A Primeira Dama do Crime

detetive

Cai o pano (amo esse nome, em inglês também é lindo, Curtain), Cadáver atrás do biombo, A maldição do espelho, Cem gramas de centeio, Cavalo amarelo, Crimes ABC, Treze a mesa, Morte no Nilo, Morte no Expresso Oriente, E não sobrou nenhum, O misterioso caso de Styles… É tanto livro que.

Agatha Christie nasceu na Inglaterra em 1890. Fim do século XIX, ainda jovem nos loucos anos 1920. Demais. A mulher só não vendeu mais do Shakespeare e a Bíblia (mas olha há quanto tempo esses dois estão circulando e fazendo fama…). Bilhões (isso, bilhões) de livros.

Amo. E, engraçado, só passei a amar mais recentemente. Quando criança, adolescente, só gostava. Minha primeira experiência foi com A maldição do espelho, uma edição que meus pais compraram no Carrefour quando eu era criança, assim como A casa do penhasco. Poirot, o detetive aposentado belga, é sua personagem mais famosa, e é o único indivíduo fictício que mereceu um obituário do jornal New York Times. Mas Miss Marple, a protagonista de A maldição… também é bastante notória. Há vários romances que giram em torno de outras personagens, mas esses dois são sem dúvida os mais populares.

Adoro as histórias de Christie não só pela fina ironia, as tramas complicadas e cheias de idas e vindas, a petulância atormentada de Poirot, a pachorra perspicaz de Miss Marple… gosto por serem crônicas de uma época; não, de mais de uma época, e do período de profundas transformações ocorridas ao longo do século XX.

Seu primeiro livro, O Misterioso Caso de Styles, foi publicado em 1920, e muitos dos seus livros mais famosos foram publicados nos 20 anos seguintes, décadas pelas quais eu particularmente sou fascinada. Mas ela publicou até os anos 1970, e dá para perceber como sua geração passou pelo processo. Seus livros são, além de suspense eficiente e elegante, uma crônica de costumes bem apurada e divertida.

Todos possuem segredos, assim na terra como nos livros, e esses segredos nos conduzem através das possibilidades da história. O chato é que em muitos livros, a gente só fica sabendo de uma parte fundamental da vida das personagens bem no finzinho, quando o detetive revela toda a trama. A clássica fórmula Coronel Mostarda na biblioteca com o candelabro muito deve a Agatha Christie.

As vezes Poirot é contratado para resolver alguma bomba que a polícia local não consegue. Outras, ele ou Miss Marple (ou Tommy e Tuppence, um casal de detetives amadores) acabam envolvidos em tramas de assassinatos enquanto estão de férias, viajando, em uma casa de praia, trem, enquanto assam um bolo ou festejam o Natal.

Sua escrita, de fato, é pontuada por grosseiras generalizações étnicas/ nacionais, como aliás, era extremamente comum na Europa do início do século XX. Tem um livro originalmente chamado Dez negrinhos  (Ten little niggers), atualmente publicado como E não sobrou nenhum (é seu livro mais vendido). Este traço praticamente desapareceu em suas obras posteriores a Segunda Guerra.

Se Sherlock inventou a polícia tipo CSI, Poirot inventou o detetive tipo Criminal Minds. Se um vê as evidências, o outro compreende os humanos que as deixam… Talvez algumas coisas pareçam fora de moda, mas pra qualquer pessoa que tenha pelo menos um leve interesse em thriller vai se divertir.

Meninas, eu li

Há muitas personagens femininas nas histórias de Christie. Elas são vítimas mas também assassinas. Matam por amor, matam por ambição. E é muito engraçado que, ao contrário de Clarice Lispector, Christie sacaneia muito os estereótipos femininos. “Mulheres são assim, são assado,” não apenas os homens comentam, mas ela também deixa escapar umas assim, não sei se por ironia ou autodesprezo introjetado. E o mais engraçado é que muitas vezes, as personagens femininas desmentem descaradamente tais estereótipos…

Além disso, há Miss Marple e também Tuppance. Elas são heroínas, cada um em seu estilo, capazes de desvendar com sua “intuição feminina” (rá rá rá, é puro raciocínio e perspicácia), mistérios que embaralharam o cérebro de detetives experiente. Miss Marple então, é demais: uma senhora senhorinha, que gosta de tricotar e assar bolos, comendo pelas beiradas e deixando todo o mundo de cara. Ela foi minha ídola durante um tempo quando eu era criança.

De velha alienada ela não tem nada, embora seja seguidamente subestimada pelas pessoas em torno.

Acho legal que a maioria das mulheres-vítimas (tenho a impressão, embora não a certeza, de que a maioria das vítimas é mulher) não é vítima de feminicídio, mas de tramas sórdidas por vingança ou interesse tramadas pelos que a cercam. O dinheiro move o mundo, até mais do que as paixões…

A própria Agatha Christie, escritora, escritora de livros policiais, e a maior das Best Sellers ainda por cima, é uma figura fundamental nessa trajetória das mulheres em busca de espaço e de igualdade. Seu primeiro marido a deixa por uma novinha quando ela estava com uns 36 anos, mas logo depois (ah-há) ela se casa com um jovem arqueólogo (que tudo!) 14 anos mais jovem. Isso tudo antes de 1930.

 

Goldenpride

Para ler bebendo…

Os livros de Agatha Christie podem se passar em uma mansão no sul da Inglaterra, em um hotel a beira mar, a bordo de um trem ou navio, e em lugares exóticos onde o colonialismo britânico deitara raízes e a arqueologia, também: Bagda, Cairo, Istambul…

Seus personagens, com raras exceções, bebem gim, vinho, vermute, uisque. Eu bebo a IPA Meantime, estilo e marca ingleses. Garrafa com cara de vintage, uma verdadeira homenagem ao colonialismo britânico que criou este estilo de cerveja. A Spitfire seria uma opção temática, pois foi criada em 1990 para celebrar os 50 anos da heroica força aérea inglesa, que em 1940 brigava praticamente sozinha contra o nazismo (Spitfire é como chamavam os aviões da RAF). A tematica da guerra é recorrente em Christie, óbvio, já que ela viveu toda a sua vida adulta até a meia idade sob o signo da guerra. Espiões e militares são recorrentes em seus livros, assim como o medo muito presente de mais um conflito armado. A Spitfire é uma ótima opção de English pale Ale.

Tem também um rótulo sensacional da sensacional e tradicionalíssima cervejaria Fueller’s: a Golden Pride é uma Barley Wine aconchegante (isso), intensa e duradoura. O estilo é invernal, e não muito popular por aqui, e seu teor alcoolico chega a 8.5%.

 

 

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