Rizzoli e Isles e serial killers

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Porque histórias policiais nos fascinam tanto? Descobrir o coronel Mostarda na biblioteca com a faca sempre nos atrai. Gente morta, jóias roubadas, sem pistas, ou poucas pistas.

Não vou entrar no mérito da questão, que vem sendo alvo de teses de doutorado das áreas mais variadas. Mas a questão vive aparecendo na minha cabeça, porque eu mesma curto Christie, Poe, Law and Order e coisas assim. Desde que comprei um Kobo, que mudou a minha vida, descobri gente que escrevia histórias policiais incríveis. Uma delas é Tess Gerritsen. Ela tem, tipo, meu sonho de vida: abandonou a carreira de médica porque lançou uns livros que renderam mais do que davam para viver bem. Virou inclusive série de TV, Rizzoli e Isles, dever estar é rica. Quem sabe. Pra isso preciso começar a escrever em inglês, escrever em português não dá dinheiro.

Jane Rizzoli é uma detetive da polícia de Boston de ascendência italiana (óbvio). Adoro tudo o que se passa em Boston, morei lá na infância, alguns dos dias mais felizes da minha vida. Maura Isles é médica legista, curte muito seu trabalho. Inclusive há vários trechos dos vários livros em que ela discorre sobre como seu trabalho combina com sua personalidade, pouco sociável, retraída, contida. Já Jane é o oposto, temperamental, indomável, impaciente, franca, são opostos inclusive fisicamente. Como personagens de séries literárias que se tornam populares de uma forma pouco previsível, suas idades acabam se prolongando, por assim dizer. Poirot precisou de metade do século XX para passar da casa dos 60 para a dos 70. A personagem dos romances (também policiais) de Patricia Cornwell, Kay Scarpetta, nasceu com 35 anos, por volta de 1990. Não sei nem se chegou aos 50. A idade não fica tão explicita, mas vá lá: ela deveria ter mais de 60, e não dá essa impressão nos livros. No caso de Jane, ela começa com pouco mais de 30, e Maura, com quase 40. Dezessete anos depois, não me parece que a doutora tenha passados dos 45… Enfim.

Mas elas se tornam amigas. A despeito das diferenças, ou por elas. Não li o livro em que isso acontece, mas acho que uma salva a outra, algo assim. Acompanhamos a gravidez de Jane, os primeiros anos da sua filha, a separação tardia dos seus pais, a busca de Maura por suas origens, seus relacionamentos estranhos com figuras estranhas, sua conexão improvável com um enteado postiço, as agressões que ambas sofrem. Elas trabalham para a polícia, afinal, embora Maura não seja exatamente policial. Na maioria das vezes, elas buscam sociopatas, serial killers, na verdade o tipo de criminoso mais raro que há – a maioria dos criminosos de verdade são sujeitos levados pela miséria, ambição ou machismo ao roubo, corrupção, tráfico, estupro. Mas, né. Serial Killer é muito mais divertido.

Sei que as personagens foram parar na telinha, mas não senti absolutamente nenhuma vontade de ver só pelas imagens publicitárias, em que duas beldades altas e magras aparecem assim super sexy e glamorosas. Nunca consegui assistir porque não tenho o TNT séries no meu pacote, mas as resenhas me desestimularam. Maura é taciturna, quase triste, e Jane é meio enfezada, pequena e morena, com uma indomável cabeleira escura. Prefiro elas assim.

Meus livros preferidos são Gélido, Desaparecidas, Clube Mefisto. Mas sério, gosto de todos, curto muito essa dupla. O Predador também é muito legal, mas é meio doido demais, por isso tá no Top 5, e não Top 3.

Meninas, eu li…

Chamar atenção para o fato de as personagens centrais de romances policiais serem mulheres é chover no molhado. O mais legal é que elas fogem dos estereótipos e se constituem em personagens completas, além da superficialidade do seu trabalho, além da suclarose envenenada das histórias românticas e sonhos de família feliz. Elas são tridimensionais, parecem a gente e tem problemas como os nossos. E olha, não são lindas jovenzinhas sedutoras de 22 anos, embora a sexualidade e a presença física delas estejam sim, presentes.

Elas são duas mulheres que passam horas conversando e, pasmem, poucas vezes seu tópico central é homem. OK, falam muito de trabalho, mas falam mais ainda das conseqüências deste para suas vidas, suas personalidades, seus destinos. Falam dos seus medos, do seu passado, das suas discordâncias, e é sempre bom ver personagens femininas que existem em si e em toda a sua glória, desenvolvendo laços poderosos (não sexuais ou românticos) e amizades profundas. Graças aos bons deuses do velho Olimpo, isso vem se tornando bem mais comum na cultura pop. Mas precisamos de mais, moças, mais!

Elas quase sempre investigam casos sórdidos contra mulheres, e isso faz todo o sentido já que a esmagadora maioria dos serial killers tem mulheres como alvo preferencial. Os machinhos vão dizer que eles é que morrem mais (e têm razão, a proporção é assustadoramente desequilibrada). Mas ao passo que as mulheres morrem porque são odiadas por serem mulheres, os homens morrem porque são burros ou escrotos: se metem em brigas, dão uma de valentão, viram bandidos. Só lamento mas a vida é assim.

O livro sobre tráfico de mulheres é daqueles que puta merda, você termina odiando o mundo. Embora a minha sexualidade seja inteiramente hetero, eu tenho dificuldade, hoje em dia, em aceitar os indivíduos homens. Porque a gente pega as estatísticas assustadoras de estupros, assédio e tráfico sexual, sem falar em pedofilia, e percebe que não é questão de “meia dúzia de homens doentes.” Eu comecei a olhar os homens a minha volta e pensar: bom, estatisticamente falando, eu conheço pelo menos 2 homens que estupraram uma mulher, e uns 15 que já as assediaram (eu conheço muita gente). É meio isso, e é pura matemática. Nos últimos anos mudei radicalmente minha opinião sobre prostituição e sobre os homens que fazem uso desse triste mercado. E quando se trata de prostituição forçada, a coisa é ainda mais chocante. Quando é de adolescentes então, sai de baixo. Sei que não preciso me estender, vocês sabem do que eu to falando.

Os livros e as personagens centrais evocam constantemente (mas não unicamente) uma sociedade extremamente perigosa para as mulheres, um mundo em que elas são patologicamente objetificadas e odiadas. Há outros temas também (Última vítima nem chega perto dessa questão, por exemplo) como ambição, loucura, ressentimento…

Esqueçam os estereótipos de mulher distante e fria porque mal amada. Maura Isles tem muitos nós em sua vida, mas não tem nada nos livros que indique que seu sofrimento é por falta de macho na cama. Ou no altar. Ela é uma mulher meio complicada e uma personagem complexa, e se fosse um homem, ninguém questionaria sua solidão e reserva, ao menos nos termos em que questionam uma mulher solitária e retraída.

A família de Jane é insuportável, a mãe é uma babaca, os irmãos e os pais são nojentos – pronto, tai os estereótipos. Os típicos machões católicos italianos. Ninguém merece. Seu marido também é policial, mas ele fica super em segundo plano.  As vítimas aqui, são sempre os vulneráveis, e os crimes, todos eles, tratam de poder e vulnerabilidade, física e especialmente emocional.

Ciocolato

Para ler bebendo…

A Noi Cioccolato é um espetáculo. Não, não é “doce.” Tem chocolate? Opa. Tem lascas de cacau, que é pra acentuar o torrado típico das Russian Imperial Stouts, um estilo que amo muito e é de elevado teor alcoolico (12%). Amarga e encorpada, cai bem com sobremesas de chocolate, tipo brownie (cai sim, experimente só). Mas pode ser com boi morto, também cai bem.

A Noi é uma cervejaria fluminense que curto faz tempo. De uns anos para cá eles começaram a investir em fórmulas mais ousadas, como esta que vos apresento, e que ganhou alguns prêmios bem foda (no Mondial de la Biere, p.ex). Ainda preciso avisar pra não meter no congelador? Temporatura de serviço, uns 8, 10 graus.

 

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