As Garotas – perversas e perdidas – de Emma Cline

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Coisas demais passam diante dos nossos olhos e não temos tempo de nos perguntar por que aquilo aconteceu. Ou melhor, como. Por quais processos um ser humano se vê diante de ações tão inexplicáveis.

Em 1969 alguns jovens assassinam de forma cruel sete pessoas ao longo de duas noites no estado norte-americano da Califórnia. Quatro pessoas, sendo que apenas um homem, evisceraram sete seres humanos, uma delas grávida já a ponto de dar a luz. Tex Watson, o maldito fruto, tinha 24 anos, e era também o mais velho dos assassinos. Leslie Van Houten tinha 19 anos, Patricia Krenwinkel tinha 22, e Susan Atkins, 21.

O caso Tate-LaBianca chocou o mundo. Após meses de investigação, chegaram a uma seita hippie (sic) cujo líder, Charles Manson, sociopata de primeira ordem, vivia cercado de um bando de jovens (ele na época andava pelo meio da casa dos 30), a sua maioria esmagadora garotas, e em sua maioria, de famílias abastadas ou de classe média. Eles se auto-intitulavam “Família Manson.” Que lindo. Qualquer que fosse a dinâmica existente entre os componentes daquele grupo (uma família bastante grande, pelo jeito), qualquer que fosse o cotidiano daquelas pessoas (de drogas, abusos, ausência total de conexão com o resto dos seres humanos que não fossem como eles), alguma coisa muito profunda se partiu na cabeça e no coração daquela galera, e em um estalar de dedos do sociopata mor, essa garotada paz e amor partiu em uma missão sanguinária.

Emma Claine escreveu As garotas inspirada nessa história muito louca. A autora é, ela mesma, bastante jovem, acho que tem seus 24 anos. Quem narra a história sinistra é uma mulher de uns sessenta, sessenta e poucos anos, Evie. Começando nos “dias de hoje,” a maior parte do livro, contudo, constitui-se de um relato das suas desventuras de adolescente na Califórnia dos anos 1960.

Evie Boyd tem 14 anos em 1969. Ela fuma maconha com o irmão mais velho da melhor amiga, se esfrega no menino que tem por perto (o irmão da melhor amiga), está magoada com a separação dos pais (que ela, ó, surpresa, atribui a mãe). A recém separada mãe da Evie, muito da perdida, se envolve em astrologia, tanques de privação sensorial, tarot, chás e o caralho, porque veja, foi a época em que as mulheres descobriram que mereciam uma busca. “E ela buscou até só restar a própria busca”, é isso o que Evie diz a respeito da sua mãe. As moças são sempre cruéis umas com as outras e sempre condescendentes com os homens que entram em suas vidas, porque coitados.

Foi nessa época que ela conheceu e se encantou com um grupo de meninas mais velhas (de seus 18, 20 anos). Moças livres, lúbricas, que viviam como queriam, sem pais, sem regras, atrevidas, viajando por aí sem destino. Um grupo de jovens cheio de generosidade, sem apegos materiais, dividindo seus destinos, seus corpos, seu amor.

Só que não.

O mundo é mau, pica pau. E por trás de toda aquela liberdade aparentemente sem limites, da experimentação, do quebrar regras “caretas”, as mesmas histórias de sempre se desenrolam: abuso sexual, exploração, mentiras, mesquinharias, egocentrismo, violência, alienação e devoção absurdas.

Evie se entrega sem reservas àquelas pessoas, em especial a Suzanne. Não se trata aqui da descoberta da homossexualidade (embora elas cheguem a transar uma noite, muito mais em conseqüência de um ménage forçado e da viagem das drogas do que por desejo próprio), mas da descoberta de um outro que é aquilo que queremos ser. O problema, no caso, é que esse outro tem um lado monstruoso.

Ela tem sede de si. Uma incrível sede de si:“eu estava a espera de algo sem saber o que era.” Catorze anos, e toda a avassaladora descoberta da necessidade de existir, de fugir de uma realidade com a qual não se identifica, de se jogar em um mundo novo (para ela e para todo o mundo) desconhecido, livre, imprevisível… Identidade e pertencimento. “Era isso o que eles sentiam o tempo todo, imaginei, aquela rede de presenças mutuas como algo próximo demais para se identificar. So a sensação de ser carregado pela correnteza fraternal, de fazer parte.”

O tempo todo eu me perguntava por que. Eu sei que é injusto, hoje, quando posso ter mais ou menos a vida que eu escolhi sem me importar com o que esperam de mim, ficar tão estarrecida. Mas 50 anos atrás… imaginem o quão poderoso não devia ser o simples gesto de usar longos cabelos desgrenhados, vestidos sujos e curtos demais, 18 anos e na estrada, vivendo “ao deus dará…” se a gente reclama das cobranças em relação a aparência, e elas são intensas e desgastantes, mal ou bem não temos mais o tipo de represália e marginalização social que determinadas atitudes costumavam trazer. Afinal, o que é uma ofensa virtual diante da possibilidade concreta de as pessoas te evitarem na rua e te agredirem fisicamente só porque você não raspa o suvaco, seus cabelos não são armados como o da Feiticeira, você não usa anágua? Bom.

Mas meu maior choque veio pelo comportamento daquelas pessoas: não dava pra perceber o quanto de violência sexual havia ali? O quanto era injusto com as meninas, que continuavam a ser exploradas pelos caras, com quem elas trepavam, por quem elas trepavam, roubavam… E de quem ainda por cima apanhavam!

O livro termina em tragédia, tragédia da qual por muito pouco Evie não faz parte. Mas o estrago já estava feito, e ele é indelével. Não dá nem para dizer que sua vida nunca foi a mesma, o que seria o cúmulo da obviedade. Na verdade, sua vida jamais chegou a acontecer, suspensa entre o horror e o sonho adolescentes.

Meninas eu li…

Quando eu era pequena sem nem saber ler direito, minha história favorita era Chapeuzinho Vermelho. Tenho fotos para provar: eu, aos 5 anos, “lendo” uma das  versões que tínhamos em casa. É a história da transgressão feminina, não? E como tal, tem violência extrema, regras em excesso. Mistério. Um lobo em cada esquina.

Nos anos 1960 ficou muito claro para todo o mundo que sabia ler e assistia Tv que as mulheres existem. Que são indivíduos com uma subjetividade própria. Mas existir não é tão fácil, nem tão óbvio, nem tão claro.

“Eu ficava a espera de que me dissessem o que eu tinha de bom. E mais tarde eu me perguntei se não era por isso que no rancho tinha tantas mulheres a mais do que homens. Todo aquele tempo que eu gastara me preparando, os artigos que me ensinavam que a vida era, na verdade, só uma sala de espera até que alguém reparasse em você — os rapazes haviam gastado esse tempo tornando-se eles mesmos.”

É fácil para os meninos? Claro que não. Deve ser uma merda crescer com um bando de adultos falando para você, incessantemente: homem não chora, homem tem que pegar, homem tem que levantar, homem nunca pode errar, homem é foda. Porque eles sabem que não são. Ninguém é. Isso só prova o quanto o patriarcado é ruim pra todo o mundo. Compare as páginas das revistas femininas desde 1930, e verás como mudaram pouco. Claro, a linguagem e os costumes mudaram, mas a lógica é a mesma: como ser uma mulher. E ser uma mulher significa agradar ao homem.

No final dos anos 1960 um monte de gente que vinha de famílias “de bem” começaram a agir como pessoas de famílias nem tão “de bem.” Contracultura e etc. e a gente sempre ouve falar o quanto isso “liberou” as mulheres também. Mas na prática, não foi exatamente assim.

Hoje muitas de nós sabem o quanto associar diretamente a prática do sexo livre com liberdade de escolhas representa muito mais um perigo de objetificação da mulher do que sua liberação.

As garotas expressa isso muito bem. Eu aposto como Emma (a autora) fez as mesmas perguntas que eu me fiz quando li sobre a “Família Manson.” Como assim, moças??? Tinha uma garota na “família” de 14 anos, como Evie. Mas ela fora “entregue” pelos próprios pais hippies, porque acharam uma boa idéia mandar uma menina sem senso de si viver no meio de um monte de homens adultos que, sinto muito informar, continuavam sendo homens. Vocês acham que só porque o cara é hippie e fala de paz e amor ele desliga, do nada, tudo o que fez parte dele por anos?

Evie a princípio acha que tudo é diferente na comunidade. Bom, sob vários pontos de vista, tudo era muitíssimo diferente. Mas seu paraíso perdido tem alguns anjos decaídos que se drogam demais, estão perdidos demais, vazios demais, e a paulatina decadência física da comunidade espelha apenas a destruição emocional que os devasta. E as meninas, como sempre, pagam um preço muito alto.

Há alguns trechos que se passam no presente. Neste presente, Evie está em uma casa (por acaso, e apenas por uma ou duas noites) com um casalzinho muito do asqueroso, em especial, ele, Julian. Tenho a impressão de que a autora inseriu esta personagem completamente desprezível para mostrar como os meninos de hoje são tão nojentos quanto os da época dela, e as meninas, tão tolas e carentes. Sabe quando você (acha que) tem uma amiga, e conta para ela coisas que deveriam ficar entre vocês, e do nada ela conta pro machinho dela, porque né, tem que contar tudo pro machinho (mesmo que ele não faça o mesmo com ela, o que é 99% dos casos). Olha, vou te falar, tem vezes que a sororidade se torna muito difícil. Já me afastei de amigas por esse tipo de coisa. Rola um trecho assim.

Tem situações que suavizaram, digamos assim. Mas. Alguém se identifica?: “Aquilo fazia parte de ser uma garota: você se resignava a qualquer resposta que tivesse. Se ficasse irritada era uma louca, e se não reagisse, era uma puta. A única coisa que podia fazer era sorrir do canto onde tinha sido encurralada. Participar da piada mesmo que a piada sempre fosse você.”

Evie passa toda a infância e parte da adolescência desesperada por atenção, em especial a masculina, pois essa era (é?) a atenção que importava. Em Suzanne, ela descobre outro referencial. Mas o pesadelo do seu corpo (incluindo aí o cérebro e todas as glândulas também) faz com que ela continue a buscar no outro, e apenas no outro, aquilo que deveria ser o seu próprio desejo.

Um livro perturbador. De novo: o que acontece na cabeça de uma pessoa que a esvazia tanto assim? Que permite a entrada de uma devassidão tão doentia e totalizante? São apenas as drogas? Susan Atkins e Leslie Van Houten deram extensas entrevistas nos anos 1970 em que explicam seu estado de espírito, enfim, o tipo de ser humano que eram. É assustador. A gente realmente não passa de um feixe de eletricidade temperado por ocasionais tempestades hormonais.

 

armageddon

 

Para ler bebendo

Não sei se recomendo estas. Mas. Vá lá, somos todos adultos, e nenhum psicopata a vista.

Normalmente as cervejas possuem um teor alcoólico entre 4 e 12%. Doze por cento já é bem alta.

Um tempo atrás uns dementes das cervejarias Brewdog e Schorschbrau (e outras) entraram em uma disputa de quem fabricava a cerveja mais forte. A brincadeira  resultou em cervejas com índice de álcool de até (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) 70%. Isso mesmo, competindo com Absinto. Para se ter uma idéia, cachaça hoje em dia gira em torno de 45%, como a maioria dos destilados. Eu não faço nem ideia de como eles chegaram lá, deve ser um processo complicadíssimo. Enfim.

A End of History é a mais doente delas. Não é a mais forte, tem 55% de álcool, mas sua limitada primeira edição foi engarrafada em embalagens feitas por bichinhos empalhados (ou, imitação de bichos empalhados, tipo esquilos, muito doente de todo jeito). A cara de Manson _ ou no caso aqui, Russel. Fim de mundo e tal.

A Armageddon (outra palavra para fim de mundo) chega aos 65%. Apesar disso, ela continua parecendo (em termos de sabor) com uma cerveja (em tese, é uma Eisbock).

Eu vou parar por aqui. Pesquisem por aí qual chegou nos 70%…

 

 

 

 

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