Clive Barker e o Desfiladeiro do Medo

 

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Terror sempre foi uma das minhas praias. Lembro de ficar de madrugada assistindo velhos filmes da Hammer na Bandeirantes, de comprar Cripta nas bancas (junto com a Turma da Mônica), e de ler Poe e King antes dos dez anos. Adorava O homem cobra, arroz de festa do SBT. Vai entender.

Não sei muito bem como fui ler Clive Barker, provavelmente por conta dos quadrinhos ou do cinema. Comecei com o primeiro Livro de Sangue (recentemente li todos os outros). Depois, li Jogos da Perdição, e recentemente, Desfiladeiro do Medo, de 2001.

Eu gosto muito dos autores de horror que conseguem fazer do sobrenatural uma chave para o nosso próprio cotidiano. Esse traço se encontra presente em boa parte da literatura de horror, em especial na literatura de horror de alto nível (o que é Frankentein senão um pesadelo saído das investigações científicas de vanguarda que assombravam o mundo e as páginas de jornal na época?). A maioria dos contos de Barker não me impressionou, acho um horror gosmento e barato, bem cinemão adolescente. Criativo, sim, mas não me diz muita coisa e nem me assusta, para falar a verdade. Me enoja, mas não assusta. E tampouco me deixa em suspense.

Com os dois romances as coisas rolaram diferente. Eu adoro Jogos da Perdição, mas não vou falar dele aqui, agora. E gosto de Desfiladeiro do Medo, também, embora não adore. É uma alegoria bastante óbvia do narcisismo descompensado que tomou conta das pessoas na era da imagem. Não sei se ele lançou alguma outra obra ligada ao tema posteriormente, pois Desfiladeiro é de 2001, ou seja, antes da época dos celulares com câmeras e das redes sociais. Acho que, se escrito hoje, o livro poderia ter como personagens, pessoas comuns, e não os astros de Hollywood que povoam a obra.

O livro começa na Romênia dos anos 1920. Katya Lupi (é, o nome é esse, não sei porquê, mas senti alguma dificuldade em levar o livro a sério depois de me deparar com este nome) é uma atriz em ascensão na jovem Hollywood. Ela própria uma moça ainda muito jovem, imigrante que saíra da Romênia depois de passar por poucas e boas, encontra-se de passagem em sua terra natal com seu empresário e amante Zeffer. Visitando um mosteiro antigo, ele se encanta com um salão azulejado que recria uma cena de uma lenda antiga, de uma eterna caçada em campos povoados de perversão e sordidez. Acredite se quiser, ele compra o salão, desmonta o enorme painel, e remonta-o à perfeição na mansão de Katya do outro lado do oceano.

Todd Picket é um astro de filmes de ação que no final do século 20 começa a se sentir preterido por jovens em ascensão. Depois do fracasso do seu último filme, ele decide que precisa fazer alguma coisa para se manter na crista da onda. Aos 34 anos, resolve que uma cirurgia estética seria sua saída. Eu particularmente achei um exagero, 34 anos, para os homens do cinema, não é nada. Pensei nos grandes astros, inclusive de ação, e todos eles tiveram o auge de suas carreiras na casa dos 30 ou 40 (Tom Cruise, MarkWahlberg, Matt Damon, Vin Diesel). Com as mulheres, claro, a história é outra. Mas enfim, Todd se entrega a um cirurgião que realiza uma intervenção pra lá de nebulosa (escamação com ácido? lifting?). O procedimento não dá muito certo, e Todd se vê obrigado a buscar refúgio em uma mansão obscura nas cercanias de Hollywood até que a situação se acalme.

A mansão, cercada por uma vegetação densa que crescera de forma descontrolada ao longo de décadas de semi-abandono, guarda uma história quase secreta de abusos, perfídias, orgias. E, é claro, com tanta maldade, a casa só podia ser mal assombrada, justamente por Kátia Lupi e seus asseclas, entre eles vários astros da chamada era de ouro do cinema (entre os anos 20 e 50). O desejo desesperado de Pickett por viço, juventude e fama eternos encontra na mansão e seus poderes um aparente porto seguro, mas a um preço alto demais.

Barker, como a maior parte dos escritores de sucesso, é um ótimo narrador, o que não necessariamente torna seus livros grandes obras. Os trechos que expõem a sordidez do mundo do cinema, a meu ver, são as melhores. Mas honestamente, não achei surpreendente. As personagens são um tanto lugar-comum: da empresária fria e megera, à presidente de fã-clube gordinha e frustrada com sua própria vida, passando pelo ator vaidoso, ambicioso e cheio de perversões, entre outros personagens (produtores, maridos, fãs, atrizes).

O salão dos azulejos, remontado nos EUA, traz consigo a maldição que lhe dera origem. Uma vez dentro dele, o indivíduo se perde em meio a um ambiente entre o medieval e o infernal, testemunha de infinitos atos representados nas paredes que parecem em constante mutação. Os trechos relativos a este salão são fascinantes, também estão entre meus preferidos. E é este salão o responsável pala manutenção da juventude eterna de Katya, ainda viva para contar sua história, cercada de semi-fantasmas que só são capazes de sensações porque ela detém este poder.

São velhos temas recorrentes: no fundo, os personagens nada mais fazem do que vender a alma ao demo em troca de beleza, juventude e orgasmos sem fim. O cenário é legal, e acho que se tivesse sido escrito uma década ou mais depois, teria sido ainda mais interessante. Não curti o desfecho da história, principalmente porque, quando há uma “redenção” de personagens, ela tem que ser muito, mas muito bem construída para se obter um resultado consistente. Barker chegou  quase lá, criando um insólito casal no final. Mas foi quase.

Outro aspecto que me traz uma certa estranheza, e não no sentido positivo, são as “crias” que andam pelos quintais da mansão. Parecem animais, mas não são. Aparentemente, foram gerados em relacionamentos sexuais entre animais que Katya mantinha em cativeiro para sua própria diversão e os fantasmas dos velhos astros. O que me faz pensar, pois os animais já não estariam há muito mortos quando da passagem dos próprios astros para outro plano? De todo modo, tenho muita pena deles, e acho que o próprio autor também. São tristes. Perversos, mas muito tristes.

Também não me encanta muito a presença física dos fantasmas, que têm orgasmos e pagam boquetes. Ou é morto-vivo, e aí pode tudo; ou é fantasma, etéreo e não-sensorial. Talvez eu seja careta no quesito fantasma. Talvez.

Meninas, eu li

O velho mito de Lilith, a antiga associação entre mulher, sexo e perversidade. É proibido? Não, mas também não é proibido discutir. As histórias se constroem através de arquétipos e/ ou estereótipos, e entender como esse processo se dá é fundamental para compreendermos as ideias dominantes na cabeça das pessoas a respeito de, bem, tudo. Do noticiário televisivo à propaganda de margarina, do documentário ao livro de terror, nossas narrativas nos levam para paisagens comuns a todos nós.

Lilith é um mito associado a tradições judaicas, a mitologia babilônica, a astrologia. Ela evoca uma sexualidade livre e um caráter rebelde que não aceita a autoridade da voz masculina. Representa a fertilidade, o poder de criação da vida, a autonomia feminina. Claro que na tradição cristã (e correlatas), patriarcal e machista a personagem é demoníaca: onde já se viu, uma mulher que não abaixa a cabeça pro machinho, que escolhe a posição na cama???? Uma mulher livre, que sabe do seu poder e da sua liberdade, ora essa, vai lavar a louça.

O desejo da mulher é perigoso e poderoso, aprendam coroinhas.

Ao longo da história essa personagem apareceu em poemas, contos e romances fantásticos. Em geral, representando uma energia feminina poderosa e insubordinada, portanto, uma força do mal. Em Desfiladeiro não é diferente.

Há 3 personagens femininas muito presentes na história: Katya, Maxine (a empresária), e Tammy, a boa-gente de aparência nada ameaçadora que preside o fã clube do babacão Todd Pickett. Só um adendo: é engraçado a frequência com que vemos nas obras de ficção o papel da mulher legal ser desempenhado por aquela que foge dos padrões estéticos, não? É como se uma mulher que atiçasse os desejos masculinos (ameaçando inclusive seu auto controle) não pudesse ser gente boa.

Katya é quase o demo em pessoa, uma mulher egocêntrica, cruel, que possui desejos que só podem ter saído da cabeça de um homem, sério. Vive rodeada de um séquito de fantasmas em busca do seu perdão e das dádivas que é capaz de conceder. Maxine é uma megera mas ao longo do livro a personagem muda, ou melhor, muda a abordagem em relação a ela, que de empresária calculista e manipuladora passa a ser percebida como uma profissional competente que se deixou conspurcar pelos vícios de Hollywood para vencer na vida, e ao final do livro tenta retornar ao seu antigo eu. Ou algo assim.

Além dessas três mulheres, há Lilith em pessoa, a grande arquiteta do bosque maldito representado no painel de ladrilhos. Ela é um demônio, mãe de um diabinho com aparência de sátiro que é a causa de todo o quiproquó. E eu tenho que dizer que o trecho em que Tammy seduz o pequeno demônio pra salvar geral é uma das poucas em que o autor misturou com muitíssima habilidade, escatologia, narrativa eficiente, e humor. Ou então eu tô muito doida, juro que achei engraçado.

Mas enfim, Lilith. Percebe como, de novo, caímos nos velhos estereótipos? O binômio Katya/ Lilith (na verdade, duas faces de uma mesma moeda) que une beleza e sedução à perversidade e vaidade? Não preciso nem dizer que Todd (oh, coitado) cai nas garras de Katya, porque né. Homem pensa com a cabeça de baixo. Tadinhos.

Eu fico pensando: já deu. É cansativo isso, não apenas porque o cenário montado faz de nós bruxas ou bruacas, mas porque francamente, caiu no lugar comum.

 

lucifer

Para ler bebendo…

O que é uma cerveja trapista? É uma cerveja fabricada em um mosteiro da ordem cistercience. O que é uma cerveja abadia? Uma cerva que segue este estilo, mas que é feita em uma cervejaria comum. É engraçado pensar em uma cerveja feita por religiosos? Não, não é. Imagina na Idade Média Europeia, não tinha hotel pelas estradas, até porque viajar era necessidade e não diversão. Havia umas public houses por aí, uns albergues, e vários mosteiros. Os monges faziam a cerveja para matar a sede (e a fome) desses viajantes, e a sua também. Aliás, era bem mais saudável do que beber água, já que o processo de fabricação da mesma implica em ferver a água.

Eu só fico imaginando a galera desses mosteiros na quaresma. Já viu. Semanas de jejum, e todo o mundo enchendo a cara de cerveja. Uma putaria só.

Por essas e por outras, só podia dar uma indicação de cerveja abadia, de qualquer estilo. A LaTrappe Quadruppel e a St. Bernardus 12 são cervejas de guarda e elevado teor alcoolico (cerca de 10%).
Mas, para ser mesmo engraçadinha, recomendo a Lúcifer, uma golden strong ale importada da Bélgica. Tem um toque levemente cítrico, frutado e apesar disso, tem um amargor forte (considerando-se o estilo). Só bebi uma vez, e há bastante tempo. Também amigas do dito-cujo, a Duvel, a Belzebuth e a Satan seguem o mesmo estilo, e também são belgas. Desculpe, a Belzebuth é francesa, e tem um teor alcoólico estupidamente alto (dá um Google). Ah, não metam essas cervejas na geladeira zero grau da Skol, é pra beber em uma temperatura em torno de 8 graus Celsius.

Se quiser ficar do lado do bem, vá de Deus, mais uma belga. É caaaara, top astro de Hollywood. É uma Brut / Champenoise feita na Bélgica (as duas primeiras fermentações) e França (maturação em método champenoise, isso mesmo, tipo as champanhes, inclusive na mesma garrafa). Confesso, nunca bebi. Também tem um teor alcoólico bem elevado, mas reza a lenda que estourar a rolha dessa garrafa não deixa nada a dever a uma Veuve Clicquot. Eu pessoalmente duvido, mas vai saber.

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