesmo quando o sentido não é moralista. Sempre perguntam, mas ela não sabe que não é seguro? Essa injustiça de nós, mulheres, estarmos sujeitas a uma enorme gama de violência que nos impede de fazer coisas que para os homens são corriqueiras.

Hoje em dia eu vejo em redes sociais e blogs muita conversa a respeito de mulheres viajando sozinhas, muito blablabla. Desculpe, mas tem muita menina de 22 anos que começou a fazer isso ontem e acha que está entre as primeiras a fazê-lo. Não está, ser humilde é importante. Acho ótimo que tenha mais mulheres nesse caminho, que a gente troque ideia, é um enorme aprendizado. Mas eu tenho noção de que preciso falar com muito cuidado. Como eu disse, eu sempre tive muita sorte. Não posso ser padrão para ninguém. Nunca ninguém batizou meu drinque ou me empurrou para o banheiro dos fundos de uma boate. Conheci todo tipo de gente em muitos lugares, passei por poucas e boas, (sim, sou atraente, caso você ache que isso tem a ver, embora não tenha), mas saí absolutamente ilesa. O assédio nunca foi mais do que verbal e quando físico, apenas insinuado. Minha jornada de viagens solitárias começou há muitos anos, na última década do século passado, antes que a internet e os telefones celulares invadissem nossas vidas. Acredite, era bem mais arriscado. Viajar só era, de fato, viajar só.

Eu era outra pessoa quando fui acampar em Iriri. Não me importei com as histórias que ouvi. Não sei o que teria feito hoje, se teria me afastado, ignorado, se teria me sentido muito mal. A pessoa que eu era anos atrás não se importou. O fato é que eu me lembro de ter ouvido uns caras do tal bloco de Niterói hospedados na casa do camping em que eu estava contando que tinham zoado uma menina (adolescente, pelo que inferi tinha 16 anos) que estava bebendo com eles em algum momento da noite anterior. E em algum momento, ela pediu para usar o banheiro, onde foi encontrada um tempo depois, meio desmaiada. Houve comentários metafóricos mas bastante claros do abuso que ela sofreu. Alguém disse que uma seringa foi encontrada, que ela tinha ido ao banheiro para injetar. Uma coisa horrorosa. Eu? Tinha a postura blasé de quem acha que quem inventa de encher a cara ou usar drogas sabe muito bem onde está se metendo. O que em parte (uns 15%) eu ainda acho. Mas 85% acham que uma adolescente tem o direito de errar sem que um bando de abutres traia sua confiança e façam coisas que ela não toparia se sóbria.

E depois mulher é que é a serpente.

Eu só me diverti. Me encantei. Os outros ainda me interessavam, e observar a festa que humanos são capazes de criar foi incrível. Fiz alguns amigos que duraram algumas estações: lembro de assistir jogos de vôlei na casa da Valéria, na Barra da Tijuca, Rio; fui no casamento da Carla, em BH. Sei que pulei muito ao som dos sambas enredo da Mocidade; que até uns pagodes me animavam. Em um dia de chuva fina (o único) fui visitar a vizinha Piúma, que me pareceu bem desanimada. Lembro que a barraca era só minha, meu refúgio e santuário, minha primeira casa só minha.

De lá pra cá acampei completamente sozinha apenas uma vez (juro). Mas a maior parte das viagens que fiz foi só. Durante os anos de faculdade viajei várias vezes com amigos, especialmente para Mauá (mas também para Ouro Preto, São João Del Rei, Bombinhas) mas sempre havia um pedaço de mim (que se realizou em Iriri) que gritava: deixa esse povo pra trás! Pelo menos, em alguns momentos. Porque muitas vezes é bom não saber o que vai acontecer no momento seguinte. Não planejar. Não negociar. Virar a esquina e entrar no bosque das ilusões. Sem deixar rastros. Sem contar pra ninguém

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s