Onde está Elizabeth, de Emma Healey

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Depois da mulher invisível de Martha Batalha, a mulher esquecida de Emma Healey. Que não necessariamente é a protagonista senil, Maud. E nem a Elizabeth do título do livro – Onde está Elizabeth?

Eu li a história em três etapas. Ou talvez, em três níveis simultâneos. O nível imediato é de fato a pergunta que dá nome ao livro. Onde diabos está Elizabeth, pergunta-se a narradora. O livro é contado em primeira pessoa, e para nosso imenso azar, deleite e frustração, Maud sofre de demência avançada (possivelmente Alzheimer), e a resposta a uma pergunta simples esconde-se nos meandros do seu esquecimento. Acompanhamos a personagem em seu labirinto que muitas vezes a leva ao ponto de partida, e eis o segundo nível – sua demência e dificuldade em viver em um mundo que quase não conhece mais. Perguntamo-nos repetidamente se este ou aquele fato têm relevância, ou se sequer aconteceram. Sentimos a agonia da personagem quando Maud não consegue lembrar de nomes de objetos corriqueiros, tipo uma cadeira ou um lápis. A narrativa me pareceu extremamente convincente, mas é claro que como nunca fui senil, não tenho ideia acerca dos processos mentais de quem o é.

Maud se pergunta onde está sua velha (isso percebe-se desde o início, Elizabeth também é uma senhora) amiga e também como aquele objeto tão familiar e tão antigo (um espelhinho de maquiagem) foi parar no jardim da casa dela. A correlação entre as duas perguntas faz-se clara ao longo da história, e este é o terceiro e mais profundo nível, que aos poucos ganha espaço.

A vida de Maud se dá entre pessoas que ela apenas ocasionalmente percebe quem são (sua filha e neta, inclusive), pedaços de papeizinhos/ lembretes espalhados pela casa que criam ainda mais confusão em sua (e na nossa) cabeça, suas lembranças de juventude, e sua quase infindável busca por Elizabeth. O espelho antigo encontrado por acaso desperta velhas reminiscências, e acompanhamos assim a vida da jovem Maud, logo depois do fim da Segunda Guerra, as imensas dificuldades pelas quais ela e sua família passaram. Nesse contexto conhecemos outros personagens: seu pai, sua mãe, o rapaz que alugava um dos quartos, a mulher louca da vizinhança, sua irmã mais velha Suki, que vem com um marido bem esquisito.

Essa parte da história tem muito mais coerência do que sua busca por Elizabeth (já li que em pessoas com idade avançada o passado fica cada vez mais nítido, enquanto a memória recente se esvai pelo ralo com incrível rapidez), e o quebra-cabeça vai sendo montado aos poucos. Suki desaparece repentinamente, e as investigações feitas não levam a nada, deixando para trás uma família de coração partido que jamais revê a jovem. Apesar da íntima certeza da morte de Suki, a família tenta se consolar com histórias de fugas mirabolantes de pessoas no pós guerra que simplesmente buscavam um novo recomeço.

A narrativa dos dois momentos contrasta intensamente. A consistência do passado e a fragmentação do presente. A vivacidade em um mundo incerto, a angústia torturante em uma realidade labiríntica. As histórias da sua adolescência também trazem sombras, visto que retrata um período de escassez, de desesperança e traumas, e do egoísmo que viceja nesse tipo de mundo. Acompanhando seu presente, senti-me quase como se fosse cega, tateando dubiamente em meio a descrições incompletas.

Todos os níveis da história vão se encaixando, e se o final não surpreende, ele é certamente pungente e emocionante. O livro apresenta um aspecto de thriller muito marcado, mas também surge como um poderoso drama familiar.

Meninas, eu li… [SPOILER ALERT]

Suki foi assassinada pelo marido. Dá para desconfiar desde que a história começa a ganhar corpo. Claro, a autora insere duas personagens que desviam um pouco as suspeitas, mas no final o mordomo é mesmo culpado, embora descoberto com 70 anos de atraso. Os dois mistérios correm paralelos, como se o paradeiro de Elizabeth fosse uma porta para o desvendar do antigo mistério. No processo, Maud recupera velhas memórias, direcionando sua filha para a descoberta da ossada da sua irmã.

Suki era bela e tentava ser sofisticada, em meio ao mundo cinza e seco deixado pela guerra. Maud a enxergava como seu modelo, e seus confusos sentimentos em relação ao marido da irmã (em especial, depois do seu sumiço) e ao rapaz que alugava o quarto (de quem Suki era próxima) acentuam a sensação de que Maud desejava ser a irmã mais velha, de alguma forma. Não que houvesse uma competição direta, ou que Maud invejasse ou espicaçasse Suki; na verdade, as irmãs eram bastante próximas.

Frank, o marido-assassino, é apresentado desde o início como uma figura escusa, associado ao mercado negro de gêneros alimentícios que perdurou no imediato pós guerra. Ele já é um culpado-pronto, por assim dizer. Contudo, não precisa prestar tanta atenção assim para perceber que o assassinato não é consequência apenas do seu mau-caratismo e banditismo, mas fruto principalmente do machismo. Claro que a grande maioria dos machistas não se transforma em assassinos, mas podem apostar que muitos machistas assassinos nem de longe se assemelham a criminosos profissionais ou asquerosos sociopatas. São homens comuns, que trabalham, vão a igreja, jogam futebol nos fins de semana, bebem cerveja com os amigos e são vizinhos prestativos. Suki não morreu porque atrapalhava os negócios do marido. Ela morreu porque ele não aceitou o abandono, não aceitou que a esposa existisse sem ele, sem sua devida permissão. Não fica claro o contexto preciso, se foi intencional ou não, mas Frank tinha um histórico de abusos, contra Suki e a própria Maud.

O lugar do macho na sociedade patriarcal está tão assegurado e legitimado que a própria Maud não percebe que foi vítima de abuso, que em uma das ocasiões poderia tê-la machucado seriamente. Ele era ciumento, obsessivo, controlador. Não satisfeito em matar a esposa (crime do qual escapa impune), ele assedia a jovem Maud, e (!!!!!) chega a pedi-la em casamento. Ele exercia um fascínio poderoso sobre a jovem, que diz ter recusado porque já se comprometera com Patrick, o homem com quem se casa. Maud diz claramente o quanto Frank amava Maud, embora soubesse que ele a assassinara; e quando conta para a filha que ele a pedira em casamento anos depois, afirma que ele reagira com alívio diante da recusa, para em seguida refletir:

“Mas a expressão sombria e doentia do seu rosto quando eu disse não me vem a tona, e me pergunto novamente se eu teria dito sim se não estivesse noiva (…)”.

Frank era um bandido. Mas ele não matou Suki por ser um bandido. Ser um criminoso apenas deu-lhe a falta de escrúpulos e a coragem para fazê-lo. Sua motivação é clássica: essa mulher é minha, fora de mim ela não pode ter existência; se eu quiser, posso jogá-la fora para que outro a pegue; mas não enquanto for minha.

 

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Para ler bebendo

Vou fazer uma brincadeira meio óbvia e escrota, e recomendar a ótima Amnésia, da Mistura Clássica. Dã, Maud não tem amnésia, tem Alzheimer. Mas uma amnésia momentânea pode fornecer um vislumbre distante do que é conviver com o esquecimento cotidiano.

Eu gosto da cervejaria Mistura Clássica, em especial, da Vertigem e da Amnésia. A primeira é uma India Pale Ale (IPA), e a segunda, uma Imperial IPA com teor alcoólico 9% e (!!!!!) IBU 90-100. Não é lindo? A Vertigem, vencedora da medalha de ouro do Mondial de La Biere 2014 fica um pouco atrás, com IBU entre 65 e 70, e 6.5% de álcool. A despeito disso, não são cervejas “difíceis” de beber, descem muito bem, em especial a Vertigem. O cheiro me lembra muito arruda, mas há quem diga capim limão. A Amnésia leva lúpulo fresco e é uma cerva apenas sensacional.

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