A estrela de Clarice Lispector

clarice

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”

A Hora da Estrela é possivelmente o livro mais popular de Clarice Lispector. Virou filme nos anos 1980, entrou na lista de mais vendidos na Grécia em 2017. É um livrinho, pequeno, nada difícil de ler, a princípio (tente ler  A paixão segundo GH pra você ver como Clarice pode ser osso duro), com poucos personagens e uma história banal. Mas como sabemos, é a capacidade de transformar o banal em sensacional que faz um gênio, não?

A notória Macabea vem para o Rio de Janeiro com sua tia ainda muito jovem, nem 20 anos tem. Também não tem família (sua tia logo morre), nem estudo ou profissão. Vinda de Sergipe por nada mais ter a fazer em sua terra de origem, também não encontra muito o que fazer por aqui, além de trabalhar (muito mal) como datilógrafa (a história se passa entre os anos 1960 e 1970), passar fome, ver os navios no cais, tomar café com muito açúcar no botequim, sonhar sonhos indefinidos de sexo e conforto. Ela se contenta com pouco. Sabe pouco. Agradece muito, se desculpa por tudo, não espera nada.

Tem alguns encontros estranhíssimos com um outro imigrante chamado Olímpico (não Severino, Olímpico, poderoso, acima de todos). Ao contrário, dela, o rapaz tem ambições, paixões, deseja subir, ascender. Não se conforma. Devolve com desrespeito o desrespeito que lhe dedicam, e com juros. O “namoro” não dá certo, claro, e Macabea vê seu “amor” ceder aos enganos da farta suburbana Glória, de origem mais nobre (hahaha) em cuja casa se lanchava café com bolo, pão com queijo, cozido no fim de semana.

O fascínio da banalidade de Macabéa, entre outras coisas, reside na capacidade de Clarice em nos arrastar sem dó para aquele universo em agonia, denso e desesperador, mas de um desespero sem muito sangue ou cor. Nem por isso menos intenso. Macabea não era triste, era crônica. Gostava de pensar em nada, nada. Vazia. Mas se sente doer o tempo todo. Quem conta sua história não lhe tem muita piedade, as vezes se revolta com sua passiva existência, se irrita com sua falta de fibra. Não há condescendência na narrativa. A vida vazia e densa de Maca termina em um beco, interrompida em seu momento mais brilhante (explosão): uma cartomante prevê seu casamento com um rico e doce estrangeiro (!!!!). Na próxima encarnação, querida, na próxima.

No início do livro o narrador (que é uma voz masculina) oferece uma lista de opções de título para a obra que se inicia. A minha preferida é: Saida discreta pela porta dos fundos. Essa é a vida comum de tanta gente comum. Mas quem somos nós para nos acharmos tão especiais assim?

A simplicidade dá mesmo trabalho, e o vazio nem sempre é simples, mas tampouco é sempre tolo.

E a aparente simplicidade da história traz consigo uma narrativa complexa que não apenas diz respeito a banalidade e a crueldade da banalidade de muitas vidas, mas também (e talvez principalmente) fala de nós, leitores, do autor, do escrever em si. Em muitos trechos o narrador se dá muito mais a conhecer do que o mundo que descreve. E é nele que nos espelhamos, pois ele não é analfabeto, certo? Come bem, estudou, sabe juntar palavras que fazem sentido e possuem substância. A Hora da Estrela não trata apenas da tristeza da existência de tantas vidas vazias que certamente caminham por aí; trata também (principalmente) da palavra, de criar o real através do dizer, do fazer narrativo.

Clarice é complexa, em cada página uma explosão, uma ironia, uma piscadela, uma lágrima, uma risada debochada. São algumas dezenas de páginas que contam isso aí: algumas semanas na vida de Macabea, e seu derradeiro momento – sua hora de estrela.

Esse livro é muito doido, Macabea é muito louca, e Clarice era um puta gênio.

 

Meninas eu li

“Aliás, descubro eu agora _ eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo, um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.”

O narrador se apresenta como Rodrigo, mas entre parênteses, Clarice avisa: na verdade, Clarice Lispector. É um deboche devastador com a autoridade exigida pela voz masculina. Espera-se que o escritor seja um homem (espera-se que qualquer competência seja um homem); ela se faz de homem, e avisa que está a fazê-lo. Sem mais.

Macabea é uma moça, e coisas de moça povoam seu mundo, contado (inventado) por um “homem” que na verdade não o é. A declaração de que um escritor, para contar a história que se anuncia, tem que ser homem porque mulher é por demais piegas, de partida se desmoraliza, mostra-se como a piada mordaz que de fato é.

A autoridade/ credibilidade da voz masculina passa por um processo demolidor de desconstrução, tanto no tratamento dado ao narrador quanto na presença da figura masculina de maior destaque na obra, o tal Olímpico, macho-chato-do-caralho. Os diálogos entre ele e Macabea são de chorar. O vocabulário dela é de uma pobreza infinita, maior ainda do que a dele, mas ela tenta estabelecer pontes de comunicação mais ousadas, mais inquisitivas talvez. Ele reage com uma puta agressividade, porque macho-chato-do-caralho não pode nunca ser questionado, desautorizado. Machuca seu brio…

Ele a trata mal demais, fala mal da pele, do cabelo, da voz, do corpo… Independente de acharmos que ele tem razão (porque o narrador, ele mesmo, a descreve de forma muito negativa, embora em termos não exatamente ofensivos), qual o sentido de Olímpico continuar seus encontros com a moça, perguntamo-nos nós. Quando ela tenta interpretar e questionar minimamente a própria linguagem, acuado, ele diz que ela pergunta demais, e que lugar de mulher perguntadeira é na zona (ou algo assim). Pode isso? Pois é. O machismo não tem mesmo classe.

O texto que iniciou Clarice no mundo literário é um texto de viés claramente feminista, Eu e Jimmy, e só um tolo acredita que ela realmente crê na existência de uma pieguice inerente a voz feminina. Esqueçam as cretinices que a galera adora viralizar na Internet, Clarice não despreza o feminino. Mas como ela vai tão além, tem muita gente que prefere patinar na lama e ficar falando bobagem. Ao longo da sua vida, ele não questionou apenas a condição da mulher, mas a condição humana em si, o existir. E talvez por isso o seu desafio feminino passe tão batido.

Outro problema para que as pessoas percebam o feminismo em Clarice resulta da dificuldade de as pessoas identificarem o feminismo, já que tendem a achar que ele se caracteriza inevitavelmente por um discurso arrumado e articulado, fruto de discussões políticas/ acadêmicas/ etc, que reclama para si as mais diversas filiações. Não é. O feminismo é a luta constante contra a desqualificação da mulher na sociedade, contra a sua inferiorização, só isso. Não admitir que seu namorado levante a voz para você é feminismo, não deixar que ele se faça de vítima e faça você de louca toda vez que for pego “no erro” é feminismo, não rir de piada ofensiva para as mulheres é feminismo. Entre outras coisas. Simples assim.

brutus

Para ler bebendo…

Que tal uma America IPA com RAPADURA, heim heim heim? E nordestina ainda por cima? Então, essa amarguinha (70 IBUs) vem do interior da Bahia, e eu sei que é escrotão falar dela só porque vá lá, A Hora da Estrela tem uma personagem central que é imigrante nordestina. Alagoas não é a Bahia, to ligada. Mas vá lá. A cerva é boa, prometo.

Tem outra com rapadura, a

 

 

 

 

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