E Shiva navega

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E Shiva navega

As experiências com ayahuasca diferem de pessoa para pessoa, de medicina para medicina e também ao longo do tempo. Há situações em que nada acontece, ou em que a pessoa fica apenas muito meditativa, ou com muito sono, ou sem sono nenhum. Há ocasiões em que o desconforto físico predomina sobre as outras sensações, pode ser que a pessoa se veja sem forças, com muito frio ou calor, pode ser que tenha visões, que descubra o sentido da vida, que veja o nascimento e morte do universo. Há viagens prosaicas, mirações, pensamentos opressivos, contato com deuses e ETs. Enjoo, vômito, diarréia, risos, lágrimas e dança. Tem de um tudo.

O que eu acho que nunca rola é aquela sensação de inutilidade, de vazio. É sempre uma lição. Mas ai, toda experiência da vida é uma lição. Sim, cara pálida, mas frequentar um cursinho de inglês é uma coisa, viver um ano em Nova York, outra, não? Ao contrário das outras substâncias, o seu consciente está sempre ali, observando. Processando. E o mais legal: também ao contrário de outras substâncias, ela continua agindo ao longo do tempo no seu cérebro, nas suas emoções. E, também ao contrário de outras substâncias, não vicia.

Tomei a segunda vez bastante tempo depois de ter tomado a primeira. Com a mesma galera, embora não fossem duas índias, mas sim, um casal huni kuin. O local também mudou, mas o grupo que organizou o encontro também organizara o anterior. Se da primeira vez eu me encontrava a beira mar, da segunda eu estava no alto de um morro em Laranjeiras, meio caminho para Santa Teresa. Aquela mesma coisa, sentados pelo chão (achei o salão mais apertado), o casal distribuindo e depois cantando. De novo, uma lindeza. E de novo, fiquei a observar o entorno, esperando apenas, alternando com momentos de meditação. Sempre me foi dito para não criar expectativa em torno do que viria, então novamente apenas aguardei.

Era uma noite chuvosa, lembro que quase não consegui chegar porque o temporal alagou tudo em Laranjeiras. Havia uma porta ampla envidraçada no salão que dava para uma varanda que estava bem molhada por causa da chuva. Gostoso o lugar. Mas nada aconteceu. Comecei a ficar cansada (e um pouco chateada), e acabei deitando para descansar as costas. Passou o tempo (não sei quanto) e nada. Tudo bem, tem o segundo despacho, que eventualmente foi servido. Mais espera. Espera bastante, e nada. Eu já tinha me conformado, pensei, uma daquelas situações em que simplesmente não bate.

Havia um recuo onde ficavam os banheiros, e para isolar um pouco este recuo com os reservados do resto do salão alguém havia colocado um pano com essas pinturas de Shiva em um barco (devia ser Shiva). Eu estava sentada/ deitada a uns dez metros desse pano, em ângulo reto. Em dado momento, olhando para o teto perguntei-me se as linhas que o cruzavam tinham sido sempre coloridas ou se alguém tinha acendido os fios luminosos. Não tinha fio nenhum, claro, eu estava vendo luzes onde não havia. Tudo acima da minha cabeça virou um lençol de fios cruzados, uma enorme teia, com fios mais grossos coloridos, e fios mais finos cor cinza. Aí, pensei, pronto. Hoje é dia de ver coisas. Não fiquei muito contente, essa coisa de ter alucinação não é muito pra mim. Virei o rosto na direção da varanda, e as flores penduradas nas árvores me pareceram meio malignas, escuras, com dentes. Percebi uns macaquinhos rastejantes subindo e descendo a árvore, mas é engraçado que não eram “alucinações” no sentido literal, eram como percepções distorcidas. Incômodas, de todo modo. Virei o rosto de novo, na direção de Shiva (devia ser Shiva). O estandarte ganhou uma vida nova, e literalmente aliás, porque Shiva (era Shiva) começou a remar no seu barquinho e a vir na minha direção. Pronto, fudeu.

Comecei a me sentir incomodada. Sentei-me, e um peso muito grande parecia me prender ao chão. Não era aquela mão, aquele abraço confortadores tão comuns durante as cerimônias, mas uma viscosidade estranha. Levantei devagar para ir ao banheiro (Shiva já tinha segurado a onda e voltado pro pano), e no recuo, encontro pias, espelhos e imagens de várias deidades (Jesus, escrava Anastácia, Nossa Senhora, Shiva de novo, Iemanjá), e então as paredes como que começaram a se inclinar sobre mim. Nada muito concreto, nada muito óbvio, mas com uma sutileza quase insidiosa. Me senti meio intrusa ali, como se não pertencesse por não acreditar naqueles rostos que me encaravam. Fiquei sentada uns minutos, enjoada, com o peso do mundo sobre o corpo, me perguntando se devia pedir ajuda. Quer saber? Entrei no reservado e vomitei. Rápido e pouco. Saí, molhei o rosto, me sentindo um pouco melhor (um pouco). Fisicamente, pelo menos. Quando ergui a cortina improvisada, observei o salão e fiquei enojada.

O casal de índios estava em um “intervalo” e haviam parado de cantar, e algumas pessoas haviam assumido temporariamente o ritual e cantavam hinos que hoje conheço e gosto muito. Dezenas de pessoas se espalhavam pelo salão, algumas deitadas, outras sentadas meditando, outras sentadas conversando, cantando ou chorando. Algumas, de pé, dançavam e cantavam. E o que me passou pela cabeça foi: cem mil anos se passaram, e continuam não passando de um bando de macacos que precisam realizar cerimônias toscas para deuses que não existem.

Durma com um barulho desses. Quando se toma ayahuasca, os pensamentos viram sentimentos, por isso é uma terapia tão eficiente. Palavras ganham vida dentro de você e saem passeando pelo seu coração. Tudo aquilo que se diz óbvio no dia a dia ganha outra dimensão. Uma das muitas coisas que não dá pra explicar, não adianta contar. Por isso esse momento foi, pra mim, tão ruim. Uma das minhas motivações para começar a tomar fora justamente a busca por uma aproximação com o outro, e me vejo diante do horror de uma espécie desprezível que se dedica a torturar todas as outras formas de vida para mitigar seu próprio sofrimento, em plena sessão que supostamente deveria me ajudar a enxergar o lado bom da gente.

Dizem que muitas vezes você só entende o significado real das viagens de ayahuasca depois, as vezes, muito depois. No fundo eu acredito que a gente é que acaba por elaborar alguma coisa para preencher essas lacunas, porque possivelmente determinadas experiências valem apenas por ser uma coisa que se pode enfrentar. Ou para deixar mais claro para você mesmo uma coisa que você já sabia. Cabe a nós interpretar cada momento – como é, aliás, na vida de uma forma geral.

A ayahuasca é, sim, uma planta professora. Mas quem tem que trabalhar é você, e as vezes, pode acontecer de um aspecto surgir durante uma sessão e ganhar uma dimensão que não necessariamente é aquela, amplificada pela medicina. Caminhos são tortuosos em qualquer terapia. Até hoje não vi mensagem nenhuma naquela viagem ruim e mesquinha. Claro que não deixa de ter sua verdade (somos mesmo uma espécie cruel que no fundo evoluiu muito pouco em milênios) mas esse pensamento me agride todo dia, e honestamente não me ajudou em nada confrontar ainda mais esse lado da vida naquele momento delicado. A questão do deslocamento resultante da descrença acabou por render frutos mais viçosos, pois com o tempo, as conversas e os rituais eu acabei elaborando de uma forma diferente o jeito como vejo as deidades religiosas, a forma como as percebo.

Como eu disse, toda experiência pode ser um aprendizado, só depende da gente mesmo. A gente é que tem que colher, buscar, arrancar à realidade sua lição, e a ayahuasca vem se apresentando para muitas e muitas gerações como um poderoso canal para abrir as portas da sua mente e da sua sensibilidade, tornando esse aprendizado muito mais profundo, mais duradouro.

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