Chimamanda: Americana?

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Chimamanda e os… negros? Afro-americanos? Pretos? Africanos?

Quando a cor da pele começou a constituir a identidade de forma necessária, intrínseca? Quando foi que começamos a prestar atenção nisso? Quando foi que começamos a associar características específicas ao tom de pele e textura dos cabelos?

Estas perguntas óbvias (cujas respostas não me parecem claras) me passam pela cabeça quando leio Americanah. Ifemelu, nigeriana, parece não se dar conta de que é “negra” quando adolescente. Isso ela aprende ao chegar aos EUA, território cujo povo tornou-se especialista em classificar as pessoas por “raça,” não importa quão estranhas estas “raças” sejam para quem vem de fora (exemplo maior talvez seja “latino,” que porra é essa, alguém me diz).

Faça-se um favor, não responda para si mesmo que a diferenciação entre humanos pela cor da pele é “natural” e sempre existiu. Leia a bíblia. Ninguém usa adjetivos relativos a este aspecto para descrever os faraós, os núbios, os tessalonissenses, os coríntios, a rainha de Sabá. Aparentemente, não tinha importância.

Ifemelu é uma mulher de seus 35 anos, pelos meus cálculos, que mora nos EUA há uns 15. As primeiras páginas do livro apresentam uma blogueira (nossa, isso é mesmo uma profissão) que discute questões de raça. Basicamente. Estuda em Princeton, percebe que engordou (chama-se de gorda mesmo, sem nenhum pudor) e tem cimento na alma. Um cimento resultante da ausência da vida que deveria estar vivendo: ela quer voltar para a Nigéria (oh, meu deus, como assim, perguntam-se todos a sua volta).

Americanah vai e volta na história de Ifemelu e seus amigos, em especial, do seu namorado de juventude Obinze. Ambos escolhem o aeroporto como saída para questões pessoais e nacionais (greves intermináveis que tornam estudar impossível, instabilidade política, crise econômica, alguém se reconhece? Brasileiro adora pensar que está “evoluindo” pra Miami, mas na verdade é a cara da Nigéria), mas enquanto Ifemelu consegue se estabelecer nos Estados Unidos, Obinze fracassa em suas tentativas na Grã-Bretanha (o que não tem importância, pois, após a deportação, ele alavanca sua carreira e enriquece em seu país de origem, de uma forma bem nigeriana, inclusive). Americanah é como os nigerianos se referem aos seus compatriotas que voltam aculturados da terra do Tio Sam, falando e querendo diferente.

Lembro daquela brava gente brasileira que vai aos EUA todo ano e diz que na “América” sim, tudo é maravilhoso, comparando as coisas mais incomparáveis, achando as coisas mais estapafúrdias. Como se americano cagasse cheiroso, como dizia minha vó. E a gente tivesse sempre diarreias morféticas, todo o tempo.

Estamos mesmo muito mais pra Nigéria. O que, aliás, não deve ser ofensa para ninguém.

A despeito da determinação inicial e dos esforços que Ifemelu e Obinze empenham em manter seu relacionamento, mesmo a distância, o arranjo não funciona, por várias razões, algumas óbvias, outras nem tanto: há de fato um divisor de águas que torna a jovem arredia, envergonhada e amedrontada, jogando-a em uma depressão da qual sai por muito pouco, mas que acaba por esgotar seu relacionamento. A partir daí ela vivencia relacionamentos com homens brancos e negros, trabalha como babá, inicia seu blog, entra para a universidade, muda-se de cidade mais de uma vez. Em sua trajetória, questões que jamais se colocariam caso estivesse em sua terra natal pressionam seu cotidiano, e é através do blog que ela desabafa, conversa com outros, aprende e ensina, questiona o país que escolheu para viver, questiona a si mesma. Para os americanos, todos os africanos são iguais, e se diferenciam dos afro-americanos; o que faz pouco sentido para os africanos, já que cada nacionalidade e mais, cada etnia se vê de uma forma diferente. É como nós, “brasileiros,” que não conseguimos entender que índio não é tudo a mesma coisa.

Ela fala de gênero, raça, imigração, crise, juventude, nacionalismo, amadurecimento, politização, intelectuais presunçosos, família, relacionamento. Coisas da vida. De todas as vidas, de um jeito ou de outro. Há um questionamento generalizado diante da sua decisão de deixar sua vida estável nos EUA (trabalho, companheiro, apartamento próprio) para voltar para casa, um grande ponto de interrogação. Mas ela volta, e começa a reconstruir sua vida em um país quase estranho, que diz ser uma coisa mas, na prática, é outra. Muitas vezes sente-se deslocada, exasperada diante de absurdos aos quais seus compatriotas se acostumaram.

Meninas, eu li…

Às vezes Ifemelu conversava com estranhos acerca do seu blog. “Uma vez para um homem branco de dread que havia se sentado ao seu lado no trem, com cabelos que eram como velhas cordas de barbante trançado que acabavam em tufos louros e uma blusa esfarrapada usada com tamanha humildade” que a convenceu de que ele devia ser um guerreiro social e talvez desse um bom colunista convidado. “Esse negócio de raça é totalmente exagerado hoje, os negros precisam desencanar, é tudo questão de classe agora, os opressores e os oprimidos”, dissera ele sem hesitar, e Ifemelu havia usado a frase para abrir seu post intitulado “Nem todos os caras brancos de dread estão na nossa”.

A resposta do rapazinho mostra bem o quanto homens e brancos cagam para as questões de gênero e raça. Homens inteligentes, instruídos, professores universitários inclusive, dizem, “estou de saco cheio de não poder falar nada porque sou homem e branco.”

Querido:

Voce pode falar o que você quiser. Quem te impede. Mas a gente também pode falar o que quiser, inclusive que você é um babaca. A questão é que pessoas como você falam o tempo todo, e são sempre ouvidas. As mulheres, não. Nem os negros. Muito menos, aliás. Mas isso não importa pra você, não é? Você tá de saco cheio de não poder falar nada porque é branco? Acha isso um porre? Sabe o que eu acho um porre? É ser obrigada a pensar duas vezes em todos os momentos da minha vida antes de tomar uma atitude por ser mulher. Desde reclamar do atendimento ou de um serviço contratado, a não ir a uma festa para não ter que voltar sozinha as quatro da madrugada. Então, para de reclamar. Não precisa achar bonito, não precisa concordar, mas porque a necessidade de retrucar, sempre, sendo que você está lidando com pessoas que passaram a maior parte da história sendo ignoradas? As questões de gênero põem a nu sua capacidade de empatia (cuidado, empatia não é compaixão), muito mais do que sua capacidade de argumentação. Podemos viver muito bem sem esta última, mas precisamos desesperadamente da primeira. Esse povo parece não entender que se aprende muito no silêncio. E que o diálogo se faz entre iguais, de resto é sempre um sermão. E eu nem falei da questão do “ser branco,” até porque não sendo negra, não vou comentar sobre isso de forma leviana, é meio pretensioso.

Ifemelu fala sobre ser africano negro nos EUA, e de ser mulher africana também, e de ser mulher também. A falta de credibilidade que a prioristicamente imputa-se a sua fala. A dúvida. A insegurança. A culpa sentida diante do abuso sexual. A imagem, o corpo. O menosprezo por “causas menores” (gênero e raça), que segundo alguns (o cara dos dreads, por exemplo) “atrapalha” a verdadeira luta contra a classe dominante (este ponto é muito sensível às esquerdas, durante décadas frequentamos congressos de sindicatos e partidos socialistas dominados por homens que sempre diziam que a questão urgente dizia respeito a luta contra o capital, contra a burguesia, e que o feminismo apenas dividia as classes oprimidas). Ou “atrapalha a nossa compreensão enquanto seres capazes de uma transcendência que nos torna todos iguais”. Esse papo.

Chimamanda Ngozi Adichie (a autora do livro) escreveu uma obra chamada Sejamos todos feministas, que ainda não li. Uma das formas de começarmos a ser todos feministas (isto é, a desejar e a concretizar esse desejo de que homens e mulheres sejam, para além do estatuto jurídico, de fato valorativamente iguais) é lermos livros de mulheres que falam de mulheres (não falo de romances mela-cueca, pelamordedeus). Não precisa ser um livro bandeira, um livro “militante,” um livro “didático.” Mas vamos todos começar a ler histórias de mulheres escritas por mulheres. Vamos parar de ler livros sobre homens escritos por homens? Não, né. Mas estes já são tão lidos, tão comprados, tão discutidos. Não é hora de comprarmos, lermos e discutirmos livros escritos por mulheres? Sem rotular de “literatura feminina,” porque é esquisito pra caramba este rótulo. Vamos ler as histórias destas mulheres como aquilo que são, uma experiência, para alguns, radicalmente diferente da sua própria. E ainda assim, parte de todos nós.

 

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Para ler bebendo…

Uma cerveja estilo americano, e com personalidade. Achei difícil escolher por outro viés, desculpem se caio no óbvio:a indicação vai para uma American Pale Ale. A Imaculada é uma APA super premiada, nacional fabricada com legítimos lúpulos norte-americanos, aromática, refrescante, 30 de IBU e 5.8% de teor alcoólico. Mais uma que segue a Lei de Pureza da Alemanha, estabelecida em 1516.

Para quem não sabe, a distinção entre uma pale ale inglesa e uma pale ale de estilo americano reside nas notas frutadas, cítricas, que marcam esta última, e o tom mais para o herbal e terroso característico da cerveja mais tradicional inglesa. Há uma outra linhagem americana de cervas que eu nunca experimentei, mas recomendo mesmo assim, porque parece sensacional: o fresh hop ale, em que apenas lúpulo em flor, fresco (em geral é utilizado lúpulo desidratado na fabricação de cerveja) é acrescentado. Não chega a ser um estilo diferenciado, mas uma variação possível em alguns deles. Este uso tornou-se uma tradição, que hoje em dia conta inclusive com um festival para celebrá-la.

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