Eu e a ayahuasca: Momento

 

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Minha amiga chamou minha atenção para o daime, mas não chegou a me despertar interesse real, o que só foi acontecer uns 4, 5 anos atrás. Não lembro se nesse ínterim eu cheguei a pensar nisso com mais consistência, ou se cheguei a pesquisar o assunto. Sei que quando ela se mudou para Brasilia, começou a tomar com mais freqüência. Um dia fui vistá-la, viajamos juntas, e nessa viagem conheci algumas pessoas, entre elas um homem com quem eu iniciaria um relacionamento.

Mas ai, ela acabou tomando daime por causa de macho, que cabeça vazia. Não, pequenas gafanhotas, eu era feminista antes de saber o que era isso, meu temperamento me obrigou a sê-lo. Acho rico que duas pessoas se encontrem (independente do tipo de relacionamento que tenham) e se abram para novas experiências, novas perspectivas. A não ser que você seja um mala dogmático e desinteressante (bom, acho até que a maioria das pessoas é), isso acontece todos os dias, em menor ou maior escala. Mas claro,  essa história de certas pessoas (mulheres, principalmente, mas não só) se deixarem carregar pela alma alheia, nossa isso é triste demais. Podem apostar, não foi isso que rolou.

Porque ele é uma pessoa para quem o chá é muito importante, obviamente despertou meu interesse, embora não a minha vontade. Comecei a ouvir dele, da minha amiga, e de outras pessoas na cidade onde ele morava, qual que era a da parada. E tive oportunidade de observar de fora uma cerimônia, em um momento bem bizarro.

Eu estava acampada, ele (vamos chamá-lo de h.) não passou aquela noite comigo não lembro porque (lembro que íamos viajar no dia seguinte, mas fora isso, não sei porque estava ausente). Só havia a minha barraca no camping, mas eu sabia que dois chalés estavam ocupados. Fui dormir cedo, pra levantar cedo. E ai começou uma cantoria no gazebo que havia no camping. Uma violada de jovens, imaginei. Tentei dormir e não consegui, as horas passavam, eu pensei, deve ser cedo ainda. Vi o relógio, nada! Quase uma da manhã. E eu, nossa, será que vou ser a coroa chata que vai interromper a galera? Quando eu estava nessa crise de consciência, alguém ligou o farol de um carro e começaram a buzinar. Gente, barraco. Blá, blá, blá. Depois, por algum tempo, a cantoria ficou mais baixa e menos intensa. Hum, vou dormir. Meia hora e tudo voltou como dantes… eu levantei e fui lá.

Tinha um índio velho e uma galerinha muito jovem em volta. Uma coisa meio anos 60. Maracas, bongôs e violão. Muito anos 1960.

_ Galera, na boa, isso aqui é um camping, tá meio tarde pra festa, tem gente querendo dormir.

A ausência de reação daquele povo me irritou, porque eu estava apenas cansada até então, e não irritada.

_ Beleza, amanhã as seis vou sair pelo camping batendo uma colher de metal na panela pra acordar todo o mundo, ok? (o que eu teria feito mesmo)

(E onde a administração do camping??? Vocês se perguntam. Hum, a gerente estava na sua própria barraca com o namorado, com fones de ouvido, alheia a tudo).

Quando voltava para a minha barraca, uma moça me interpelou. Perguntou, você também está acampada aqui? Assenti. Então vem cá, eu liguei pra Mariana (dona do camping) e ela me autorizou a colocar vocês no hostel (havia um hostel no complexo, mais distante do camping).

Fui e fiquei em paz (a moça que havia ligado o farol e buzinado também estava lá. Ao contrário de mim, ela não conseguiu desapegar da sua irritação e ficou reclamando e reclamando, não queria me deixar dormir, até que eu dei boa noite, mas ela era paulistana, coitada), dormi lindamente.

Subsequentemente fiquei sabendo que a tal Mariana havia alugado o espaço para uma cerimônia de ayauashca (!!!!!!!!!!). Tipo, foda-se todo o mundo hospedado ali. Enfim.

Contei a experiência para o h., salientando minha aversão a cena que eu vira. Sério, um bando de jovens (brancos) alucinados repetindo sem parar a mesma cantoria chata pra caralho, adorando um índio velho.

Pausa. Não retiro muito do que disse. Você olha de fora, é isso mesmo. Acho que a onda do povo era xamânica, e se você não está na força, é uma cantoria muito cacete. E todo o questionamento em torno dessa apropriação, ou desse encontro (sic), de uma cultura ancestral por parte de uma burguesia cujo modo de vida é responsável pelo extermínio daquilo que fica buscando ao tomar chá (sem falar no extermínio indígena), bem, esse questionamento é válido, sim.

O h. me respondeu que se eu não tomasse nunca ia saber, ia ficar presa naquela idéia de que tomar ayauashca era só aquilo, ficar doidão em uma rodinha de viola.

Eu demorei pelo menos mais um ano para ter de fato motivação para começar a tomar. Nesse tempo eu conversei muito com ele, com outras pessoas, com minha amiga m., li a respeito na internet. Na época eu estava querendo experimentar sálvia divinória, mas que bosta, ela foi proibida pela ANVISA (absurdo) naquele ano, ou ano anterior. Eu sempre tive uma relação perturbadora e intensa com meus sonhos, e com a percepção de tempo nos meus sonhos, e experimentar a sálvia (pelos relatos) poderia ser uma forma de conhecer melhor esse aspecto da minha existência, de outro modo tão fugidio.

E não, não tomei com ele. E nem com ela. Eu acompanhava páginas de xamanismo, e em uma das cerimônias huni kuin, eu resolvi marcar presença. Isso foi exatamente um ano e oito meses depois que eu conheci h.

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