Trabalho, medicina…

IMG_5856.JPG

Trabalho e medicina

As pessoas chamam ayahuasca de planta professora. Porque ensina mesmo. E de medicina, porque é remédio mesmo.

Há todo um palavreado em torno da prática da ayahuasca que sempre me incomodou. Em alguns grupos tem uma coisa bem de seita e guru, não é pra mim, não precisa ser pra ninguém – só pra quem quer ou precisa. Uma vez me contaram que uma moça tinha ido comentar com o mestre de cerimônia, ao fim de uma sessão, o quanto tinha sido bom e o quanto ela tinha aprendido. Arrogante, ele perguntou: e a que mestre você tem que agradecer? Ela respondeu, a medicina. Ele ficou puto, deu as costas e se foi. Mas é aquilo, em qualquer canto a gente vê esses babacas. A arrogância sempre dá um jeito de cavar seu caminho até a ribalta.

Medicina, planta professora, trabalho, peia, verdade, ego, luz (inclusive já conheci muita gente da “luz” que de iluminada não tinha nada, defendia linchamento e o escambau), sempre me causaram estranhamento. Peia, inclusive, me recuso a usar até hoje. Aliás foi a medicina que me ensinou a não usar. Ego, não sei de que ego falam. Ego freudiano? Bom. E porque esse ódio ao ego, me dá muito a impressão que ficam se repetindo, sem entender bem do que estão falando. Ego como prazeres da carne, ego como egoísmo, já vi um monte de significados pro ego, coitado. Este deve sofrer de crise de identidade, de tanto que o descrevem mal.

Trabalho traz junto duas idéias: o trabalho pra si e o trabalho pro astral. Tem muito de umbanda e espiritismo em todas as correntes da ayahuasca, e essa galera trabalha para ajudar o equilibro do mundo espiritual, para que os espíritos das sombras encontrem a luz, coisas assim. Isso é um trabalho. Um trabalhão, aliás.

O trabalho pra si é de outra ordem. Você acha que vai tomar ayahuasca e tudo vai ser lindo, pessegueiros carregados pelo caminho, riachos gorgolejantes, 72 virgens de branco e a explicação para tudo o que existe?

Uma das razões pelas quais as pessoas tomam ayahuasca apesar de ser amargo e apesar de as vezes ser um processo muito difícil é porque no final das contas, elas aprendem muito a respeito de si e de como se colocam no mundo. A partir daí, dessa compreensão, as possibilidades de mudança e realização se multiplicam. Você percebe coisas que não percebia, com muita concretude.

Mas dá trabalho, mudar dá trabalho, aprender dá trabalho. Não vai rolar ficar sentada esperando a luz baixar. Você pode até ter uma viagem incrível, mas o melhor da medicina é o tempo que traz, se você quiser aprender. É você quem constrói, o chá só te mostra o caminho (e dá um pedal nos seus neurônios). E dá uma varrida básica no chão. É um processo, é trabalhoso, é cansativo, mas é muito denso, rico, pacificador.

Eu comparo muito com terapias da psicanálise, psicoterapias. A pessoa passa umas horas ouvindo uma música que em geral ajuda ou a relaxar ou a entrar em transe, toma um chá que faz sua sensibilidade aflorar incrivelmente, tende a tornar sua racionalidade mais elástica, se abrindo para outros padrões de pensamento, e tudo isso cria um fluxo de imagens, lembranças e energias (sim, nova era, energias) que muito contribui para que as suas conclusões, insights, sentimentos, percepções tenham fundamentos muito profundos. Uma coisa é você acordar e dizer para si: nossa, eu tenho saúde, amigos, família e um bom emprego, não posso reclamar da vida, as coisas estão difíceis mas eu sou grata pelo que sou. Acho lindo, inclusive faço, ajuda a dar um ânimo. Mas isso é uma coisa, e a outra, MUITO diferente, é esse pensamento te ocorrer em meio a uma viagem de ayahuasca. É um pensamento-sentimento, e uma das muitas coisas que não dá pra ser explicada sobre o chá. Sem falar em padrões de pensamento negativo que afloram, lembranças e traumas que são literalmente vomitados no banheiro, etc.

Por isso é medicina. E aliás, acredito piamente que o gosto muito amargo da medicina é porque ela é um remédio mesmo, etapas ruins fazem parte do caminho, coisas assim. O processo que ocorre durante uma sessão de ayauashca é uma metáfora da vida, talvez até uma hipérbole… Muitas coisas passam pela sua cabeça e corpo em um curto espaço de tempo, coisas que passamos nessa vida em outro ritmo e intensidade. O gosto de remédio nos lembra que não devemos dar as costas sempre para aquilo que se apresenta como superficialmente incômodo, e que para chegarmos às melhores coisas às vezes (apenas às vezes) precisamos encarar um gosto amargo e momentos difíceis…

Peia, porque peia, o que peia? Af, uma coisa que eu não guentava era ouvir povo falando das suas peias, com aquele orgulho/ soberba típico de quem se acha agraciado. Quer saber o que é peia? É sofrer de câncer e ter que fazer quimioterapia; é passar fome com 4 filhos e ver os 4 morrendo aos poucos; é estar preso injustamente, sendo estuprado todos os dias pelo chefão da cadeia, que possivelmente é HIV positivo. Isso é peia. O resto é uma aula mais chata, por mais difícil que seja. E foi nisso que eu pensei uma vez, na minha pior experiência, o mundo girando ao meu redor, quase na EQM, tudo se esvaindo de mim. Isso vai passar, pensei. É só o chá passando. Peia seria se eu estivesse fazendo uma sessão de quimio.

Sei também que a agonia física pode ser uma forma de manifestação de energias que estão tentando passar por você, pode ser um despertar, uma reação a algo que rola no astral, uma memória tentando aflorar. Pode ser também resultado do encontro de duas entidades biológicas (seu corpo e a planta) portentosas. Pouco se fala nisso, em geral dá-se ênfase ao fato de à “peia” (afff) ser “necessária” espiritualmente, você vai aprender coisas e ó. Tá. Mas acredito que respeitar essas duas entidades biológicas e ter a percepção da sua força também é importante. O lance é que as pessoas em geral prestam muito mais atenção no emocional/ espiritual quando tomam ayauashca (e é pra ser assim mesmo, lógico) e esquecem da existência material do seu corpo nesta dimensão, e das suas reações a outras entidades biológicas. Sou expert? Não, mas tenho lido um monte, e visto e ouvido também. Mas. Cada um sabe de si.

Eu sei que isso de peia vem de outras histórias, de velhos padrinhos e caboclos iniciados. Tudo bem. Mas branco é foda, quando não caga o pau no começo, caga no fim. O tom de voz dos mocinhos quando falam das experiências difíceis (nossa, a peia), o sorriso escarninho e o ar superior me incomodam demais. Gente que nunca pagou pau na vida (povo mimado mesmo, que nunca sofreu nem se fudeu) começa a se achar muito sábia porque pagou peia pro chá. Ah vai. Falta muita humildade nas pessoas. Sofrósina, galera. Sofrósina.

 

 

 

Um comentário

  1. Muito bom seu texto. Eu tenho ouvido muito sobre a planta, de umas lendas que só toma quem está preparado, ou quem ela chama…não sei se ir a um culto e beber vai ter a mesma eficácia medicinal ou transcendental como também já ouvi falar… mesmo assim deixo o tempo pra me levar, essa minha curiosidade com a ayauashca… Obrigado por compartilhar, valeu! =)

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s