O Iluminado do rei King

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Este lugar desumano cria monstros humanos

Quando era bem pequena, antes mesmo de ser alfabetizada, meus pais compraram vários livros infantis, que eu adorava, aqueles cheios de desenhos e imagens. Mas depois disso, lá pelos 8, 9 anos, pulei direto para a literatura adulta. Não sei se meus pais se esqueceram de continuar alimentando a biblioteca com livros mais adequados à minha idade, ou se faltou dinheiro. Mas os livros de adulto estavam lá, pois meus pais gostavam de ler. Só mais tarde, na adolescência, com meus 11, 12 anos, por conta da escola, acabei lendo alguns livros tipicamente juvenis, em especial a coleção vaga-lume, que eu aliás super curti.

A primeira coisa que tentei foi Os três mosqueteiros, de Dumas (a versão integral, e não aquelas adaptações para crianças), não deu certo porque o livro tem passagens muito, mas muito chatas, só pra começar são várias páginas descrevendo a paisagem e o homem gascão. Tédio.

Catei um livro que minha mãe estava lendo, O amante de lady Chaterley, que me deu sono, imagine se ia me envolver com uma história daquelas, outro tédio. Então me caíram em mãos dois livros que me marcaram profundamente, O Iluminado, e O morro dos ventos uivantes. Não sei qual li primeiro, mas amo ambos até hoje.

Devo ter lido o Iluminado umas 30 vezes desde então, e foi minha iniciação a Stephen King. Não foi minha iniciação ao terror, pois já lera O coração denunciador e O gato preto, de Poe; mas estes são contos então não entram aqui, onde falo de romances e novelas de maior fôlego. Até hoje tenho um altar dedicado a Santa Trindade do horror, Poe, Lovecraft, King, e nada do que eu li chega aos pés destes três.

Adorei O iluminado. Adorei o garotinho, Danny, e suas crises de ausência sobrenaturais. Além do mais, era uma criança que se sentia distante dos demais, e eu entendia um pouco disso. Na época não tinha como precisar, mas a capacidade que King tem de criar personagens comuns, com histórias complexas, mas rotineiras, dando-lhes uma dimensão real é assombrosa, e mais assombrosa ainda a forma com que o horror se imiscui insidiosamente nesta realidade tão prosaica, virando-a pelo avesso e deixando suas unhas em frangalhos. As minhas pelo menos, eu as roía na época.

O enredo gira em torno de um casal e seu filho de dons mediúnicos, os Torrance. Ainda jovens, no início da casa dos trinta, fim da casa dos vinte, eles no entanto se encontram em uma situação pra lá de delicada. Ele, professor de inglês e aspirante a escritor, desempregado por conta de um problema grave envolvendo uma briga com um aluno. Ela, dona de casa, sentindo-se impotente diante de um casamento sob constante ameaça de fracasso, um marido alcoólatra em recuperação que inclusive já agredira uma vez a criança, Danny.

Jack (o pai) consegue um emprego incomum graças a um antigo companheiro de copo: passar todo o inverno tomando conta de um hotel nas montanhas do Colorado, que eventualmente fica completamente isolado do mundo por conta das pesadas nevascas. O antigo zelador, que tinha esposa e duas filhas, não aguentara o isolamento com a família, e assassinara todas elas com um machado, e depois cometera suicídio. Jack consegue o emprego, que parece ser sua última chance de evitar que sua família more literalmente na rua, e de terminar uma peça de teatro com a qual esperava fazer sucesso.

Nada dá certo, claro. Jack é um homem traumatizado, assustado, pressionado pelo fracasso, vulnerável e irritadiço. Danny se vê assombrado desde o início pelo mal que habita o hotel Overlook. Wendy se prende a um fio de esperança de salvar seu casamento com um homem em quem não consegue mais confiar, cujo fim a obrigaria a um duro recomeço junto de uma mãe a quem detesta. Sim, velhos ódios e ressentimentos familiares permeiam o livro e norteiam parte do comportamento das personagens.

Em algum momento da minha vida, pode ter sido ainda na terceira vez, ou na décima quinta em que li o livro, percebi que até um momento muito avançado da história não se pode ter certeza se realmente o hotel Overlook é assombrado ou se os personagens estão aos poucos enlouquecendo. Até porque, tanto Danny quanto Jack mostram-se extremamente suscetíveis a desequilíbrios. Os eventos são cabulosos, assustadores, descritos de forma vívida. Mas como o isolamento das personagens, do mundo real e também (principalmente) entre eles mostra-se intenso, resta a impressão sutil de que cada evento tenebroso possa ter sido um delírio pessoal.

Mas é claro que os fantasmas existem, e são literalmente fantasmas: sombras de um passado maligno. Projeções de energia, restos de nós e nossos atos. Mas estes fantasmas possuem propósito, e a impressão que dá ao fim do livro é que eles constituem uma unidade, que se tornou poderosa na medida em que atraiu para si seres humanos vulneráveis que passavam pelo hotel.

O livro é meio depravado, sem ser explícito, e nem é preciso. A depravação está ali como acessório de uma perversidade mais profunda, feita de humanos e suas desgraças. Não há monstros (com exceção das topiarias), apenas bandidos, condenados, humilhados, desvalidos. Há também crianças perdidas e inocentes, pelos corredores, pelo playground.Nunca fiquei me questionando se os fantasmas são apenas projeções usadas pela Grande Entidade do Mal que gerencia o hotel, ou se são almas aprisionadas, no sentido quase cristão da coisa, no sentido que Clive Barker dá às assombrações que habitam (literalmente) O Último Europeu em O Jogo da Perdição. Não há inferências nesse sentido ao longo do livro, ao que eu me lembre, então para mim a questão permanece aberta.

O isolamento das personagens é angustiante, posto que não é apenas um isolamento físico do resto do mundo, mas também um abismo emocional que se amplia cada vez mais com o virar das páginas. Os medos, desejos e ressentimentos de cada um deles, especialmente do casal Wendy e Jack, encontram eco na situação de crescente opressão, e torna-se difícil para nós, leitores, perceber onde termina a loucura e começa a possessão.

Adoro as páginas em que Jack persegue Wendy que, apesar do desespero, do horror inominável pelo qual está passando, consegue força física e emocional para combater o demônio em que seu marido se transforma, e de quebra, proteger seu filho, também física e mentalmente.

Wendy é uma das razões pelas quais eu detesto tanto a versão cinematográfica de Kubrick. Ele era um excelente diretor de cenas e atores, mas acho o roteiro de uma banalidade acachapante. Excelentes cenas, mas personagens rasas e unidimensionais, um enredo sem espaço para a real sordidez que salta a cada página do livro. No filme Jack é um escroto já de partida, um tremendo babaca que trata a esposa com impaciência e condescendência, a qual por sua vez se mostra uma mulher tola e descontrolada, que jamais teria a presença de espírito da original. As motivações se perdem no filme, as personagens não despertam nenhuma empatia, e a história se transforma em um conto banal de possessão.Outra razão é o final, que no livro é apocalíptico, e no filme é o próprio anti clímax.

Há muitas referências literárias na obra, mas a minha favorita, claro, é a de Poe: Tirem as máscaras! Tirem as máscaras! E a máscara da morte rubra dominou tudo. Muito foda. Aliás, todas as sequências que envolvem o baile de máscaras no Salão Colorado são arrepiantes, e é ele que deflagra o momento crucial do livro, em que a anteriormente quase-submissa Wendy (uma jovem de seus 30 anos típica da década de 70) começa a lutar para assumir as rédeas da situação, afastando-se do marido e encarando de frente a impossibilidade de estar vivendo em um lugar maligno e sobrenatural.

Além do trio central, há poucos personagens no livro. Personagens humanas. O chef do Overlook, Halloran, é um deles, e literalmente salva a pátria, pois, iluminado como Danny, orienta o menino a como agir em relação ao hotel mal assombrado. É uma personagem elegante e divertida, fundamental para o desenvolvimento do livro. O ex-melhor amigo e ex-alcoólatra Al Schockley também surge algumas vezes, acentuando a inadequação do fracassado Jack Torrance. Há também o gerente do hotel, Ulman, que aparece apenas como um contraponto a Jack, alguém contra quem ele se revolta e com quem se indispõe, quase levando-o a perder o emprego. Mas o palco e os personagens de O iluminado são o Overlook, e o trio da família Torrance, Jack, Wendy, Danny. Aliás, um palco incrível, diga-se de passagem. Luxo, dissipação, esportes, boa comida e boa bebida, festas, mafiosos, celebridades, políticos, sexo, violência, dinheiro. Tudo isso encravado em uma montanha isolada do mundo por metade do ano.

 

Meninas, eu li.

Como eu disse, a forma com que Wendy é retratada me incomoda demais no filme. Contudo, até os anos 1980, havia um padrão de personagem feminina nos livros de Stephen King, ao menos aqueles que são centrados em famílias. Não li Carrie, não sei se passa no teste de Bechdel, não sei se, ao contrário, reforça visões misóginas ao centrar a trama em mulheres desequilibradas sem que seu desequilíbrio seja problematizado, confrontado com a realidade que criou tais desequilíbrios. Mas li Salem’s Lot (ou A hora do vampiro), A zona morta, O cemitério, e as moças dessas novelas não passam de acessórios muito dependentes dos seus maridos/ namorados, emocionalmente inclusive. O Iluminado não é muito diferente. King é um grande retratista de pessoas, e ele de fato expõe a família tradicional e os relacionamentos homem/ mulher convencionais (anos 70) de uma forma muito perspicaz, mas quase naturalizada. Em vários contos (Ondas Noturnas, Ex-fumantes, As crianças do milharal, A balsa) acontece a mesma coisa. De fato, ao longo de parte da carreira de King os personagens centrais são homens, as histórias são sobre estes homens e seus fantasmas.

Ele começa a mudar um pouco de postura em meados dos anos 1980, talvez, quando escreveu Os estranhos, cuja personagem central é uma mulher. Ok, na verdade um homem e uma mulher, tecnicamente falando. No entanto, é a escritora Bobbi Anderson que põe em movimento toda a trama e a controla a maior parte do tempo. Eu, aliás acho esse livro muito bom. Trocas Macabras também tem uma protagonista feminina complexa, que vai muito além de ser o esteio do herói. Subsequentemente ele publica histórias fortes envolvendo violência contra a mulher, e eu ainda estou refletindo sobre estas histórias, pois dificilmente um homem escreve sobre este tema (violência doméstica, estupro) com sensibilidade, e força, colocando a mulher como real protagonista, como indivíduo complexo para além da violência que sofreu. Não vou falar destas obras agora (Saco de Ossos, os contos A corredora, Gigante do Volante, Um bom casamento), mas em outra ocasião, depois de refletir e conversar mais.

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Para ler bebendo…

Neve. Frio. Horror.

Um líquido negro e incendiário. Viscoso. Alcoolico. Um desafio.

A Petroleum da Wals é uma Russian Imperial Stout que durante alguns anos ocupou o posto de minha cerveja favorita (atualmente ocupado pela Vertigem, da cervejaria fluminense Mistura Clássica). Muito escura, ela tem 70 IBUs, e 12% de graduação alcoólica. Cai bem no meio da neve (pra mim, em qualquer lugar), até porque a temperatura de consumo ideal é cerca de dez graus (é, cabeção, nem toda cerveja é pra beber estupidamente gelada). Segundo a descrição no site da Wals (cervejaria mineira nascida ainda no século passado) a Petroleum é maturada com cacau.

A Petroleum foi criada em parceria com outra cervejaria, a Dum. Aparentemente ambas possuem o direito de fabricá-la. Não sei como está a situação hoje em dia, até porque faz tempo que não tomo essa cerveja. Falha que preciso consertar logo.

 

 

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