A Garota no Trem: Paula Hawkings

Garotas

[SPOILER ALERT]

Veja só. Veja o que você me obrigou a fazer.

Rachel tem trinta e poucos anos (pra mim, a melhor idade do mundo; mas não pra ela). Mora de favor em uma cidadezinha satélite de Londres, na casa da colega de faculdade Cathy. Perdeu o emprego. Está divorciada há 2 anos. Sua vida encontra-se em pedaços, o que se reflete com clareza em seus hábitos, sua aparência, seu alcoolismo.

Rachel é a narradora central de A garota do trem, livro de Paula Hawkins que virou filme recentemente com Emily Blunt. O livro, narrado em dois tempos, é contado por três vozes femininas em primeira pessoa, mas fica claro desde o início que é Rachel quem comanda o deprimente show.  As outras duas são Anna, a atual esposa do seu ex-marido Tom, e a metade feminina de um casal a respeito de quem Rachel constantemente fantasia, Megan, esposa de Scott.

O livro é um thriller policial, e funciona muito bem como tal, apesar de uma inconsistência nada sutil na narrativa de Megan, que fica bastante clara ao final do livro, quando tudo se esclarece. Mas funciona melhor ainda na trama o drama pessoal das personagens, construindo aos poucos três cenários diversos para a mesma história.

Megan ainda não tem 30 anos. Seu obscuro passado revela-se aos poucos, ao longo da história, assim como sua personalidade, exuberante, demasiadamente carente de atenção, traumatizada, alegre. Tudo isso. Ela não trabalha, pois a galeria de arte em que trabalhava antes encontra-se fechada. Tem planos para o futuro, e uma história de infidelidades conjugais, que se repetem durante o romance.

Anna é uma escrota. E isso não tem muito a ver com o fato de ela ter tido um caso com um homem casado, que subsequentemente se separa da esposa (Rachel). Embora nesse episódio da separação, ela tenha se comportado de uma forma bem mau caráter, e bem… tola. Anna é, de fato, uma mulher tola. É mais uma desesperada pela atenção e companhia de um homem salvador.  É mãe em tempo integral, tem uma bebê que é fonte de grande desespero para Rachel. Mas no fundo, tudo o que ela “tem” é de segunda mão, e conseqüência de uma docilidade que Rachel perdera (muito, aliás, em função do álcool).

E há Rachel. As partes narradas por ela (acho que a maior parte do livro) são angustiantes. O alcoolismo dela é angustiante, suas freqüentes (semanais, no mínimo) amnésias assustadoras, e suas ressacas, deprimentes. Paula H. conta isso muito bem, viu, e não à toa o envolvimento maior do leitor acaba sendo com Rachel. Ela idealiza Tom, crê em tudo o que ele lhe diz, anseia por migalhas da sua atenção (mesmo quando ele já está casado com Anna); percebe a dor imensa que o divórcio lhe causou e deixa-se abater por ela, entrega-se ao alcoolismo, a inanição, ao descontrole; mas não deixa de achá-lo o homem mais incrível do mundo. Sua vida é tão vazia que ela fantasia acerca de um jovem casal que lhe é desconhecido, mas que vê todos os dias do trem que pega para ir e voltar de Londres. Sua indignação quando vê que Megan está traindo o marido é um claro reflexo da sua raiva diante da traição que ela mesma sofrera. Como um ser humano pode voltar suas atenções para uma outra pessoa, sendo que já tem em sua vida um alguém que lhe dedica tanto amor? É, pica pau, a vida é dura, e amar alguém nem de longe basta para que sejamos amados por esse alguém. Rachel não enxerga isso, e se torna um ser humano patético.

Megan se aproxima não de um, mas de dois outros homens, sendo que um deles a assassina. Rachel inadvertidamente testemunha algo que pode levar a solução do caso, mas como ela estava fora de si de tão bêbada, não consegue lembrar. Pior: na tentativa de ajudar a polícia e o marido de Megan, o suspeito óbvio, ela se enrola e perde completamente qualquer credibilidade que pudesse ter, deixando Scott (o viúvo) ainda mais puto.

O drama vivido pelas personagens, em especial Rachel e Megan, vale tanto a pena quanto a trama de suspense em si. São personagens complexas, com trajetórias marcadas pelo abuso, e pelo sentimento de não valerem a pena.

Meninas, eu li

A primeira vista, as três moças não apenas não têm nada a ver uma com a outra como parecem ter comportamentos e escolhas completamente opostos. Parecem inclusive rivais (no caso de Anna e Rachel, há motivos claros para tal). Mas elas todas possuem traumas que as aproximam demais, todas foram vítimas de manipulação descarada por parte de homens em quem confiavam, sem nem perceber isso. E todas sentiam que suas vidas careciam de sentido sempre que não havia um homem a deseja-las, a tomar conta delas, a quem amassem. Rachel inclusive fala com todas as letras, que uma mulher que não tem filhos e não tem boa aparência não tem valor para a sociedade. E fico pensando que por mais que esse seja um discurso disseminado (da propaganda aos tribunais), porque tantas de nós (embora ainda minoria, talvez) simplesmente não se sentem assim? As vezes penso que devíamos ter mais livros de mulheres que não se sentem assim, certamente há de ser uma história megatudo, mulheres solteiras de 36 anos que se divertem, estudam, conhecem o mundo, se tornam budistas na Índia ou descobrem-se pintoras no Canadá. Sei lá.

Mas, Garota do Trem. Elas fazem tudo por eles, a vida de casada lhes parece um paraíso em terra. Em especial no que diz respeito a Anna, a tola, egocêntrica, mesquinha Anna. Transmutam-se em outra coisa para vê-los felizes. Aceitam seu ciúme como parte de quem são, que devem aceitar.

Por que nós estamos sempre querendo proteger, resguardar os homens das coisas? Isso dá a eles um enorme poder potencial de manipulação. E uma das formas mais cruéis de manipulação é quando o sujeito duvida de você e faz com que você mesma duvide de você. Mas vai lá, você, duvidar do machinho, pra ver como ele não reage como se aquilo fosse uma ofensa pessoal. Rachel por pouco não perde a sanidade por conta do que seu marido faz com ela, aproveitando-se dos seus porres. É ele quem diz a ela, “olha o que me obrigou a fazer.” Por que homem nunca admite a merda que faz, ele é sempre empurrado para a merda por uma mulher maluca, ou neurótica, ou chata, ou frígida, ou feia. Nunca são escolhas deles. Coitados.

Sim, é uma questão de poder. Não é pessoal, é como as pessoas em sua grande maioria internalizam como os relacionamentos se dão. Por isso é importante sim, ser a chata da parada e problematizar tudo. É uma tarefa que pouquíssimas pessoas se dispõem a fazer, mas é necessária sim. Não é chatice. É a busca por um mundo em que os relacionamentos podem ser melhores.

O fato de terem sofrido abuso não justifica todas as suas atitudes, embora façam parte do cenário mais amplo. Compreender nossas ações não necessariamente significa justificar, e quando Rachel bebe tanto que fode com o apartamento da amiga, quando Megan se esfrega e literalmente agarra seu terapeuta, quando Anna dá uma de puta sem a menor sororidade para forçar uma separação que já estava a caminho, moralismos a parte, a gente balança a cabeça, e pensa: nossa, desnecessário, isso. Talvez a raiz de todos esses comportamentos esteja de fato nos abusos, vai saber. Mas não nos impede de perceber que nessas situações específicas elas não apenas não são as vítimas como aliás, acabam “vitimando” as pessoas a sua volta.

Os homens em sua maioria não são os sociopatas que o vilão dessa história é. Mas a trama tem incorporados episódios de abuso emocional e do típico posicionamento superior que o homem acostumou a encarar como seu lugar de direito, tanto que quando ele é questionado quanto a esse lugar, tende a inverter a situação desavergonhadamente, acusando a mulher de manipuladora, chata, reclamona e tal. Isso é Gaslighting. Dá um Google. E se a gente não faz o que eles querem, é porque tem algo errado conosco. E se não tem um homem na nossa vida, coitada.

Tem uma hora em que Scott pergunta a respeito de uma amiga da esposa. Tem namorado? Não. Namorada? Acho que não. Quantos anos ela tem? Não sei, uns 40. Solitária, meio triste isso.

É? Uma boa parte dos meus melhores momentos foi quando não tinha nenhum “par.” Fico pensando quando as pessoas vão parar de achar que ter um cônjuge é remédio pra solidão, e que não ter um alguém “especial” é motivo de tristeza. Parece paradoxal dizer isso, mas acho que pessoas assim dão muito pouco valor aos relacionamentos entre seres humanos, por acreditarem que apenas um modelo e um único indivíduo valem a pena. E é estranho pensar também quão solitárias são as três mulheres do livro, não apenas Rachel. Apenas uma se engana muito acerca da própria solidão (Anna) e outra, bem, a outra (Megan) busca opções fora do relacionamento, o que lhe custa a vida.

 

fullersimperial

Para ler bebendo

  A história se passa na Inglaterra, e a personagem principal é alcoólatra. Hum. Alccolismo sempre me faz pensar em bebida de baixa qualidade. Porque afinal, a maioria de nós não teria como manter esse vício só com boas cachaças (esse povo não fica na cerveja). Rachel, aliás, acho que não bebe nenhuma cerva. Só no vinho, gim, uísque. Pensei em uma cerveja da escola inglesa, forte e sem ser muito sofisticada. Uma porter, ou uma stout. Bem, elas não são exatamente cervejas muito alcoólicas, então avanço um pouco mais para chegar nas Imperial Stout, de preferência, Russian Imperial Stout.

A Meantime e a Fullers Imperial Stout são uma inglesas, aliás de Londres. A primeira tem 8.5% e a segunda, 10.7% de graduação alcoólica. Nenhuma delas é lá muito amarga (de amarga já chega a vida dos alcoólatras). No nosso território, a Cervejaria Nacional produz a Saravá (gosto muito do nome), que chega a 11.5%.

Esse tipo de cerveja tem a coloração bem escura, são encorpadas, e apesar do russian no nome, são sim, da escola inglesa. Embora o paladar e aroma apresentem as variações costumeiras, os temas recorrentes são café, chocolate, tofee. Por favor por favor por favor, não metam essa cerveja no congelador. Não bebam a menos que 10 graus.

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