Eu e a Ayahuasca: Motivação

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Seres humanos são bichos estranhos e complexos. Ao mesmo tempo em que temos um monte de coisas em comum uns com os outros, temos um mar de peculiaridades e idiossincrasias que acabam se tornando origem de um tanto de desentendimento. Por exemplo, o que pode ser um bom motivo pra mim, pode parecer uma frivolidade ou uma loucura para outros.

Por que as pessoas vão a igreja (de verdade)? Por que precisam acreditar em deus? Por que precisam ter tanto dinheiro que nem se dão conta? Por que compram tanta roupa? Falar em pressão social é fácil. Difícil é explicar de onde ela vem e porque importa tanto. Isso, vindo de uma cientista social, olha só.

Há quase dez anos eu “busco” (odeio essa coisa de “em busca de algo,” tipo caça ao tesouro, mas vamos lá) algo nessa vida que não seja só isso que a gente vê e faz. Parece ingratidão, mas não é. Amo o céu azul, minha vida é incrível, beleza. Mas, até porque chegamos a um ponto da vida em que tudo começa a dar aquele cansaço (emocional principalmente), tudo o que não se encontra visível começou a me atrair. Pessoas que tinham uma ligação com o “espiritual” começaram a me atrair, minhas experiências com meus sonhos e meu sono, e também minhas memórias, desde sempre perturbadoras, começaram a me fazer pensar sobre as coisas a partir de outros pontos de vista. A mudança obviamente não se limita aos pensamentos, e no final das contas, já nem sei se o que se alterou primeiro foi minha racionalidade ou minha sensibilidade.

Tenho um pavor indescritível da morte. É estranho pensar nisso se considerar que tenho tão pouco medo (visceral) das coisas de uma forma geral. Hoje em dia, velha, passam pela minha cabeça medos que até uns 5 anos atrás eu nem imaginava, mas mesmo assim é muito pouco se comparar com o que eu vejo a minha volta. O medo é a mais poderosa das emoções humanas, é ele quem de fato move montanhas.

Este pavor da morte me causa enorme estranhamento em relação àqueles que não a receiam como eu. Pra mim esse pavor é a coisa mais natural do mundo. Gente, a vida é a única coisa que temos, nosso corpo, nossa existência. Um breve hiato entre duas grandes ausências, como não se apegar a ela? Conheço ateus que não temem a morte como eu, agnosta cada vez mais mística que sou.

Daí as pessoas criam intrincados labirintos para explicar que o corpo é só um invólucro pruma outra coisa chamada alma, que a morte não é o fim de nós, essa existência é apenas mais uma passagem. Eu acredito em um monte de coisa, se tem gente que eu detesto são aqueles médicos (principalmente médicos, a galera da física já se libertou desse papinho) que fica dizendo, mas ai, não existe prova da existência da imaterialidade da consciência, não existe prova de que existem outras dimensões, outras forças, outras existências, blá blá blá. Esse povo devia estudar mais física quântica, pra ver o quanto de mistério o universo carrega.

Mas o fato é que sempre tive ciência da minha pequenez. Beleza, existem várias outras dimensões, outras formas de existência, tudo se dissolve na sua origem e tal. Lindo. Mas. Essa pessoa que eu sou, essa entidade biológica cuja existência concreta se vincula intimamente com o que quer que de “a mais” passeia pelo universo, essa pessoa só vai existir uma vez. Essa experiência é só essa. Não sei se tem um pedaço de mim que continua, ou se eu volto para um todo maior, ou sei lá. Mas isso que eu sou, que fiz e senti, nunca existiu e nunca existirá. Algo assim. Apego ao “ego”? Não sei. Consciência da nossa pequenez, talvez, como disse, uma resistência diante daquilo que não posso ter como certo. Dizem que a capacidade de ter fé é geneticamente determinada. Vai ver.

Ser cientista social, conseguindo compreender a origem social de todas as religiões, sua construção histórica, porque falam o que falam e pregam o que pregam, obviamente não ajuda muito. Entendo um pouco os médicos, tem profissão que é foda pra alma.

Foi nesse momento que um misticismo sempre latente aflorou com mais vigor. Lembro da minha pré-adolescência, minha mãe me levando pra feira esotérica no Riocentro. Das sensações que eu tinha no fim da infância e início da adolescência, de acordar com um estranhamento muito grande, como se eu não devesse estar ali. E muitas outras coisas, que já vira, sentira, percebera. E tudo isso veio a tona e me empurrou no caminho de leituras sobre feitiços, energias vitais, sálvia divinória, tarô, meditação, força da mente, cristais e que tais. Mas de uma forma um tanto dispersa. Faltava alguma coisa.

Já tinha ouvido falar de ayahuasca mas nunca despertara minha curiosidade. Lembro vagamente que virou modinha entre intelectuais e artistas no Rio (Brasil?) nos anos 1980. Não entendia o porque de as pessoas precisarem vomitar para se entenderem com elas mesmas. Porque os relatos sobre a experiência com o daime eram meio vagos, hoje entendo que não dá muito pra explicar em palavras, muito menos em uma entrevista pra jornal ou tevê. Com essa história de youtube dá pra encontrar uma galera que esmiúça suas experiências, dá pra ter uma idéia do que seja. Embora eu ache que contar o tipo de experiência que a ayauashca proporciona seja um contra senso.

Pouco mais de uma década atrás conheci uma mulher e nos tornamos grandes amigas. Em determinado momento ela me contou que tinha ido a uma sessão de daime. Avessa a religiões estruturadas que sempre nos pareceram instrumento de repressão, ela no entanto carregava um misticismo e uma espiritualidade menos atormentados que os meus, ou isso eu sempre supus. O que me restou do seu relato foi que ela ficou bastante descrente inicialmente, porque “nada aconteceu”, mas quando o mestre de cerimônias se aproximou e fez um passe, ela imediatamente sucumbiu a força do chá.

Não me lembro muito mais do seu relato. E é mesmo difícil colocar em palavras este tipo de experiência.  O que mais ficou na minha cabeça, da história dela e de outras pessoas que conheci na época ou um tempo depois foi aquela coisa de auto conhecimento, que é o que sobra da experiência.

De uns anos para cá, além da minha própria mortalidade e minha própria espiritualidade, outros motivos me levaram a querer experimentar o chá. Cada vez mais me sinto distante da espécie humana e lamento fazer parte dela. O horror diante do que esta espécie tem feito com seus pares, com os outros viventes e com o planeta que lhe deu vida, em vez de aplacar com a idade, só tem feito aumentar. Meu assombro só cresce, mas gente, pra que isso tudo. E se a minha ciência me explica teimosamente todas as experiências religiosas que o ser humano criou, ela falha em me explicar porque essa espécie se diz racional mas na verdade carrega tanta destruição e tanto ódio.

Apesar de não me achar “errada” no horror ao ser humano, percebo que isso me deixaria em um beco sem saída de ressentimento, frustração e raiva. E ninguém quer isso, certo? A gente quer ser feliz. Quer paz. Quer amor. Da forma mais prosaica, em um mundo tão insano.

Esse distanciamento de mim (enquanto existência transcendental) e do outro (da espécie destrutiva) encontra-se na origem da minha motivação para tomar ayauashca. No fundo é a velha tentativa de encontrar paz e verdade nessa vida. Alguns se contentam em rezar ou meditar. Alguns escamoteiam essa falta, ou este excesso (de ansiedade, de medo), comprando, brigando, trepando, rezando para o vazio, bebendo, cheirando… Honestamente acho que não basta, e essa é uma das razões pelas quais o mundo t

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