Ayahuasca: Onde

_MG_0126

 

Onde?

Demorei um bom tempo para tomar chá pela segunda vez. Hoje vejo que foi tolice. Mas a questão é que, no Rio, onde moro, eu não conhecia lugares com os quais me identificasse, até hoje não conheço muita de coisa de centros não-daimistas que servem a medicina (sim, é chamada de medicina). Não rolou tomar com h. onde ele morava, nem sei bem porque, e as cerimônias xamânicas que eu poderia ir muitas vezes eram muito contra-mão, ou eu estava sem grana, etc. Não tinha companhia para ir comigo e tal. Mas a verdade é que se o chamado tivesse vindo mais forte eu teria ido de uma forma ou de outra. Mas, tudo tem sua hora e cada um tem seu tempo.

Mas porque eu fazia questão de que fosse uma cerimônia xamânica naquele momento?

Como eu já disse, eu preferia que o ritual fosse conduzido por uma mulher, ou ao menos, um casal. Além disso, me senti naturalmente atraída por conta da natureza amazônica, indígena da medicina. Quis experimentar no contexto mais original possível. Ou, mais próximo da sua origem.

Eu nunca fui a uma sessão do daime, ou da UDV, ou da barquinha, ou outra além das xamânicas. E das que atualmente faço em casa. Cada um sabe de si e escolhe seu caminho, mas se na época eu já apresentava uma certa resistência diante de organizações muito grandes (eu já disse que não gosto de igreja), hoje em dia eu tenho menos vontade de me aproximar, embora lhes tenha muito respeito.

Veja, elas são necessárias para a manutenção de todas as linhas, escolas (sim, a ayauashca é um estudo), enfim, práticas relacionadas com a medicina. Sem elas, provavelmente seria muito mais difícil combater cristãos xiitas que certamente adorariam tornar ilegal uma prática milenar que contribui para que povos indígenas resgatem suas origens e se afastem das igrejas evangélicas e católicas, tão daninhas. Sem elas, a fabricação e obtenção de chá seriam bem mais difíceis. Sei que hoje tem gente que vende kit daime pela internet. Mas quem vende e quem compra, sinceramente, em geral tá num caminho tão errado que não vale nem a pena falar. Existe toda uma rede de confiança entre as pessoas do ramo que torna uma atividade delicada (que é a circulação do chá) mais segura.

Mas eu já ouvi me contarem situações que eu sinceramente dispenso. Tenho questões (leia-se: problema) com hierarquias muito rígidas, e não tem como escapar: as igrejas que trabalham com o chá possuem hierarquias como qualquer igreja. E outra: é difícil ver mulheres a frente dessas igrejas, e isso me incomoda.

Tem uma coisa. Na verdade, muitas coisas. O chá é luz e força. Sim. Acredito nisso profundamente, e cada vez mais. Mas é feita por seres humanos, tomada por seres humanos. Ninguém se coloca acima do bem e do mal só porque toma chá. Existem mais nuanças na experiência com a ayauashca do que tons no arco íris. E depois, o cu não tem nada a ver com as calças, uma pessoa não se torna maravilhosa, generosa, vegana, pacifista e o caralho ao cubo só porque toma chá. Ou porque faz terapia junguiana. Ou porque é do PSOL.

Talvez um dia, se me aceitarem, eu tenha uma experiência com o daime, ou com a UDV. Tenho vontade de tomar em um ritual cigano, só não fui porque me faltou oportunidade. Todas as minhas observações sobre o lado terreno das práticas com a medicina não implicam em qualquer animosidade em relação a elas ou ao trabalho que desenvolvem. Como em TODOS os campos, há pessoas e pessoas, mas minha crítica estrutural advém de um posicionamento meu diante da vida do qual não posso e não quero abrir mão. As coisas se misturam sim, porque o seu espírito está vivo mas ta nesse mundo, e ele tem que enfrentar os problemas que seu corpo traz.

Continuo sem adotar religião. Há misturas de ayauashca com cristianismo, com umbanda, com tudo junto. Bem Brasil. No início isso pra mim foi confuso, em especial quando começamos a fazer nossas próprias sessões, porque h. tem suas crenças e as traz para o trabalho. Paradoxalmente, foi só quando comecei a me entender melhor com determinadas nomenclaturas que eu comecei a passar muito mal com o chá. Nas primeiras sessões, aquele chamado cristão me incomodava um pouco, os exus e que tais também, ficava pensando em com que tipo de energia eu ia ter que lidar. Nunca atrapalhou minha viagem, o que pegou foi justamente quando eu comecei a me entender com essa estranha forma humana de lidar com suas próprias energias interiores e com a interação das mesmas com as avassaladoras realidades e manifestações imperceptíveis e imponderáveis que nos cercam.

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s