Gillian Flynn as Mulheres crueis

 

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Garotas exemplares, lugares escuros, objetos cortantes, … [AVISO DE SPOILER]

Os livros de Gillian Flynn(os que eu li, pelo menos) são contados na primeira pessoa. Às vezes, alternadamente por mais de uma personagem. Por nenhum deles, você consegue sentir simpatia durante mais do que algumas páginas.

Quando comecei a ler Garota exemplar, a narrativa fluida e incisiva me conquistou de cara. Logo reconheci a história, e isso porque ela virou um filme tipo High Hollywood (com Ben Affleck e tal), e aliás, não é o único, Lugares escuros também foi pras telonas.

Quem inicia a narrativa é um homem que desperta, infeliz, no dia do seu quinto aniversário de casamento. Infeliz com o casamento, com a mudança de Nova York para a pequena cidade onde nascera, com a morte da mãe, com o beco sem saída econômico em se encontrava por causa da Crise, com uma mulher com quem ele não consegue paz.

Já no primeiro registro, percebe-se que Nick se sente muito desconfortável com a esposa. Ela surge como uma mulher exigente, sempre insatisfeita, arrogante. Mas não é difícil ler as entrelinhas que trazem a tona o machão moderno: p. ex, eles moravam em NY, ambos haviam perdido seus empregos (sendo que, segundo ele mesmo diz de cara, a sua perda de emprego é discutida e debatida horas e dias a fio, servindo de desculpa para vários comportamentos completamente inadequados por parte dele; mas a dela, bem, ele recebe quase com graça, “descartando sua experiência com uma frase.” Não é a cara do homem fazer isso? E não é a cara deles ficar putinho quando a gente chama a atenção para o fato?), e ele decide que deveriam voltar para a sua  cidade natal (um fim de mundo) porque sua mãe estava doente, e abrir um negócio com o dinheiro da esposa, juntamente com a sua irmã igualmente abatida pela Crise. Quando relata este processo, ele insere também que a mulher exigiu que alugassem uma casa, em vez de comprar. Tsc, tsc. Tanta coisa boa que ela é forçada a fazer e ainda assim tem coragem de exigir que não gastem suas (dela, pois ela tem algum dinheiro) últimas economias comprando uma casa em um lugar odioso. Bruxa maldita. Há várias passagens do gênero no livro. Esse é só um exemplo dos mais sutis de como ele considera sua esposa como pouco mais que um acessório.

Seu relato é alternado com o diário da sua mulher Amy. Mas, enquanto Nick nos conta o que acontece no tempo presente, o diário de Amy começa quando conhece Nick, anos antes. Sua narrativa inicialmente é doce, apaixonada, e a gente meio que fica esperando quando aquela moça vai virar a megera odiosa que seu marido traça com habilidade. Isso nunca acontece, ao contrário: a gente percebe mesmo pelo próprio relato do homem que ele é um tremendo canalha, e desenvolve uma simpatia pela moça (claro, os homens vão dizer que ele só fez umas “besteiras” porque ela praticamente o empurrou para o abismo). Ao mesmo tempo, o relato dela se torna cada vez mais o diário de uma mulher lentamente abandonada por um marido incapaz, egocêntrico, que a exclui dos seus pensamentos e das decisões fundamentais para a vida em casal, e ainda faz com que ela se sinta um peso inútil, uma desequilibrada. Familiar? O tom do seu diário torna-se mais assustado, com Amy relatando brigas que chegam a agressão física e seu medo crescente do próprio marido.

Confesso que nesse ponto há muito tempo eu já tinha sacado a história, até porque me lembrei do filme. No entanto, mesmo para quem não viu, basta um pouquinho de sensibilidade para perceber que tem açúcar demais no diário dela, e que as duas histórias não batem de jeito nenhum. Há algo muito errado ali.

Logo no início ela desaparece, deixando para trás uma cena típica de sequestro. As investigações se iniciam e logo conhecemos outros personagens, como os pais de Amy (que enriqueceram escrevendo livros infantis baseados em uma versão perfeita da própria filha), o pai e a irmã de Nick, uma vizinha, os policiais investigadores, antigos colegas de Amy, e a amante de Nick. De uma forma previsível, Nick torna-se o suspeito número um, e sórdidos detalhes da sua história com Amy aos poucos veem à tona. Enquanto Nick se desdobra para seguir pistas deixadas pela própria Amy, que supostamente o levariam ao seu presente de aniversário de casamento, ele percebe que se enredou em uma trama inescapável e brilhante traçada por Amy com o intuito de vingar-se do marido, da sua traição não apenas carnal, mas emocional.

 

Meninas, eu li…

Para mim, a decepção do livro é justamente a verdadeira Amy. Não por ela ser uma sociopata extrema, mas por ser uma sociopata comum. Eu li outros livros da autora e às vezes acho que ela não gosta das mulheres. Ou, como li em um site, uma feminista misógina. Isso me incomoda, e muito. Já vou abrindo geral: os culpados em seus livros são sempre as mulheres, e os homens não passam de uns pobres joguetes. Também não gosto dessa vitimização masculina, porque a gente sabe muito bem que, embora existam pessoas loucas, escrotas, agressivas, manipuladoras e assassinas em ambos os gêneros e em todas as classes sociais, de longe quem mais sofre por condicionamentos estruturais é a mulher. Noventa e cinco por cento dos assassinatos são cometidos por homens, sem contar que, embora a esmagadora maioria das vítimas seja homem, eles não morrem porque são homens. No caso das mulheres, o feminicídio é uma realidade dura que infelizmente muitos se recusam a reconhecer. Compreendo a importância de colocarmos as mulheres em todos os papéis, inclusive os cruéis, acredito que a igualdade passa pela aceitação de que mulheres são seres humanos com potencialmente os mesmo “defeitos” que os homens, mas a contingência pede (acredito) que se evite dizer coisas como “mulheres bêbadas muitas vezes não estão sendo estupradas,” quando sabemos quão elevado é o número de estupros (de qualquer mulher, bêbada ou não) no mundo inteiro. Também acho extremamente problemático enfatizar o caráter manipulador de algumas mulheres e tornar isso sempre o eixo condutor da história, trazendo a normalidade para o enredo na figura de homens equilibrados e sensatos.

No caso de Garota exemplar, Nick não passa exatamente por este processo e não incorpora essa normalidade. Porque ele continua sendo tão ou mais escroto aos nossos olhos mesmo quando descobrimos que Amy é uma doida e que ele não cometeu crime algum. Também não há um outro homem equilibrado trazendo a normalidade de volta a narrativa, e acho que são essas coisas que fazem com que seja meu livro preferido da autora.

“Vou matar aquela piranha. Eu me entreguei ao sombrio devaneio que me permiti nos últimos anos quando Amy me fazia sentir pequeno: sonhava acordado em acertá-la com um martelo, esmagar sua cabeça até ela parar de falar, finalmente, parar com as palavras que ela grudava em mim: medíocre, chato (…). Em minha imaginação, eu a acertava com o martelo até ela ficar como um brinquedo quebrado (…) isso não era suficiente, e eu restabelecia sua perfeição e recomeçava a matá-la.”

Note-se que ele revive um devaneio que fazia parte da sua vida ANTES do desaparecimento de Amy. Seu desejo de matá-la é anterior a tudo o que ela aprontou com ele. Pode-se argumentar que eram apenas delírios raivosos de um infeliz. Mas eu não aceito esse argumento, pois jamais em minha vida tive esse tipo de fantasia com alguém que eu conhecesse e gostasse. Se fosse uma fantasia desenvolvida depois da armação dela, ok. Já sonhei em estripar um assaltante com um sorriso nos lábios. Mas antes?! Um devaneio de um homem que apenas tem problemas absolutamente comuns com sua esposa? Ah, não.

Esse trecho me faz pensar que Gillian talvez não seja anti-feminista. Ela conhece tão bem a cabeça dos homens que escreve exatamente o que se passa nelas, toda a escrotidão, sem perdoar, justamente para que, a despeito da sua inocência legal, a nossos olhos ele pareça sempre o culpado. A frase “quando Amy me fazia sentir pequeno” é típica da mentalidade masculina, assim como seu desejo de silenciá-la através da morte. O abandono não basta para uma mulher “que fez” com que ele se sentisse tão mal. É preciso oblitera-la. Por outro lado, antes da bombástica revelação de que Amy armou toda a cena, em seu falso diário há um trecho bastante revelador acerca de como se dá a dinâmica entre vários casais:

“Ele tem aquele olhar como quem diz que eu não estou sendo razoável, como se ele estivesse tão certo de que não estou sendo razoável que chego a me perguntar se estou.”

Mulher é tudo maluca. Tem TPM. É histérica. Descontrolada. Irracional. Como Nick mesmo afirma:

“Eu tive o pensamento grosseiro, um daqueles que fermentavam fora do meu controle. Pensei: as mulheres são malucas, porra. Sem classificação. Não algumas mulheres, não muitas mulheres. As mulheres são malucas,”

Questionar a sanidade do outro, seu autocontrole, é uma das formas mais eficientes de deslegitimar seus questionamentos e suas demandas. Quantas vezes você soube de uma mulher que falasse para seu companheiro, “querido, você não está conseguindo raciocinar, de tão nervoso”; “Joãozinho, você tem ido à terapia, nada do que fala tá fazendo sentido, é um exagero só”, no meio de uma discussão? Pois é. Agora, quantas vezes você (se for mulher) já ouviu (ou disse, se for homem) “tá muito nervosa, deve estar de TPM”, “ih, tá descontrolada essa daí, deve estar sem homem.” Né. Mulher que exige ser ouvida é maluca, megera, grossa. Homem que exige que suas ideias sejam levadas a sério só quer respeito, é incisivo.

Os homens só se sentem impotentes diante das mulheres que defendem seu terreno porque acham que um patamar superior lhes é natural. Isso fica sempre claro na forma com que se expressam. Mesmo os mais legais, aqueles que dizem questionar o patriarcado, possuem no sangue, introjetado desde pequenos, esse primordial direito a superioridade. Quer ver?

“Não importava quantas pistas eu descobrisse, iria me deparar com alguma pergunta de conhecimentos gerais sobre Amy para me emascular.”

Emascular? Quer dizer que quando ele não tem conhecimento de algo sobre sua esposa ele se sente “emasculado”? E o que é “emascular” afinal de contas? É retirar aquela idolatria, superioridade inerente a que os homens acham ter direito? Ser masculino é estar sempre certo, sempre seguro, sempre à frente? Existe um correspondente no idioma para a mulher? Não. Emascular quer dizer exatamente: tirar o poder, tirar a razão.

Existem questões muito interessantes, a respeito do que buscamos no outro, e da nossa necessidade de aceitação, sejamos homens ou mulheres. As expectativas socialmente construídas, os papéis que nos são impostos, nossa busca por uma alma gêmea – coisas que na verdade são fantasias. Relações humanas são construídas dia a dia, e embora expectativas sejam parte integrante delas, há um limite saudável além do qual buscamos apenas uma personagem que nossa própria imaginação exige.

“… ela [a amante] não me contradizia ou criticava imediatamente. Nunca me censurava. Ela era fácil (…) mas talvez amor de verdade lhe dê permissão para ser o homem que é.” Concordo, e Amy também concordaria se não fosse uma sociopata:

“Ser uma Garota Legal significa que eu sou uma mulher gostosa, divertida, brilhante, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga vídeo game, bebe cerveja barata, adora ménage a trois e sexo anal, e enfia cachorros-quentes e hambúrgueres na boca como se fosse anfitriã da maior orgia gastronômica do mundo ao mesmo tempo em que de alguma forma mantém um manequim 36, porque Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas.” Ela diz que a Garota Legal não existe, não passa de uma invenção que as mulheres apresentam para os homens que desejam. Tanto um como outro percebem o papel, a força das máscaras sociais nos relacionamentos afetivos, e o patamar absurdo a que as pessoas acabam por vezes se deixando levar.

Nick se sente obrigado a estar a altura da grandeza de Amy, e eventualmente percebe, em um dos trechos mais lúcidos do livro, que sua inadequação acaba por amesquinhar tanto a ele como a ela, já que ele a arrastara ao longo dos anos para uma disputa de quem era mais escroto. Mas novamente, existe sim, uma contingência social que se exerce de forma muito mais cruel sobre as mulheres, e Amy continua:

“Esperei anos para que o pêndulo oscilasse para o outro lado, que os homens começassem a ler Jane Austen, aprendessem a tricotar, fingissem amar a Cosmopolitan, organizassem festas de scrapbook e dessem uns amassos entre si enquanto nós assistíamos, babando. E então diríamos: é, ele é um Cara Legal.” Sim, infelizmente, embora todos nós soframos por amor e abandono, as exigências em torno da própria imagem são muito maiores para as mulheres, assim como a exigência de aceitar qualquer babaquice que o outro faça. Os homens esperam ser aceitos; esperam também que as mulheres sejam o objeto dos seus sonhos.

Eu fiquei decepcionada por Amy ser a maquinadora de todo (quase todo) o mal do livro não porque queria que ele fosse de fato o vilão, ou porque acho sacanagem a mulher ser culpada. Mas acho que teria sido um statement muito mais poderoso se ela fosse uma serial killer que odeia os homens, por exemplo, ou uma mulher comum que apenas se encheu de tanta pressão e resolveu botar pra fuder. Tem um filme com Michael Douglas que me fez sentir assim também. O cara passa uma manhã dos infernos, tudo dá errado pra ele, um estresse urbano que acaba explodindo em Um dia de fúria. Depois a gente fica sabendo que o cara já era um desequilibrado e tal. Mas eu fiquei com a impressão de que teria sido muito mais legal se ele fosse um cara normal que tivesse chegado a um nefasto limite. Amy é, sim, uma personagem extremamente complexa, muitíssimo perspicaz e inteligente (não há nenhum momento em que eu deixe de concordar com ela), que crescera à sombra de uma versão perfeita de si mesmo (a menina Amy dos livros escritos pelos pais), mas poderia ter sido a grande vilã ambígua da literatura contemporânea.

De todo modo, Garota exemplar é muito bom, assim como Objetos cortantes, de que falarei depois. Não curti muito Lugares escuros, então nem vou comentar. São livros sórdidos, com personagens sórdidas, e enredos empolgantes.

 

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A Coice ou a Labareda, da Coruja (é, Coruja de novo). Porrada em cima de porrada. A Coice é uma lager escura com um puta teor alcoolico: 11.5%. Também é amarga: 69 IBU. Leva canela na fórmula que, segundo consta, dispensa aditivos químicos (marca da Coruja, vide a Extra Viva). Uma delícia picante que leva canela, arrasa quarteirão, que via deixar você mais zonzo que o Nick nas mãos da Amy.

Picante (como sugere o nome) também é a Labareda. Uma cerveja de cor âmbar e cheiro meio defumado, com teor alcoolico 6,7% e IBU 32. O ardido vem mais no final, e fica, fica, fica… na boca, não larga do seu pé. Super-a-ver.

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