A vida invisível de Eurídice Gusmão

 

068

 

Mais uma história de duas mulheres, e dessa vez, de duas irmãs. A vida que apenas acontece, não porque as mulheres são algum acessório na narrativa  de um homem. Mas porque existem, elas mesmas, plenas em suas subjetividades.

No prefácio do livro a autora Martha Batalha esclarece que vários eventos e personagens em sua obra encontram eco na história da cidade (o Rio, no caso) e da sua própria família. E mais, avisa de antemão que as Eurídices e Guidas da vida aparecem nas nossas casas no natal (ou outro feriado), quando discretamente colocam-se a par das novidades da família, bebem um copo de vinho e comem umas rabanadas. Lendo essas linhas, tive a impressão de que me esperava um livro sobre a monotonia das vidas femininas de antanho, das suas limitações e mesquinharias, até porque a imagem que me veio a cabeça foi a de velhas fofoqueiras e maledicentes, mesmo que por fora pareçam umas fofas cheirando a talco.

Eu tinha e não tinha razão. O livro quebrou minhas expectativas porque, embora Eurídice tenha tido sim, em grande medida, uma vida monótona imposta pela mesquinharia da sociedade patriarcal (pérfida hoje em dia, sem-palavras-para-descrever nos anos 1950), não sentimos o peso do desânimo ou da desesperança. Além do mais, sua irmã Guida tem uma vida que pode ser descrita de muitas formas, menos monótona…

O livro tem uma narrativa de idas e vindas no tempo, e quando ele começa, Eurídice é uma mulher casada. A primeira grande pergunta do livro é justamente essa, por que Eurídice e Antenor haviam se casado. Ela, uma jovem tímida e, por razões que em parte serão explicadas em um momento posterior, com tendências ao conformismo e a submissão, casa-se com um jovem de carreira promissora que na noite de núpcias parte-lhe o coração e a alma ao chamar-lhe de vagabunda, depois de perceber que ela não sangrara, como toda mulher direita deveria fazer após ter suas primeiras relações com o marido. Considerando-se que em 1950 ainda havia marido sendo absolvido por matar a esposa por essa mesma razão, digamos que Eurídice talvez tenha saído no lucro, pois nem apanhar apanhou, olha que cara legal. E ele ainda decide “não devolver” a moça, que afinal cozinhava como ele queria, cuidava da casa e tinha uma bunda bonita. A ausência do sangue, entretanto, seria uma sombra e uma moeda valiosa de troca por toda a vida do casal, pois obrigava a já submissa Eurídice a conformar-se com pequenezas cada vez maiores, e permitia que o marido Antenor ocupasse um trono de magnânima localizado andares e andares acima da pobre esposa, para quem poderia para todo o sempre olhar de cima.

A partir desse início nós conhecemo as histórias dos pais e avós de ambos, entremeadas com a história do país desde a República e, principalmente, do Rio de Janeiro. Contos pitorescos, aventuras de negros e imigrantes, de pobres que enriquecem da noite para o dia e de ricos que perdem tudo à mesma velocidade. Esse contar de dramas pessoais em meio a tramas históricas é fascinante, pois é como a imaginação da escritora nos leva longe ao dia a dia das pessoas que vivenciaram momentos marcantes (epidemias, grandes reviravoltas políticas, caos urbano).

A história de Eurídice e de Guida não se torna menos central por isso. Desde o início Eurídice se coloca para o leitor exatamente como ela é, e seu drama primordial pauta toda a narrativa: ela é uma mulher intelectualmente brilhante, em um casamento tacanho, emocionalmente fragilizada pela partida da irmã, ainda anos antes. Ela busca, de mil formas, vencer o tédio e dar asas a sua imaginação e as suas várias capacidades: cozinha todos os pratos do livro de uma tal Tia Palmira, para uma família que só gosta de arroz e feijão (imagem pra lá de clara do conservadorismo da sua gente, não? Se nem comida nova a pessoa experimenta, que dirá um novo estilo de vida); faz roupas para as vizinhas tijucanas, cuja maledicência provoca o surgimento de comentários acerca de dificuldades financeiras da família. Enfim, tenta ocupar seu tempo e sua mente fértil com algo mais que cuecas, crianças, casa e café. Diante de cada tentativa, seu maridão, do alto da sua grandiosidade de homem que aceitou ficar casado com vagabunda, ergue barreiras em forma de gritos e risos. Eu, pessoalmente acho os risos muito, mas muito mais devastadores. Tipo, não seja ridícula, quem vai comprar um livro escrito por uma dona de casa? Ou seja, você é tão desimportante que nem minha raiva merece. Depois que lemos o livro, percebemos que Antenor (o maridão), não é um mau sujeito. Ele tem seus traumas (muito profundos mesmo) e como é comum entre os homens em uma sociedade patriarcal, teve grande parte da sua sensibilidade destroçada em tenra idade (é, os homens são as vítimas primordiais e necessárias desse sistema machista). Mas ele participa ativamente da vida dos filhos, leva-os a floresta para ver os anfíbios dos livros de escola, aponta as constelações no céu, conta histórias de dormir.

O outro lado da história é Guida. A bela, a ousada, a apaixonada Guida. Que parte para viver um grande amor, se reinventa quando tudo (tudo mesmo) dá muito errado, e que finalmente ajuda a dar um sentido maior a vida da irmã quando retorna para seu convívio, anos depois da súbita fuga. O leitor conhece a história de Guida, e mais ninguém, pois ela mais uma vez se reinventa e transforma uma prostituta aposentada (sua melhor amiga) em professora aposentada, e por aí vai.

A história não avança muito além do reencontro das irmãs, do (segundo) casamento de Guida, da mudança de Eurídice da Tijuca para Ipanema, mudança que representa um rompimento com a vida amesquinhada, pequena e reacionária da Tijuca, e um início arejado em uma vizinhança moderna, bonita e cheia de novidades. Aparentemente.

Meninas, eu li…

“E aqui o leitor se pergunta: será que todas as mulheres nessa história são tristes ou amargas? De jeito nenhum. Algumas amigas de Eurídice tiveram sorte.”

Sorte. É tudo o que se tem quando não há empregos decentes para mulheres, creches, respeito. Quando são infantilizadas e transformadas em tuteladas pelo marido (deem uma lida no antigo código civil, vocês vão entender do que estou falando). Quando expõem seus filhos às pilhérias (um termo bem da época) e ofensas por não levar uma vida familiar estruturada e convencional. Quando uma mulher solteira e sozinha não tem o direito de dizer não.

Se Eurídice sofre com o amesquinhamento da sua vida e a opressão sobre seu caráter e criatividade, Guida sofre por ser corajosa, desafiadora e ousada. Tudo o que Eurídice não é. E sofre dolorasamente as consequências da sua ousadia, das suas paixões.

Assim como na Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, não nos encontramos diante da história de um casal, de um homem e sua mulher. Mais uma vez as personagens centrais são duas mulheres muito íntimas, irmãs. Mas no livro de Martha Batalha, as duas irmãs, amigas desde sempre, passam por um rompimento traumático na adolescência/ juventude, que marca o início da jornada de adultas de ambas. Seu reencontro é sua redenção. Eurídice reencontra a alegria e o equilíbrio, e encontra-se nas palavras e nos livros. Guida retoma a estabilidade perdida, consegue um pai para seu filho (depois de alguns percalços), um homem amável que a trata como rainha. Noves fora, saiu todo o mundo no lucro possível.

Um dos aspectos mais dolorosos da história, não para Eurídice (para Guida, sim) mas principalmente para quem lê, é o quanto a mesquinharia e a opressão de uma sociedade machista sobrevivem sobretudo através das próprias mulheres, esposas e mães, não apenas por reproduzirem seus conceitos e preconceitos na criação dos filhos, mas por reprimirem com violência qualquer lampejo de ousadia e imaginação que surja na vida de uma outra mulher. É como se, unidas na amargura, não conseguissem suportar um raio de sol que não podem aproveitar e que, por isso, tentam extinguir. Não se enganem: apesar das supracitadas mulheres de sorte (que são apenas citadas de passagem), a “corporação de mulheres da rua Uruguai” encarna a infelicidade, a inveja e a repressão que tanto fazem para deixar a mulher mal com ela mesma.

Eurídice se transforma depois do retorno da irmã, mas é uma transformação no olhar e no coração. Havia uma estranheza no ar, mas como os filhos continuavam limpos e alimentados, como o marido tinha um jantar na mesa todo dia e sua casa continuava impecável, ninguém deu muita bola. Mas uma nova alma desperta, e não volta a dormir. Não incendeia o mundo, mas acende a lanterna na modesta barraca da família de Eurídice.

Ela acaba voltando a estudar e ensaia um engajamento político (de esquerda, claro). Mas essa parte só é contada meio por alto, usamos a imaginação para vê-la na faculdade de história e nos comícios do pré-golpe (o de 64, não o de 2016). Sem espaço para crescer socialmente, Eurídice volta-se para si mesma. Não de uma forma sombria e doentia; apenas, solitária. Não me compreendem, não me prestam atenção? Eu me basto.

E nos bastamos.

CorujaExtraViva-Cover1

 

 

Coruja Extra Viva dessa vez. Pra começar, ela vem em uma garrafa supervintage, parece um garrafão de farmácia antiga. É uma lager fresca, mais encorpada do que a maioria das suas congêneres. O teor alcoolico também é mais elevado (6.5%), assim como o IBU (25, que não faz dela uma cerveja amarga, longe disso). Batizada de “extra viva” porque não é pasteurizada, não tem conservantes. É tipo um chop artesanal de excelente padrão.

Tem outra, de uma cervejaria que também aprecio: a Noi Avena. Segue o estilo belga (blond ale), que dificilmente me encanta. Não sei se é por causa da aveia que vai na fórmula, mas a questão é que a Avena nem de longe me irrita com aquele Q doce que sempre fica nas cervejas do tipo, em algum momento. Seu adocicado é discreto. Tem espuma exuberante como a atrevida Guida, é uma cerveja fácil de agradar, inclusive àqueles que ainda não caminham pelas trilhas além-pilsen. Ela tem baixo IBU (ou seja, não é amarga) e teor alcoolico de 5.2%. Não é a toa que ganhou um monte de prêmios (2016 Ouro na Copa Cervezas de América – Bronze no Festival Brasileiro da Cerveja, 2017 Prata no Festival Brasileiro da Cerveja).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s