Emile Bronte e a paixão sem limites

 

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Por várias razões, não passei pela fase de leitura infanto-juvenil que normalmente as pessoas atravessam entre os dez e 14 anos, talvez; saí direto dos livros infantis com Mickey e a Chapeuzinho Vermelho para autores como King, Poe, Bronte, aos nove anos mais ou menos. Acabei lendo, pela escola, livros de Ligia Fagundes Telles e Orígenes Lessa, mas já era tarde, eu tinha sido estragada pelo horror e pelo gótico.

Um dos livros disponíveis lá em casa, na estante dos meus pais, era O morro dos ventos uivantes, da inglesa Emile Bronte, lançado em 1847. Integrava uma coleção de capa vermelha, dura, acho que uma coleção de bancas qualquer dos anos 1970.

O nome me impressionava. O morro dos ventos uivantes evocava noites escuras, paisagens cinzentas e solitárias, lobisomens e jovens viúvas, cemitérios e casas mal-assombradas. Sim, há fantasmas na história. Há muito horror também. Mas ele conta uma trágica história de amor doentio.

Eu li esse livro várias vezes, até mais ou menos os 28 anos. A partir de então, e até o presente momento, embora faça parte da formação do meu caráter e embora ele me impressione intensamente, nunca mais o li. Adquiri uma certa aversão por ambientes de agressão física. Sim, tem isso no livro. E muito mais.Relacionamentos abusivos; tortura psicológica; obsessões; vingança; animais, mulheres e crianças espancadas (sim, é um manual de abuso infantil). Talvez na infância eu visse apenas o lado romântico da coisa (um romantismo gótico), o amor inatingível, verdadeiro, imortal. Talvez eu tivesse um distanciamento maior em relação aos personagens e suas dores, talvez depois de presenciar a violência ao longo de algumas décadas nesse mundo perdido eu tenha me exaurido dela na ficção.

Mas, apaixonei-me pelo livro. Que, assim como Romeu e Julieta, gira em torno de um bando de adolescentes enlouquecidos por suas tempestades hormonais. Claro, não é só isso, senão não seria genial, e é genial porque transforma o banal em transcendente.

Heathcliff é um moleque de rua, cujas origens (étnicas inclusive) são desconhecidas, e que o patriarca da família Earnshsaw traz de Liverpool. Isso lá por 1775.O menino é pouco mais velho que a filha mais nova da família, Cathy. Ambos se encantam um pelo outro, e o próprio Earnshaw se apega à criaturinha, o que causa crescente ciúme no filho mais velho, Hindley, e incômodo à sua esposa, que permanece inabalável ao lado do filho, rejeitando o novo agregado. Quando ela morre, o caminho para Heathcliff fica livre no coração do pai da família, e ele passa um bom tempo crescendo ao lado de Cathy como irmão. A morte do patriarca é a grande tragédia que desencadeia o tenebroso e mesquinho círculo de ódios, invejas e vinganças. Em uma reação tipicamente adolescente de rapaz mimado e frustrado, Hindley exila Heathcliff do convívio da família, e ele passa a ser tratado como um servo _ e a moda antiga. Suas torturas são físicas e morais, e transformam o adolescente arredio em um rapaz amargo e carregado de um ódio cego e uma sede de vingança inabalável.

Há um divisor de águas na história que transforma Cathy aos 12 ou 13 anos, de uma verdadeira moleca a andar pelos campos e pântanos na companhia de Heathcliff, apesar de todos os castigos impostos aos dois (sério, crueldade infantil explícita) em mocinha da alta classe rural inglesa. Os velhos companheiros se afastam, mas a chama continua a queimar incessantemente.

É nessa fase que dá pra perceber que o amor entre eles não era mais próximo do amor de irmãos gêmeos, como alegam alguns. Mas claramente não era a paixão crua, física e urgente dos adolescentes em flor, pois adolescentes apaixonados trepam, principalmente em um fim de mundo rústico povoado de gente meio selvagem como é o cenário do livro. Quando ocorre o afastamento, fica claro que Cathy começa a sentir impaciência diante da teimosia e do caráter arredio de Heathcliff, embora este continue a idolatrá-la, sob a sombra de um medo crescente de perdê-la para este novo mundo rico, sofisticado, adulto. Perdê-la para o jovem Linton, vizinho abastado da família Earnshaw. Contudo, a “verdadeira” Cathy se sente feliz e a vontade com Heathcliff, é nele que ela pensa, que ela sente, que ela se conhece, com quem se identifica. Essa dualidade a deixa infeliz, mas ela continua a jogar o jogo da vida, e eventualmente Heathcliff parte de Ventos Uivantes. Cathy se casa com EdgardLinton, que entra para a radical lista negra de Heathcliff, encabeçada porHindley(e todos os seus descendentes até a décima quinta geração).

Pausa. Neste momento, ela tem cerca de 15 anos; Hindley, já casado, 20 e poucos. Heathcliff e Linton, 18, talvez. Lembro que uma vez uma amiga minha, falando da sua adolescência, disse que era desesperadamente apaixonada por um babaca (inevitavelmente um babaca), que chorava de desespero só de se imaginar sendo chifrada, e que quando soube que ele estava mesmo saindo com outra, cogitou seriamente levar uma faca pro baile e enfiar nos dois. Algo assim. Adolescência. Claro, nenhuma tragédia aconteceu, mas olha quanta paixão. Nenhum beijo jamais aconteceu no livro, mas olha quanto desespero.

Heathcliff é um homem mau. Ponto. O livro não discute a teoria da maldade e suas origens, relata as ações de um homem mau obcecado por uma mulher e pelo próprio orgulho. Se a gente se solidariza com ele por conta do sofrimento que Hindley (outro homem mau) causa a ele na infância e adolescência, se compreendemos perfeitamente seu desejo de castigar seu inimigo quando retorna depois de 3 anos de misteriosa ausência, toda a compaixão se esvai quando se torna claro que ele é, na verdade, um sádico sem empatia por ninguém, a não ser ele mesmo e sua amada, que percebe como extensão de si mesmo. Ele destrói uma enorme quantidade de vidas, inclusive a do próprio filho, mesmo quando sua vingança perde o sentido, com a morte de Hindley e, posteriormente, Linton. Torna-se claro que ele é um homem que se compraz no sofrimento alheio, ele se delicia com a dor e o desespero que causa, ele se cerca disso, precisa dessas pessoas que ele destruiu a sua volta, a seus pés, para continuar existindo. Não lhe traz paz ou alegria, mas é do que se alimenta.

Não gosto de relativizar a maldade, e digo isso porque muitas pessoas enfatizam a profundidade e complexidade do caráter atormentado de Heathcliff e da própria trama do livro para vir com aquele papo de “vamos nos abster de julgar, da nossa moralidade.” Olha, eu não quero muito abrir mão de uma moralidade que diz que espancar criança, cachorro, mulher é escrotão pra caralho. Que obrigar uma menina de 13 anos a se casar para roubar toda a sua fortuna é um traço de crueldade e mau-caratismo execráveis. Claro, a gente lê um romance (ou assiste um filme, ou, ou, ou) na intenção de se envolver com outros pontos de vista e outras dimensões. O Morro dos ventos uivantes nos conta uma tragédia complexa, uma rede de intrigas e desespero que se forma ao longo de anos. E esse exercício é enriquecedor, mas fechemos o livro ao final e lembremos que Heathcliff é mau. Aliás, sua amada também é ruim feito o pica pau. O fato de que ambos sofram muito (em grande medida, em resultado do seu egoísmo e crueldade) não mitiga o horror que trazem para o mundo.

Há várias razões para o fascínio exercido pelo livro, até nos dias de hoje. A despeito da minha opinião (moralista, sim, com certeza) muito negativa acerca do casal de anti-herois, eles também me encantam pela sua selvageria e seu desejo de liberdade, em um contexto extremamente rude mas também rígido, em que homens e mulheres possuem papéis e comportamentos definidos, pobres e ricos sabem seu lugar. Fico imaginando os leitores da época vitoriana lendo este livro (lançado em 1846), os dândis londrinos e as madames das high streets, a estranheza e até a revolta que deve ter causado… Ouvi dizer que não fez muito sucesso entre o grande público na época. Entende-se.

O livro é narrado por duas figuras marginais à história, Nelly, serviçal em Ventos Uivantes que acompanha as famílias ao longo dos anos; e Lockwood, inquilino em uma propriedade de Heathcliff já lá pela virada do século (1800), que testemunha o desfecho da angustiante história. É sua visita a Ventos Uivantes que abre o livro, uma visita tão incômoda que até o leitor deseja ansiosamente que ela termine  logo. Lockwood também se vê assombrado por um fantasma, uma menina-assombração muito assustadora. A aparição desperta seu interesse pela história daqueles que viveram ali, que acaba sendo contada por Nelly, então sua governanta.

O aspecto sobrenatural do livro, que me encantou em criança (eu era muito mórbida, já deu pra perceber) traduz a eternidade e a verdade do amor entre Heathcliff e Cathy. O interessante é que a imensidão deste amor não os redime em nenhum momento, nem na vida, nem na morte.

Meninas, eu li…

Uma das coisas que hoje, adulta, mais me causa estranheza é a completa falta de sexo no livro. Sério. Não é a rudeza, a morbidez, a crueldade incessante, a amargura, a narrativa envolvente e em dados momentos, sarcástica pra caramba. É a falta de sexo em um livro que trata de paixões devastadoras.

Abundam nascimentos e declarações de amor, mas em nenhum momento alude-se a uma noite de paixão a gerar uma criança ou extravasar o amor reprimido. Ao contrário: na noite de núpcias, Heathcliff expulsa sua jovem esposa do seu quarto, reservando-lhe um buraco qualquer na mansão. Para bom entendedor meia palavra basta, e ainda bem jovem percebi que Heathcliff não era um asceta porcaria nenhuma, era um devasso que passava as noites na esbórnia de álcool, jogo e, muito provavelmente, prostitutas. Mas condenou a pobre esposa ao exílio por crueldade e vingança.

Tudo aparece muito casto, castíssimo. O casal central Heathcliff e Catherine só vai trocar um cuspe praticamente na hora em que ela morre, e mesmo assim eles não sabem se se beijam ou se batem (literalmente: cabelos puxados, rosto arranhado, etc). As crianças que nascem parecem filhos da imaculada concepção. Desconto para Hareton, filho de Hindley e Francis, que viviam aos beijos pela casa. Entendo a pudicícia da época, mas acho um pouco estranha, levando-se em conta que é uma história de paixões extremadas e não convencionais.

As crianças e mulheres (e animais) se fodem o tempo todo. Apanham muito. Mulher não tem direito a nada, nem a dispor da sua herança. Embora Catherine seja uma mulher (menina, morre com 19, lembrem-se) forte e independente, que só faz o que quer desde a infância, o padrão não é esse, e a covardia, física inclusive, grassa. O filho que Heathcliff gera em sua esposa odiada muito provavelmente é fruto de um estupro, ou senão ambos ultrapassaram as normas morais da época ainda antes do casamento, quando a jovem ainda estava encantada com ele.

As pessoas morrem muito cedo (ninguém no livro passa dos 40 anos, que é mais ou menos a idade de Heathcliff quando morre). Apenas Nelly ultrapassa essa marca, do alto dos seus 43 anos ao fim do livro. As crianças, assim, ficam todas muito desprotegidas: Heathcliff ficou a mercê de Hindley, cujo filho (Hareton) fica a mercê de Heathcliff (isso eu jamais entendi como aconteceu), assim como a filha de Catherine e Edgard Linton.

Finalizo com uma chamada quase óbvia: o livro foi escrito por uma jovem, na primeira metade do século XIX. Nas Ilhas Britânicas as mulheres já escreviam e publicavam livros, que inclusive alcançavam boa tiragem (não foi o caso deste aqui, mas ok). No obscurantismo da cultura lusa (Brasil inclusive), isso ainda era impensável. Maria Firmina dos Reis publicou seu primeiro romance Úrsula em 1859. Em Portugal, não foi muito diferente, embora uma abadessa tenha publicado livros religiosos no século anterior. E mesmo o comportamento das moças do livro seria um escândalo impensável nessa cultura ibérica pra lá de retrógrada, em que até no século XX achava-se normal uma mulher não poder sair de casa sozinha.

E é estranho pensar no quão pouco “feminino” (no sentido estereotipado mesmo) O Morro dos Ventos Uivantes é. Em especial se pensarmos nas moças que nasceram no início do século XIX. Tanta crueza, violência, selvageria. Mocinhas indefesas esperando príncipes encantados? Pfuf. Coloca aí um pária de origem desconhecida, um bêbado contumaz, uma mocinha mimadinha que foge do marido, uma mocinha mimadinha que quase chifra o marido, e um marido bonzinho mas tão pateta que deixa sua filha adolescente ser roubada pelo pária. Quer mais?

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Para ler bebendo…

As cervejas que me veem a mente são as que carregam a tradição inglesa. A associação com e experiência da degustação cervejeira contou pouco, aqui neste caso. A primeira cerveja que me vem a mente é a clássica New Castle Brown Ale. Certamente, alguma cerveja clássica inglesa, pode ser também a EBS da Fueller’s.

A primeira é uma brown ale, como diz o nome, e uma das cervejas mais vendidas do Reino Unido. Tradicional, quase centenária, tem origem no “rude norte” inglês. Não é uma cerveja complexa, é fácil bebê-la. Seguindo o padrão do estilo, notas tostadas e carameladas aparecem na degustação. Ela tem cara de cerveja forte e pesada, SQN. Teor alcoólico não chega a 5%, enquanto que o IBU é de apenas 26 (eu gosto de cervejas amargas…). Mas é uma cerveja que costumava ser considerada a bebida de trabalhadores braçais, estivadores e que tais. Gente da pesada, como nossos personagens de hoje. Mas parece que atualmente virou modinha entre os hipsters, não sei se é verdade. Deve ser, já que apareceu no The Big BangTheory…

A ESB da Fueller’s é considerada uma top mundial (bicampeã do World Champion Bitter). É uma specialbitter, estilo que eu comecei a apreciar depois de velha. Na minha primeira noite em Londres ever, lá pelos anos 90, eu entrei num pub no norte da cidade e pedi uma cerveja, uma pint. O bartender me perguntou, bitter ou lager, eu dei de ombros e pedi bitter, o que não foi legal, porque nunca tinha bebido uma dessas, e dessas, você bebe bem menos fria do que a maioria das cervejas (em torno de dez graus). Hoje em dia a ESB é uma das minhas cervejas favoritas. Bem mais complexa do que a primeira indicação, traz algo de cítrico e ao mesmo tempo picante. O caramelo também se faz presente, mas não, não é uma cerveja doce. Tampouco chega a ser amaaaarga. É superequilibrada, teor alcoólico de 5.9% e IBU 35.

 

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