Passando mal com ayahuasca

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As vezes as pessoas passam mal quando tomam ayahuasca. As vezes não é legal mesmo. Pode ser físico, emocional, ou os dois (ou espiritual também).

Todo o mundo fala dos enjôos e vômitos, e também diarréias. Tem um monte de explicações. Espirituais, emocionais, físicas. Atualmente to tentando não elaborar mais em cima disso. Tem gente que passa anos tomando e nunca passou mal, e se acha muito evoluído por isso – uma das coisas que a galera diz é que você “não está preparado para a revelação” e por isso passa mal. Mas tem gente que passa mal apesar de tomar há tempos. Pode ser que existam traumas dos quais você não lembra e que afloram, ou tentam aflorar, e nesse momento a pessoa passa mal. Podem ser mágoas esquecidas mas não superadas. Pode ser alguma culpa. Ou uma história de uma vida passada.

Pode ser o efeito dos elementos químicos trabalhando nas suas mucosas digestivas, não tem gente que passa mal com lactose, glúten?

A coisa varia de grau e suas manifestações também variam de natureza. Pra mim vomitar (ou cagar) nunca foi o problema, mas a tempestade sensorial que vinha junto, sim. Sinto cheiros fortíssimos, muito frio, o mundo gira, perco a força no corpo, parece que se eu fechar os olhos vou cair e morrer. Fiquei muito irritada uma vez, e só foi pior. Porque é frustrante. Agora, cada um tira disso a lição que quiser.

Os devotos gostam de dizer que é a planta ensinando alguma coisa. Eu acho que a ayahuasca é uma mensageira de outra dimensão mas tenho dificuldade em enxergá-la com esse paternalismo professoral que as pessoas lhe imputam, talvez porque eu implique com escolas, seitas e hierarquias. É bonito chamar a planta de professora porque é um aprendizado, mas nada mais equivocado do que associá-la a uma escola.

Pode ser que esse aspecto professoral tenha importância porque em geral as pessoas não são nada humildes, e a medicina é tipo um grande pedala, porque você vê/ sente/ percebe coisas inéditas e fica meio de cara mesmo. Pasmo. Com vergonha da sua pretensão. Aquela coisa toda do tamanho do Universo e etc (da série Não dá pra explicar). Mas, enfim.

Teve um tempo que fiquei pensando muito em porque passava tão mal (sério, em umas duas sessões, eu me senti desconfortável o tempo todo, não foi legal, e não rolou nenhuma iluminação ou revelação, tipo oh, como fui tola, ou, oh, como sofri e fiz de conta que não). Durante as sessões, como me foi dito, eu perguntava porque eu estava passando mal, e tive várias certezas, mas nenhuma delas me impediu de continuar me sentindo muitíssimo mal. Entre as sessões, idem, váááárias coisas me vieram. Coisas dessa vida, coisas de vidas passadas, enfim. Essa inquisição interna faz parte do processo, da terapia que a ayahuasca opera na gente. Com ela, aprendemos a transformar experiências que poderiam se tornar traumas em puro aprendizado.

Depois da terceira vez em que a sessão pra mim foi muito ruim, eu meio que joguei a toalha. Disse pra mim mesma que se a seguinte fosse uma bosta eu ia parar de tomar durante um tempo (eu estava tomando a cada 15 dias, mais ou menos), tipo uns 2 meses ou 3. A sessão seguinte foi Ok, tive uns momentos difíceis, mas a força chegou mais suave (acho que comecei a tomar meio despacho no segundo e terceiros). E tive alguns momentos muito bons. Nenhum Titanic me abalroou no mar ártico.

Depois disso fui atropelada pelo barco de novo, mas (não sei se por mim, pelo astral, ou pela medicina) consegui ficar a tona, voltei relativamente rápido e a sessão quase toda foi muito boa.

No fundo, esses efeitos são fruto de uma conjunção de fatores pouco controláveis, eu penso, e talvez essa falta de controle e previsibilidade seja um ensinamento em si. Como todo ensinamento da ayahuasca, um ensinamento por experiência das mais radicais. Alguns (de fora) argumentam que é na busca pela “questão” pendente que te faz passar mal que o sujeito acaba refletindo e sentindo aflorar uma série de emoções represadas, não é a planta que ensina com suas mirações.

Mas gente, não é isso que to dizendo o tempo inteiro, que não é uma aula de faculdade, mas um caminho de aprendizado em que você constrói sua verdade através de uma magia  ancestral, mas ainda assim, imanente? Achou que a ayahuasca fosse aparecer de uniforme anos 1960 e palmatória na mão, te dizendo coisas que você deveria engolir?

O fato de uma pessoa passar mal fisicamente não quer dizer necessariamente que ela tem mais coisas ruins dentro dela, ou que ela é mais fraca, ou mais perdida, ou sei lá o que. Duvido. Um monte vai discordar de mim (até porque aposto que tem gente muito apegada a seu status de eu-nunca-passo-mal, ou, eu já-passei-mal-e-evoluí) mas como eu já disse, eu leio pra caramba sobre o assunto, inclusive artigos científicos. E já mencionei o estudo sobre a medicina como parte de um contexto ecológico e étnico muito específico, não? Claro, tem a parte que, sim, você pode passar mal por questões emocionais aí, ou porque está se habituando, aprendendo a lidar com o processo da ayahuasca.

Isso se o problema é só físico, tipo vomitar, ter diarréia, tonturas, muito frio ou muito calor (isso é comum, o cérebro fica confuso com sinais térmicos), explosões sensórias em geral. Entretanto, essas explosões sensoriais muitas vezes ganham uma cara que expressa o horror que há dentro de quem está passando por aquilo. Os monstros que você vê são aqueles que você cria no dia a dia.

Uma das coisas que me incomoda (mesmo quando eu não passo mal) é uma sensação estranha no nariz, como se eu tivesse aspirado água ou vômito (mesmo sem ter vomitado). Isso pode ser manifestação de algum afogamento pelo qual eu tenha passado. Outras pessoas podem ter visões perturbadoras – isso nunca aconteceu comigo, não eram as visões perturbadoras exatamente o que me faziam passar mal, embora as vezes acabassem se manifestando também. Para mim, o estado de confusão mental, com imagens aleatórias (e em geral, meio tolas e sem sentido) se sucedendo ininterruptamente, era o mais perturbador, como se fosse um acesso de hipnagogia (é, eu tenho essa merda, e não vejo graça nenhuma) sem a revelação que usualmente a acompanha.

Não tenho muito a dizer ainda sobre sofrimentos emocionais profundos, ou pensamentos/ visões perturbadoras aflorando em meio as cerimônias com ayahuasca. Já vi coisas perturbadoras mas isso não me deixou em muito desconforto. Acho. Também já fiquei muito comovida, muito emocionada, mas isso não me incomoda, acho lindo.

E tem aquilo também. Uma coisa que se chama fé. E que não tem nada a ver com a estupidez cega de quem se entrega a uma seita ou uma igreja, abrindo mão de si e dos seus pertences, ou da ignorância atroz que leva pessoas a se explodirem em ruas e edifícios públicos. Eu sempre acreditei que valia a pena, que ia voltar a ser bom demais, ou que talvez eu estivesse sofrendo porque a ayahuasca estava se mostrando em pleno poder. Depois pensei que eu tinha uma missão nos rituais, e para isso eu devia saber exatamente aquilo pelo que algumas pessoas passam. Saber o que é sofrimento, e o que é muito sofrimento, pois como eu já disse, uma vez eu estava na merda e só pensava: nossa, como tudo pode ser pior. Pior seria se eu estivesse fazendo quimioterapia. Isso sim é peia. Isso sim, é sofrimento. O resto, uma lição mais árida.

 

 

 

 

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