Elena Ferrante e a Tetralogia Napolitana

tetralogia-elena-ferrante

Minha mãe nasceu em 1946, na periferia do Rio de Janeiro. Lenu nasceu em 1944, na periferia de Nápoles. Quando comecei a ler a tetralogia de Elena Ferrante (Série Napolitana)tracei esse paralelo, por uma semelhança muito clara de datas e (por que não?) de ambiente. A associação imediata e automática permaneceu à espreita, não exatamente porque a biografia da personagem narradora dos livros da italiana tivesse semelhanças com a história da minha progenitora, mas porque a despeito de serem biografias diferentes, desenrolam-se em tempos e paisagens de força e significado correspondentes.

A vida das mulheres em uma sociedade machista é sempre uma vida de periferia, em Gênova, no Rio, em Tóquio. E acho que aí reside uma boa parte da força dessa história: as mulheres da geração da minha mãe conseguem se enxergar muito claramente, mesmo as que não tiveram que escapar de subúrbios pobres e famílias tacanhas. Até porque, em maior ou menor medida, o machismo arraigado determinou a vida e o destino de todas elas. E as mulheres das gerações seguintes conseguem ler, nas linhas e entrelinhas da tetralogia napolitana, um pedaço da genealogia da sua própria opressão.

São quatro livros, e os títulos trazem em si um pedaço de ambas as personagens. O primeiro, A amiga genial, acompanha a infância e a adolescência das duas amigas. Uma leitura rasa diz que a amiga “genial” só pode ser Lila, que de fato tem a inteligência mais aguda. Mas o título é ambíguo, porque se Lila é brilhante, Lenu é determinada e extremamente perspicaz, o que lhe permite transitar com grande desenvoltura entre os mais diferentes meios, relacionar-se com pessoas de origens e classes sociais diversas das dela. No fim das contas, quem a princípio foge das forças centrífugas que afogam Lina no destino da sua vida provinciana é Lenu. E é a Lenu que, ao fim do livro, Lila chama de amiga genial.

A história do novo sobrenome é o segundo volume, e acompanha a vida de jovem casada de Lila, e o início da carreira literária e acadêmica de Lenu. Como Lenu também acaba noivando, eventualmente, com um colega de faculdade, a narrativa diz respeito também a origem do seu próprio (sobre)nome. A lógica vale para os outros dois volumes, A história de quem vai e quem fica, e A história da menina perdida. Você vai ler (vai sim) e vai entender (juro).

Esse post é sobre a série. Cada volume vai ganhar seu próprio comentário. Por que? Porque é uma obra forte, como há muito, muito tempo eu não lia. Não consegui largar enquanto não terminei (os quatro volumes), em um mergulho profundo nos sessenta anos de um cativante relato pessoal.

Todas as experiências são muito pessoais. Talvez o impacto não seja o mesmo para você. Por que foi para mim?

 

Meninas eu li…

A descoberta verdadeira da opressão masculina não remonta há muito tempo na minha vida. Claro, o óbvio do patriarcado, do abuso sexual, da dominação econômica, da violência, do controle, do ciúme, essa cartilha eu sabia de cor há muito tempo. Eu fiz ciências sociais, né. Contudo, não tem nem uma década que percebi quão indignas são muitas atitudes corriqueiras dos homens, que só existem por causa do patriarcado. Convenci-me finalmente de que manter uma amizade com um homem é praticamente impossível, a não ser em condições muito específicas, e não por conta de uma suposta “tensão sexual” inerente. Eu levei um susto quando ganhei essa clareza, e deixei de ser condescendente: ah, homem é assim mesmo: espalha pra todo mundo que transou com você, e se você transou com ele ou é puta ou está apaixonada (esta última é a versão “cara legal” da fofoca); homem é bobo, faz piada de estupro, sacaneia a TPM; diz que toda mulher se acha diferente mas no fundo é igual; vai acreditar sempre no relato do amigo, e nunca no seu, por mais inconsistente que o dele seja; acha que você tá maluca quando defende com garra uma ideia que lhe é cara; diz que você não tem senso de humor porque não mostrou os dentes em um sorriso quando ele fez aquele comentário misógino, só por “brincadeira;” só se convence de algo quando um macho seu igual corrobora o que você diz. Como eu tenho casca grossa e raramente ligo para essas mini ofensas, passei a maior parte da vida achando tudo muito natural. Mas. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E daí parti para todo um novo universo de descobertas da sordidez que o machismo traz para nosso mundo sem que a gente perceba. Como a nossa essência é negada, vilipendiada e obliterada através de uma desqualificação nojenta de quem somos, da desmoralização da nossa capacidade de existir e falar de igual para igual com um homem. E se você reage com veemência, você é taxada de intransigente, mal humorada.

Por que falar disso em um texto sobre a Série Napolitana? Por que foi um dos livros mais honestos, esclarecedores, demolidores, no que tange a sociedade patriarcal. Verdadeiro, porque conta como é a vida (comum) de quem sofre com isso. O dia a dia, as escolhas, que não se resumem jamais a opressão machista, mas ela está lá, como se fosse um disjuntor muito mal regulado, pronto pra desmontar a sua vida em um falho piscar de olhos.

É um livro. São palavras. É o poder da fala, mais do que todos os outros, negado às mulheres o tempo inteiro. A fala da mulher nunca é apenas uma fala. É sempre uma fala feminina. Não é humana. É da mulher. Não é universal, pois sangra todo mês. Existe “literatura,” e existe “literatura feminina”. Porra. Esse espaço que nos é roubado no universo sonoro também o é no mundo da escrita, e que maravilha quando a gente lê uma história como a narrada por Elena Ferrante. Literatura grandiosa, ponto. Pára com essa merda de quem faz literatura é homem, mulher faz “literatura feminina.”

De cara, o sensacional da história é que não é uma história de um casal, que é o que acontece quando um dos protagonistas é mulher. É a história de uma amizade, daquelas para toda a vida, carregada de amor, raiva, mesquinharia, inveja, admiração, carinho, compaixão. E não, esses sentimentos não necessariamente são despertados por causa das paixões que sentem pelos machos que orbitam suas vidas. Eles (os machos) e elas (as paixões) estão lá, mas a narrativa de Ferrante traz à vida a expressão“protagonismo feminino”, pois o objeto central dessa longa história é, pura e simplesmente, a vida, contada por uma mulher que a viveu.

As amigas são inteligentes, criativas, ousadas. Desejam ser ricas quando crianças, e querem escrever um livro juntas. Estes são seus sonhos de infância. Não é legal? Nada de igreja, véu e grinalda. Os meninos estão lá, despertando desejos e vaidades, mas elas sonham com as estrelas, apesar dos gritos e tapas de pais e irmãos mais velhos. Lina tem que se contentar em ser rica, Lenu vai escrever e estudar. Mas quem disse que à Lina não resta desafio? Um caso extra-conjugal, um “desquite,” a volta a pobreza e ao duro trabalho na fábrica. Quem disse que não há amor para Lenu? Há um rapaz de Pisa, de uma família de intelectuais de esquerda. Há filhos. E também há a separação, porque desde sempre o esquerdomacho faz das suas. É, a vida é difícil para as mulheres. Mas quem abaixa a cabeça? Não Lenu, e nem Lina. Fazem grandes burradas, por amor inclusive, por medo, por orgulho, por acomodação. A vida como ela é. Era. O sucesso ao alcance da pontinha dos dedos, sempre escapando porque o disjuntor desarma…

Mas não é uma história de fracassos. É uma história do que é possível fazer. De como aceitar os erros e seguir em frente, porque não há outra opção, a não ser talvez a morte em vida. Nenhuma delas se tornou Erica Jong ou Virgínia Wolf, ou Jane Fonda.Não ficaram milionárias ou megafamosas. Mas são essas mulheres que fizeram a revolução. Essas mulheres do pós-guerra, a quem tanto foi negado, mas que conseguiam entrever o verde da grama do vizinho. Que, no caso, é de fato mais verde. Essas mulheres que pagaram muito caro por seus erros e também pelos seus acertos, porque seus acertos se tornavam os erros da sociedade machista. Essas mulheres que na maioria das vezes não conseguiram alcançar aquilo que Lenu e Lina até conseguiram conquistar a custa de muito sofrimento, mas que ao menos nos contaram a respeito do gramado verde, nos mostraram o caminho, e mesmo sem perceber, nos disseram: vai.

pack-tupiniquim-tirana-sour-compre-2-e-leve-3-66250

 

Para ler bebendo…

A vida é doce, é amarga, é ácida, é suave, é pesada. Em altos e baixos, às vezes ao mesmo tempo. Não pensei nas minhas cervejas favoritas (as IPAs) porque pareceria que a vida delas foi demasiado amarga. Não pensei nas cervejas mais adocicadas e cheias de espuma, encorpadas, da escola belga, para não parecer que a história evoca uma sofisticação social ausente, uma doçura suave e inebriante.

Pensei nas cervejas mais ácidas, que seguem a linha das sourbeers, herdeiras das velhas e selvagens lambics belgas. Não são muito populares no Brasil, seu gosto é muito diferente das cervejas comuns. Veja, há pouco tempo é que as pessoas começaram a aprender que a Ambev não fabrica cerveja…

A Tirana Sour da Tupiniquim é uma sour ale leve e refrescante, mas ácida na medida certa. Esse contraponto, para mim, essa acidez com frescor, é a cara da história que Lenu nos conta. Porque vocês sabem, a vida é agridoce, e a revolução nossa de cada dia tem o frescor de um chop gelado a beira da praia. O prazer, afinal, é muito subversivo.

Outras marcas no estilo: a Waybeer tem uma linha chamada Sour me not [graviola, acerola e morango]. A mais radical delas é a acerola, que além do mais tropicaliza a experiência. Aliás, essa também é a característica da Morada Cupuaçu Sour.

Caso deseje investir no clássico [e caro], manda ver na tradicionalíssima MarriagePerfect, belga. Como a dupla cheia de ambivalência formada por Lenu e Lina, uma casamento perfeito de acidez com envelhecimento: depois de envelhecida, passa por um processo de refermentação em garrafa. Estoura como se fosse champanhe ao ser aberta [é supercarbonatada] e apresenta um teor alcoólico um pouco mais alto do que as supracitadas: 8% contra 5%.Desafiadora. Selvagem, como cabe às lambics ser. Como Lenu e Lina.

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s