Eu e a ayahuasca: primeira vez

 

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The very first time

A internet está carregada de relatos a respeito das experiências com ayahuasca. Há muitas coisas em comum entre eles. Muitos pontos se repetem. E muitas vezes, acho que são relatos circulantes, as pessoas ficam meramente repetindo umas as outras. Particularmente os que eu acho mais interessantes são os mais sinceros, os mais objetivos, os que fogem da grandiosidade mitológica e do auto enaltecimento ou da auto depreciação. Mas para quem não conhece e quer conhecer, tudo é válido. Mesmo, porque existe uma mística em torno. Então, tornar a experiência uma parada natural é bacana, sem vulgarizá-la nem endeusá-la. Do meu ponto de vista.

Minha primeira vez foi numa cerimônia com uma galera que eu nunca tinha visto na vida. Sei lá, umas 30 pessoas. Eu não tava nem um pouco na pilha de ir em uma igreja  de daime (alergia a igreja, seja qual for). Quis ir a uma cerimônia que fosse o mais próximo possível da sua origem, fora de rituais demasiadamente estruturados. Achei um grupo que se dedicava ao xamanismo na web, os caras organizam cerimônias com pajés e pajoas (existe isso?), e em uma ocasião em que duas índias haviam sido convidadas, resolvi ir.

Isso das índias para mim foi importante. Não vou discutir aqui o quanto a luta contra o patriarcado é fundamental para mudar a nossa sociedade, blá, blá, mas vou só lembrar a vocês que vivemos em uma sociedade majoritariamente monoteísta cuja entidade maior é masculina (“deus” é “homem,” sério essa porra?), e que se refere a própria espécie por um único gênero (“tudo o que o homem conquistou em milênios de evolução”). Tomar no cu.

Eu não tenho religião, desde que saí da igreja metodista aos 11 anos, ou seja, nos anos 1980. Acredito que a religião (em especial, as monoteístas) estruturada seja um dos principais instrumentos de opressão dos pobres e das mulheres, e acredito que ela propaga o obscurantismo e o ressentimento. O deus masculino dessas igrejas me ofende e oprime, e se alguma entidade merece meu respeito real é a mãe da vida, a mãe terra, como queiram. Pode ser a Energia Suprema, o Universo Supremo. Não acredito no demiurgo, mas transformar a origem de toda a vida e propósito em um deus-pai me agride.  O gênero é uma (péssima) invenção humana e as energias superiores do Universo não iam se preocupar com isso.

Quanto às variadas entidades presentes no panteão grego, no terreiro umbandista, nas lendas amazônicas ou pré-romanas européias, tenho uma relação ambígua com elas. Creio que representam aspectos de nós e do mundo que habitamos, mantendo-nos conectados com essa existência telúrica. Foi aliás o monoteísmo do deus masculino que destruiu essa relação com a natureza e transformou o Homem no predador de outros humanos e de outras formas de vida que ele é.

O lugar era a beira mar, e por menos que freqüente a praia, estar perto do mar sempre me confortou. Eu não conhecia ninguém, o que por um lado também foi reconfortante, porque você nunca sabe que tipo de intimidade será partilhada.

Não vou ficar entrando nos detalhes do ritual em si, do lugar, da decoração, das pessoas, da anamnese feita, das conversas antes do chá. Tenho muito a dizer mas o processo concreto é relativamente banal e pode ser encontrado em um sem número de páginas e canais de youtube.

Fui sem esperar muita coisa e sabendo que eu estava em segurança. Sabia que não devia temer nada verdadeiramente. Não tinha comido muito durante o dia, sentia-me bem, ansiosa (normal), mas bem. Desmistificar uma experiência não é desprovê-la de importância, e eu já tinha meio que trabalhando nessa desmistificação. Ler sobre a origem da ayauashca e seus efeitos é importante para dar um pouco de segurança a quem toma. E eu tinha feito lá meu trabalho de casa.

Eu tomei e fiquei lá na minha parede, sentada sobre a esteira (uma esteira por pessoa) e a coberta que eu tinha levado, um ambiente bem amplo. Observei um pouco as pessoas e prestei atenção na cantoria das índias. Essa cantoria jamais vou esquecer. Haja gogó. Uma lindeza. Na posição do lótus (ou tentando), abria e fechava os olhos, observando o entorno, e as pessoas que começavam a sentir os efeitos e, portanto, mergulhavam em si mesmas. Esperei. Demorou a vir.

Eu nunca fui de usar drogas. Uma erva de vez em quando, uma anfetamina ou ácido quando era mais jovem, experimentei chá de cogumelo e achei uma bosta. Gosto de beber e de, as vezes, fumar maconha. Nunca tomei LSD e muito menos cocaína. Mas por tudo o que eu ouvi e li, não há nada parecido. E para mim, com pouca experiência com substâncias que tais, tudo teria mesmo cara de novidade.

Para mim, foi um orgasmo cerebral. Não sei quanto tempo durou, mas quando a onda veio, me levou para um ápice incrível. Acho que não durou muito tempo (orgasmos tendem mesmo a ser curtos) mas essa primeira vaga foi impressionante. Depois dela vieram outras coisas ao longo da noite, mas sinto saudade porque nunca mais a onda veio desse jeito (em outras ocasiões, me senti abalroada por um transatlântico, mas nevermind). Foi lindo, e minhas conexões com Ísis dentro de um templo subterrâneo também. Meu diálogo (sim, altos papos) com a medicina foi bacana, nos apresentamos e tal, depois ela me deixou falando comigo mesma, o que também foi super.

Não passei mal naquele dia (não vomitei, não “fiz limpeza”). No início, no primeiro despacho (que foi o mais intenso) vi como que umas garras gigantes de caranguejo vermelho entrando no meu campo de visão por baixo (como se viessem abaixo da linha da minha cabeça). Mas como não senti medo, pensei, ok, se eu tiver que passar por você, vamos lá. Mas também sem aquela macheza, aquele desafio, sabe? Só tipo, ok, Houston, temos um problema, vamos resolvê-lo (e pode apostar, com a ayauashca, você sempre resolve, e mesmo quando não resolve, você nunca vai ficar perdido em órbita, você sempre volta).

Voltei de manhã para casa, de transporte público, com um cara que coincidentemente morava bem perto de mim. Ele está no meu facebook mas nunca mais nos vimos. Dormi umas 3 ou 4 horas, e acordei superbem.

O lance com a ayahuasca, que eu só viria a saber mais tarde, é o resto da sua vida, e não as horas que você passa sob seu efeito.

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